"Hoje é um daqueles dias em vou de um extremo a outro em poucos minutos. Um gatilho bobo desperta uma série de sensações e pensamentos que mudam meu humor, tão alegre e animado pela manhã, e me deixam a mercê dessas nuvens de desânimo, tristeza e pessimismo.
Mostrando que não deve ser tão diferente ser mãe quando se é ou não bipolar, por que toda mãe tem o seu ladinho insano quando se trata de cuidar do filho. Esse blog tem o objetivo de narrar a experiencia de uma mãe que tem de enfrentar essa fase da vida com a duvida constante, o medo, de como, quando e quanto, sua bipolaridade pode afetar a vida de sua filha. Lidando com a linha tênue entre "normal" e "anormal"...
De mãe e louco todas temos um pouco
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
Sobre Mitos e Instabilidades
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Porque eu (quase) nunca grito
Aviso de Gatilho - alguns assuntos abordados podem servir de gatilho para pessoas em momento de fragilidade.
2021 não começou fácil pra mim. Me sentindo deprimida e sobrecarregada, problemas financeiros, com a família, o trabalho não indo pra frente porque todos estão passando por algum processo pessoal que demanda atenção e tempo. Já bastante fragilizada, acabei entrando em uma discussão em que algo aconteceu que simplesmente me devastou por dias.
Eu tive que gritar.
Eu não grito. Eu posso, numa discussão, levantar a voz, mas isso é diferente de gritar. De perder o controle. Eu não grito.
E existe um motivo para que eu evite discussões e, especialmente, gritar a quase qualquer custo. E é sobre isso que quero falar.
Eu conversei com um amigo sobre o que havia ocorrido e enquanto ele me confortava ele perguntou porque eu fazia isso. Porque eu me segurava tanto. Porque eu aguentava situações que mereciam um grande "Vai tomar no C..." em silencio, ou me controlando. Se as vezes eu não deveria me dar o direito de não me controlar.
E eu pensei, e tentei explicar.
Em 2002, 2003, quando eu tive a minha maior crise que me levou a ser internada, foi um momento da minha vida que eu não tinha nenhum controle das minhas emoções. Tudo era demais, intenso demais, forte demais, dolorido demais. Eu sentia uma dor dentro de mim que eu não sou capaz de descrever. Uma vez eu me referi a ela como "uma dor na alma" e já ouvi essa descrição de outras pesssoas.
Era insuportavel. Eu me sentia presa naquela dor. Eu sentia a necessidade de me machucar fisicamente para tentar colocar pra fora de mim a dor que eu sentia por dentro. E quando eu perdia o controle, naquele momento, tudo aquilo, toda aquela dor, me dominava, eu tremia, chorava, e sentia que não podia suportar aquilo tudo.
Mas eu faço tratamento desde então e eu nunca mais tive uma crise igual a essa. Mesmo. Tive outras crises mas nunca mais cheguei tão fundo.
Mas tem esse porém.
Eu vivo me controlando o tempo todo. O tempo todo. Existe esse fantasma que me segue e com o qual eu convivo todos os dias de saber que um dia isso pode sim acontecer de novo. E me controlar foi o meu jeito de aprender a lidar com as crises mais leves que vieram e administrar meus sentimentos de novo.
Mas discutir é uma coisa complicada, né? Como discutir sem sentir a emoção ficar mais forte? Sem se exaltar?
Pois eu tento. Muitas vezes consigo. Mas é um exercício. E determinação.
E eu não grito.
Porque quando eu grito, se eu cheguei em um ponto da discussão em que eu acho que eu preciso gritar - muitas vezes não para agredir, mas na tentativa de chamar a atenção da outra pessoa, dar um susto, de forma que a pessoa preste atenção em mim e volte a me ouvir - essa intensidade me leva de volta aquela dor. Aquela intensidade que eu sentia antes do tratamento. Eu sinto a dor correr o meu corpo denovo durante os minutos que eu me permito gritar e sentir isso.
Doi. Doi muito. Eu começo a tremer, eu sinto que perco o controle do meu corpo, de mim mesma. E doi.
E uma das coisas que eu sinto, hoje, que me mantém, é que eu me amo muito. Eu amo muito a minha vida. E ninguém merece a minha dor.
Ninguém merece a minha dor.
Então eu não vou dar isso de graça a qualquer um. Me custa tanto, me custa demais. E eu não vou ceder a minha integridade pra quem não merece 1/10 de mim.
Ninguém merece a minha dor.
E ter conseguido externar esse sentimento, essa certeza, foi algo... Libertador.
Eu me sinto mais em paz comigo mesma de ter consciencia disso. De ter conseguido racionalizar e explicar e poder falar sobre isso, hoje, quase 20 anos depois.
Acho que é uma mensagem importante: Se ame. Se ame muito. Se priorize. Seja a pessoa mais importante na sua vida. Você merece o seu proprio bem.
