De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Porque eu (quase) nunca grito

 

Aviso de Gatilho - alguns assuntos abordados podem servir de gatilho para pessoas em momento de fragilidade. 

2021 não começou fácil pra mim. Me sentindo deprimida e sobrecarregada, problemas financeiros, com a família, o trabalho não indo pra frente porque todos estão passando por algum processo pessoal que demanda atenção e tempo. Já bastante fragilizada, acabei entrando em uma discussão em que algo aconteceu que simplesmente me devastou por dias.


Eu tive que gritar.


Eu não grito. Eu posso, numa discussão, levantar a voz, mas isso é diferente de gritar. De perder o controle. Eu não grito.

E existe um motivo para que eu evite discussões e, especialmente, gritar a quase qualquer custo. E é sobre isso que quero falar.

Eu conversei com um amigo sobre o que havia ocorrido e enquanto ele me confortava ele perguntou porque eu fazia isso. Porque eu me segurava tanto. Porque eu aguentava situações que mereciam um grande "Vai tomar no C..." em silencio, ou me controlando. Se as vezes eu não deveria me dar o direito de não me controlar.

E eu pensei, e tentei explicar.


Em 2002, 2003, quando eu tive a minha maior crise que me levou a ser internada, foi um momento da minha vida que eu não tinha nenhum controle das minhas emoções. Tudo era demais, intenso demais, forte demais, dolorido demais. Eu sentia uma dor dentro de mim que eu não sou capaz de descrever. Uma vez eu me referi a ela como "uma dor na alma" e já ouvi essa descrição de outras pesssoas. 

Era insuportavel. Eu me sentia presa naquela dor. Eu sentia a necessidade de me machucar fisicamente para tentar colocar pra fora de mim a dor que eu sentia por dentro. E quando eu perdia o controle, naquele momento, tudo aquilo, toda aquela dor, me dominava, eu tremia, chorava, e sentia que não podia suportar aquilo tudo.


Mas eu faço tratamento desde então e eu nunca mais tive uma crise igual a essa. Mesmo. Tive outras crises mas nunca mais cheguei tão fundo.


Mas tem esse porém. 

Eu vivo me controlando o tempo todo. O tempo todo. Existe esse fantasma que me segue e com o qual eu convivo todos os dias de saber que um dia isso pode sim acontecer de novo. E me controlar foi o meu jeito de aprender a lidar com as crises mais leves que vieram e administrar meus sentimentos de novo.

Mas discutir é uma coisa complicada, né? Como discutir sem sentir a emoção ficar mais forte? Sem se exaltar?

Pois eu tento. Muitas vezes consigo. Mas é um exercício. E determinação.

E eu não grito.

Porque quando eu grito, se eu cheguei em um ponto da discussão em que eu acho que eu preciso gritar - muitas vezes não para agredir, mas na tentativa de chamar a atenção da outra pessoa, dar um susto, de forma que a pessoa preste atenção em mim e volte a me ouvir - essa intensidade me leva de volta aquela dor. Aquela intensidade que eu sentia antes do tratamento. Eu sinto a dor correr o meu corpo denovo durante os minutos que eu me permito gritar e sentir isso. 

Doi. Doi muito. Eu começo a tremer, eu sinto que perco o controle do meu corpo, de mim mesma. E doi.

E uma das coisas que eu sinto, hoje, que me mantém, é que eu me amo muito. Eu amo muito a minha vida. E ninguém merece a minha dor.


Ninguém merece a minha dor.

Então eu não vou dar isso de graça a qualquer um. Me custa tanto, me custa demais. E eu não vou ceder a minha integridade pra quem não merece 1/10 de mim.


Ninguém merece a minha dor.


E ter conseguido externar esse sentimento, essa certeza, foi algo... Libertador.

Eu me sinto mais em paz comigo mesma de ter consciencia disso. De ter conseguido racionalizar e explicar e poder falar sobre isso, hoje, quase 20 anos depois.


