De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Sobre se sentir melhor

Lá se vão 14 dias que mexi na minha medicação de novo e sinto que finalmente acertei o alvo.

Me sinto melhor.

Nós trocamos a medicação pra uma que tanto eu como minha médica já acreditávamos que traria benefícios mas estávamos evitando e buscando alternativas devido ao seu alto custo.

Eis que no meio daquele mar revolto que eu me encontrava cheguei a conclusão que estava fazendo uma escolha ruim. Que era uma economia burra. Que deixar de fazer um tratamento que tinha altas chances de funcionar por medo de aumentar os custos do tratamento apenas estava prolongando um problema.

Fiz as contas, pedi ajuda. Falei com a psiquiatra e mudamos. Se funcionar darei um jeito de arcar com isso.

Até porque com a saúde mental voltando fica muito mais fácil buscar formas de resolver isso.

Não a nada como a sombra da depressão na sua cabeça dizendo o tempo todo que sair de lá é impossível.

Consegui me desvencilhar dessa mentira e rapidamente senti a diferença. Coisa de poucos dias e eu já estava menos dopada, dormindo melhor e acordando bem disposta e de bom humor.

Voltei a conseguir a ouvir música.

Havia meses que eu não conseguia ouvir música.

Nem me lembro a última vez que eu tinha acordado de bom humor.

E só essa mudança do sono já trás um alívio que só quem já esteve se afogando em si mesmo sabe como é.

Eu me sinto eu mesma novamente.

Não canto vitória ainda. Sei que estou começando um longo processo de cura. Mas pelo menos agora parece que voltei a andar.

Ainda tenho crises de ansiedade. Algumas bem fortes. Ainda sinto meu corpo falhando e doendo por causa das semanas de descuido. Faz parte desse retorno retomar o cuidado que ficou no caminho.

Mas eu queria contar isso. Que hoje eu me sinto bem. Que sinto vontade de cantar. E sorrir. E dar risada. Que não sinto mais aquela dor constante e nem o desespero.

Hoje eu estou me sentindo bem.

E temos de comemorar cada bom momento.

E fazer o possível pra que isso dure.

Hoje eu me sinto eu mesma.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Sobre ser uma represa

 Tem sido difícil.


Eu estou num processo depressivo fortissimo, com crises de ansiedade constantes.

Tem sido difícil.

Todos os dias eu tenho que me esforçar para controlar o que eu sinto, separar o joio do trigo, não deixar que os sentimentos de medo e insegurança e tristeza inundem e vazem para todos os outros aspectos da minha vida.

Tenho que respirar fundo e dentro da minha cabeça, com esforço e paciência, impedir que essa vazão de sentimentos sobre mim mesma e sobre a situação que eu me vejo hoje, se espalhem pelas minhas relações com minha filha, meu parceiro, meu pais, minha irmã, meus amigos...

Impedir que eu transborde para todos os lados e com isso afunde assuntos e pessoas me fazendo sentir coisas que eu na verdade não estou sentindo.

Como se eu tivesse um pequeno balde em minhas mãos eu fico pegando os sentimentos que escapam e devolvendo de volta ao lugar de onde eles vieram, racionalizando e tentando entender o que eu realmente estou sentindo sobre cada aspecto da minha vida.

Mantendo minhas dores numa represa e tentando controlar a vazão com a qual esses sentimentos passam por mim de forma que as coisas façam algum sentido. Não impedindo a dor mas deixando cada coisa em seu lugar.

No entanto as vezes eu caio para dentro da água e quase me afogo. 

Por sorte eu sei nadar. E sei que a margem está logo ali e eu vou sair da água. Sei que pra cada braçada que eu dou, nadando contra essa corrente que me puxa para o fundo, vou me tornar mais forte e me levar mais perto da segurança da terra firme.

Sei que logo vou poder colocar meus pés no chão seco e me levantar. E que um mundo enorme, um continente inteiro de vida, estará lá para ser explorado e vivído.