Acho que é uma mensagem importante: Se ame. Se ame muito. Se priorize. Seja a pessoa mais importante na sua vida. Você merece o seu proprio bem.

Ninguém merece a minha dor porque EU mereço o melhor de mim.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Sobre 2020

 O ano está acabando e a sensação que eu tenho é de "já?". Que o tempo passou muito rápido. 

Ao mesmo tempo eu tenho a percepção que 2020 foi, pra mim, um ano com uns 3 anos dentro dele. Tantas coisas diferentes aconteceram...

O ano começou Janeiro com festa com os amigos, com família, com altas conversas na madrugada, no passar a noite em claro, na bebida em excesso para alguns, na brincadeira das crianças...

É estranho pensar que no começo do ano eu ainda tinha em casa uma criança...

Tivemos também desemprego, depressão, companheirismo. Tivemos problemas sérios de saúde e o descobrir como alguém se importa mais do que o esperado. Tivemos ajuda e carinho de várias formas e pessoas que decidiram apostar em nós. E isso o ano todo foi uma constante...

Quando final de Março chegou com a COVID 19 e a quarentena foi como entrar em stand by. Sabíamos que as restrições durariam mais no Brasil que nos outros países, mas não estávamos preparados para perder o ano de 2020 inteiro. Quiçá o de 2021 também... Estávamos tão despreparados que conforme os meses passaram nós naturalizamos a tragédia e fomos impelidos a conviver com ela. 2020 parou o tempo por alguns meses, mas não tinha condições de pararmos nossas vidas por tanto, tanto tempo.


Aqui nós vimos a necessidade financeira bater a porta, a urgência em encontrar uma solução, a saúde mental pedir socorro. E veio Julho e Agosto e uma ideia que mudou tudo e virou meu mundo de ponta cabeça.

Um projeto que no começo nem era meu, que entrei de gaiato, e foi nele que me encontrei como não me encontrava há mais de uma década! E eu abracei e me joguei e agora começamos a ver, aos poucos, os resultados tímidos de todo o trabalho. Confiantes e nos divertindo, seguimos firmes em nosso propósito. Felizes.

E nesse ano louco eu me reencontrei. Encontrei a vontade de estar bem comigo mesma. De ser verdadeira. De explorar. De sentir. De vencer o medo. Encontrei minha inspiração. Minha vocação. Encontrei partes de mim que se escondiam há tanto tempo que ainda estou aprendendo a reconhecer.


Esse ano minha criança aqui de casa cresceu tanto e amadureceu tanto e tão rápido que hoje já é uma pré adolescente. Seus gostos mudaram. Seus interesses. Seu jeito de interagir. Suas brincadeiras tem outras histórias. Suas histórias tem outros personagens. Seu dia já é preenchido por outras pessoas.

Foi ela me mostrar que estava pronta pra esse vôo solo que me permitiu olhar pra mim. E olhar pra mim me mostrou que esse é um exemplo que quero dar pra ela. De que nunca é tarde pra vivermos nossos sonhos.

Minha forma de viver no mundo encontrou seu lugar, e eu pude ter a certeza que sei quem eu sou, o que eu quero, no que eu acredito, o que e quem eu amo. 

2020 no fim, com seus 3 versos me foi um ano bom. E é difícil admitir isso em meio a tantas tragédias. Mas pra mim ele foi.


Que 2021 me traga a continuação e realização desse trabalho, dessas verdades, dessas coisas boas.

Mas pode resolver a parte da tragédia também. Porque, né? 

Um feliz Ano Novo pra todos vocês! Que assim como eu vocês encontrem motivos para sorrir e acreditar no melhor.

Um Ano Novo de esperança.


domingo, 1 de novembro de 2020

11 anos de Mãe Bipolar e Filha Jacaré

 Hoje faz exatamente 11 anos que comecei o Blog!