Hoje eu sinto uma dor que eu não consigo quantificar. Uma tristeza que eu achei que não ia sentir tão cedo. Sinto falta e sinto culpa e sinto medo. Me sinto insegura e por vezes sozinha nesse enorme lago que se formou nessa represa que precisei criar. Muitas vezes estou cansada demais pra continuar nadando e apenas me deixo flutuar torcendo pra corrente não me levar pra muito longe de onde eu quero chegar.

E eu sei que por vezes esses sentimentos mantém meus pensamentos nublados e me fazem esquecer que se eu simplesmente colocar meus pés para baixo vou ver que eles encostam no chão e eu não vou realmente afundar. Com dificuldade e apenas com a cabeça pra fora da água eu ainda assim poderei caminhar em direção a segurança. E vou ver que terei muitas mãos tentando me ajudar no caminho.

Eu achei que a essa altura do campeonato eu já estaria navegando por esses águas com mais tranquilidade. Foi um pouco de ingenuidade achar que mudar a minha vida inteira seria algo a ser absorvido tão rapido.

Hoje eu estou perdida na vastidão de uma represa. É um lugar tão escuro e inóspito que tenho dificuldade de remar. Mas eu tenho uma luz que me guia para onde preciso ir. Então eu respiro fundo e nado em direção a ela todos os dias. Mesmo quando ela não sabe.

Eu estou cansada. 

Eu sei que estou.

Todo dia. 

Mas eu tenho em mim essa capacidade de enxergar a saída por mais distante que ela esteja. Eu vejo isso dentro de mim. Uma vontade gigante de seguir em frente e ver o que me espera do outro lado daquela barragem. Um amor maior que a vida para me guiar e me dar um norte.

Então eu sigo.

Sigamos.

A vida está logo ali, esperando. 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Aquele sobre a separação

 Estamos em Junho e eu não sei onde foi parar o tempo.

O que acontece é que no final de fevereiro eu me separei do meu marido depois de 23 anos juntos.

Eu não sei se consigo dimensionar o que isso significa.


Quando nós começamos a namorar eu tinha 16 anos e ele 22. Ele já tinha sido casado e tinha uma filha. Pra mim ele era meu primeiro namorado de verdade.


Desde o começo no nosso relacionamento, ali nos primeiros dias, nós já nos entendemos como um relacionamento aberto apesar da gente mesmo não entender ainda como isso funcionava. Nunca tínhamos tido contato aberto com pessoas que tinham esse tipo de relacionamento mas nós sabíamos que não queríamos privar um ao outro de viver outras experiências.

E isso funcionou, as vezes mais e as vezes menos, nos nossos 23 anos.

Ao ponto de que eu, por exemplo, não tenho desejo nenhum de algum dia viver um relacionamento que não seja não monogâmico. Simplesmente não faz sentido.

Mas essa foi só uma parte da nossa relação.


O fato é que eu fiz 40 anos esse ano. Nós íamos completar 24 anos juntos em Julho desse ano.


Mas o relacionamento acabou antes disso.


Tudo que eu sou hoje eu construí ao lado dele. A pessoa adulta que eu me tornei existe com essa marca. Eu não conheço uma outra vida adulta sem ter ele do meu lado.

Vocês conseguem conceber isso? São 23 anos e meio. É uma vida inteira.

No tempo que estivemos juntos nós passamos por dificuldades, ele esteve comigo durante tantas crises incontáveis, durante todo meu tratamento, durante tudo que eu conheço...

Nós temos uma filha adulta linda, incrível, do primeiro casamento dele. E essa é uma coisa que eu tenho muito certa dentro de mim: nós nós separamos dos pais, não dos filhos. Depois de 23 anos como poderia ser diferente? Ela vai ser minha filha pra sempre...

Juntos tivemos nossa filha mais nova. Rebeca é tudo que eu sonhei e muito mais. Ela é inteligente, esperta, com uma empatia que vale milhões, uma disposição pra tudo, é determinada e persistente de um jeito que me ensinou como eu quero ser.

E agora ela está sofrendo o luto da separação dos pais. E ela entende porque essa separação aconteceu. Ela viu como ninguém mais poderia todo o processo de deterioração do relacionamento que levou a separação. E ela entende que isso é melhor, por mais que doa muito.


Ela entende. Mas sofre.

E me dói como nada no mundo ver minha filha sofrer.

E eu tenho que lembrar que ela já estava sofrendo com as brigas que ficavam cada vez mais frequentes. Sempre o mesmo motivo, sempre a mesma briga, sempre as mesmas dores...

Até que ponto nós nos deixamos levar por uma situação ruim porque não conhecemos nada diferente daquilo?

Eu vivo muitas alegrias nesses 23 anos. Muitas. E eu amo muito tudo o que eu vivi e construí nesse período.

Separar não foi uma decisão facil. Eu perdi uma família. Eu abri mão de toda uma realidade e de uma esperança de futuro. Eu abro mão de todo um passado porque eu vi que o futuro na verdade não era mais o que eu sonhei um dia. Porque o presente já não era mais o mesmo.

Nós conversamos muitas vezes sobre nós separar antes de realmente nós separarmos. Foram anos de insatisfação e meses de conversa pra entender que nossa relação já tinha mudado. Que nós não éramos mais os mesmos e não nos víamos mais como o casal que um dia fomos.

Em mim crescia uma mágoa cada vez pior que me trazia tristeza e raiva com a qual eu já não conseguia mais ignorar ou lidar.

Por anos eu achei que enquanto a gente se amasse e quisesse as mesmas coisas nós poderíamos resolver qualquer coisa.

Mas o que eu percebi é que algumas coisas não foram resolvidas. Foram apenas colocadas de lado, numa expectativa de que o tempo levaria aqueles problemas embora.

Não levou. 

Eventualmente precisamos olhar para o que nós queríamos de uma relação e perceber, ou pelo menos eu percebi, que eu queria coisas que ele não era capaz de me dar.

E ele percebeu que eu queria coisas que ele não estava disposto a abrir mão ou a fazer.

E foi isso.

Chegamos em diferenças irreconciliáveis. 

Chegamos naquele ponto em que existe amor. Mas não mais do mesmo jeito. Existe carinho. Existe respeito. Mas que nada disso é mais suficiente pra sustentar uma relação saudável.

O amor não era mais suficiente.

Não queríamos mais as mesmas coisas.

Eu queria mais.

Eu quero mais.

E principalmente, eu quero mais de mim.


Mas isso tudo me quebrou num momento que eu já estava quebrada.

E eu não estou conseguindo me levantar.

Faz 3 meses e meio e eu sinto uma tristeza que eu tenho dificuldade de lidar.

De repente eu tinha uma mão cheia de certezas e eu não sei onde elas foram parar.

Eu sinto medo. E me sinto sozinha. Uma solidão que só 23 anos acordando e dormindo todos os dias do lado de alguém pode me trazer.

Eu me sinto insegura. E culpada.

Eu não consigo trabalhar direito. Ou cuidar da casa. Ou cuidar de mim.

Eu cuido da Rebeca. E ela cuida de mim. Nós estamos ligadas e sendo a força uma da outra no meio de uma tempestade que não tem previsão de quando vai acabar.

Mas vai acabar.

E eu sei disso.

Uma hora a dor vai ficar mais suportável. E haverão mais dias bons que ruins.

Uma hora as lembranças vão parar de doer e vão fazer parte da história da nossa vida. E vai ser bom. Já é bom.

Uma hora vai ficar mais fácil. Aos poucos. Um pouco mais a cada dia.

Mas por agora eu sinto que eu não estou dando conta.

Eu me sinto completamente perdida.

A deriva.

Então eu me agarro com força no que me ajuda a continuar no rumo.

Me apego no que eu vi antes de mergulhar.

E sigo.


Tá muito muito difícil.


Mas vai passar.

E eu vou sair do outro lado muito melhor do que eu entrei.

A tempestade vai passar.