Podemos remontar tanta coisa de lá para cá, tanto crescimento, tanto aprendizado.


Como ser mãe da Rebeca mudou tudo na minha vida.

E como quem ela é hoje aos 11 anos me permite mais uma vez mudar tudo e transformar meu mundo de ponta cabeça.


Eu estou hoje lutando pra sair de uma crise. Faz parte da vida bipolar: você não sabe quando e por quanto tempo mas sabe que ela vira: a crise. Uma crise depressiva, uma hipomania, uma mania, uma crise mista... E a certeza que podemos ter quando qualquer uma delas se instala, por sorte, também é a mesma: da mesma forma que ela vem ela eventualmente irá embora.


Nossa vida é cíclica.


Vivi esse último ano inteiro no que pode ser considerado uma crise de hipomania. Será?

Honestamente não tenho certeza.

Mas foi um ano diferente de todos os últimos, não sei, 10 anos?

Talvez por finalmente sentir a segurança e a liberdade depois de todo esse tempo para agir e ser eu mesma, aos poucos, semana após semana, eu fui mudando, me reconectando a partes de mim que estavam escondidas há anos, que pensei que estivessem perdidas.

Esse último ano foi um ano de mudanças intensas, de reconectar, de reencontrar, de amadurecer. De redescobrir uma face de mim: a minha.

Eu me dediquei por 10 anos totalmente a ser mãe da Rebeca. Era o que eu sentia que devia fazer.

Nesse último ano Rebeca mudou muito. Ela deixou de ser uma criança indefesa e está se tornando uma pré adolescente que busca sua independência, que se sente mais segura para não precisar mais de mim na mesma intensidade. 

E isso me deu liberdade para que eu pudesse ser eu mesma novamente. Para que eu pudesse olhar para o mundo e redescobrir o que eu gosto. As coisas que eu quero. Me fez perguntar quem eu era, quem eu quero ser hoje.

Tem sido uma jornada incrível e vocês a acompanharam esses anos todos por aqui.

E eu tento como posso trazer um pouco desse novo momento também. Porque chega uma hora na vida de toda mãe que seus filhos começam a andar sozinhos e você precisa descobrir o que fazer com as mãos novamente.

A coisa mais importante que eu recuperei esse ano, de 2020 mesmo, no meio de uma pandemia, foi escrever.

Em algum momento em que tentávamos ver como viver e sobreviver a essa pandemia, não poder sair de casa, não ter outra saída a não ser buscar algo criativo para fazer, me libertou.

Numa combinação de ideias, amizade, liberdade, oportunidade, eu reencontrei a única coisa que eu sempre sonhei além da maternidade: a escrita.

Hoje é o que eu faço. Hoje faz parte da minha rotina como não fazia desde a adolescência. Hoje é meu trabalho. Hoje escrever tem sido um sonho que se torna realidade.

Mas eu disse que estou lutando com uma crise. E estou.

No último mês essa que parecia uma crise de hipomania degringolou para uma mania completa e eu fui aos poucos perdendo contato com a realidade.

Precisei dar 2 passos pra trás. Voltar 6 casas no tabuleiro.

E eu senti muito medo que a única forma de recuperar meu equilíbrio seria abrir mão do meu sonho mais uma vez.


Eu tenho pessoa que me amam do meu lado dizendo que eu não preciso fazer isso. Que eu não preciso abrir mão de nada. Que talvez isso signifique que, passada a crise mais forte, nós tenhamos que lidar com uma certa instabilidade. E que tudo bem.

Mas que eu não preciso perder quem eu estou descobrindo ser hoje, nem o que eu quero, ou meus sonhos, para alcançar meu equilíbrio. Porque eu preciso ver o que eles já vêem: o ponto de equilíbrio mudou.


Hoje faz 11 anos que comecei o Blog.


O ponto do equilíbrio mudou.


Você vem comigo descobrir esse novo mundo que se abre?