Ninguém merece a minha dor porque EU mereço o melhor de mim.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Aquele sobre o aniversário de 11 anos
Rebeca completou 11 anos em um Brasil em quarentena. Um lugar que, apesar das flexibilizações duvidosas país afora, as pessoas permanecem tendo de ficar o áximo possível em suas casas, se protegendo e protegendo os outros de uma doença perigosa, sem cura.
As vezes banalizamos para poder continuar vivendo sem estar em pânico constantemente, mas a verdade é que a Epidemia não acabou e continua matando quase mil pessoas todos os dias.
E nesse cenário de incertezas e medo, Rebeca fez 11 anos.
Muito mais do que uma mudança de um número, eu acho que ela não percebeu as mudanças que aconteceram com ela durante esse ano. Ela era uma criança de 10 anos, no aniverário do ano passado quando ainda me pediu para ganhar um boneca, das caras, de presente de aniversário.
Esse ano nós vamos pintar o cabelo dela de colorido como presente de aniversário.
E como se comemora aniversário em meio a quarentena? Com parabéns virtual? Sim, claro!
Mas eu achava que era pouco.
Eu queria fazer o aniversário dela ser especial, memorável, divertido!
Rebeca gosta de festas grandes, preparar as festas, monstar lembrancinhas. O que poderia suprir esse gosto?
Decidi que iríamos viajar.
Pedi a uma prima minha que tem casa na praia se ela poderia nos emprestar a casa dela por alguns dias para comemorar o aniversário da Rebeca, Conversei com ela com mais de um mês de antecedência para ter certeza que daria certo e que fosse no dia mais proximo possivel do aniversário da Beca.
Minha prima concordou. Nos organizamos e ela conseguiu que nós fossemos passar 5 dias exatamente no intervalo que aconteceria o aniversário da Rebeca. estaríamos na praia no dia certo!
Comecei então a organizar as coisas.
Eu queria que ela tivesse contato com outras crianças. Conversei com dois casis de amigos meus proximos e com quem nós temos convivido durante a quarentena por motivos de trabalho e saúde mental cujos filhos são amigos da Rebeca para que eu pudesse levar as crianças na viagem.
Com isso em mente, tentei fazer com que eles se sentissem seguros de deixar as crianças comigo e planejei a viagem para que meus pais pudessem ir conosco alguns dias e os amigos da Rebeca em outros, assim ela teria um pouco de cada coisa.
Arrumei também para que a irmã dela pudesse ir junto. Convidei um amigo meu que esta trabalhando conosco e esta sempre aqui em casa para nos acompanhar, assim poderiamos ir com dois carros pois ele poderia nos auxiliar sendo um dos motoristas.
Semanas passam e meus amigos não me dão a resposta definitiva sobre as crianças. Meus pais estão com duvidas pois minha mãe tem muita dificuldade de sair de casa. Eu sigo organizando a viagem conforme posso, contando com a presença deles.
Eis que 3 dias antes de irmos viajar um dos meus amigo dias que não vão poder. Duas das tres crianças que eu tinha convidado estavam ali deixando de participar.
No dia seguinte disso meus pais dizem que não vão também. Minha mãe não esta confiante o suficiente.
1 dia antes da viagem eu sinto como se tudo estivesse dando errado. Fico pessima. Peço ajuda para lidar com a frustração. Recebo a ajuda. Recupero o folego. Bola pra frente e vamos em frente!
E fomos
E foi ótimo! Foi uma viagem deliciosa! Apesar de não irmos realmente até a praia em si para não nos arriscar com COVID nem nada, a casa tinha piscina. OS dias estavam muito quentes e ensolarados e pudemos aproveitar bastante a água, os dias na rede, passar a noite jogando jogos. Relaxar e apenas curtir o momento.
NO dia do aniversário propriamente dito nós cantamos parabéns e cortamos o bolo que eu havia feito e levado para a ocasião, do jeito que ela pediu. Fizemos o parabéns virtual com meus pais e minha irmã.
Meu amigo que nos acompanhou é fotógrafo, levou a camera, e nos presenteou com um registro cuidadoso e delicado de um aniversário fora do normal.
Mas tudo que sobre, desce, não é mesmo?
No sábado, ainda na casa de praia, o dia amanheceu chuvoso e frio, Todos cansados dos dias anteriores, cada um se fechou em seu mundo. Baixas de humor. Uma crise.
E então que ela veio. Uma crise forte, certeira, avassaladora.
Eu sabia que eu ia ter um rebote devido a ansiedade de ter preparado a viagem. Eu me dediquei muito e dei muita importância e estava muito preocupada para que o aniversário da Rebeca fosse tudo de melhor que eu pudesse fazer. E isso sempr tem uma consequência.
Mas eu estava esperando a consequencia quando voltasse para casa, não no meio da viagem.
Passei o dia entre o lá e o cá, brigando com o sentimento dentro de mim. Perdi. Em determinada hora apenas pedi que o Taz assumisse o cuidado com as crianças e me deixasse tentar descansar. Eu tinha esperanças de que, se eu conseguisse dormir, o sentimento fosse embora.
Mas ela veio. A dor. Uma dor de proporções que eu não sentia há mais de 10 anos. Um sentimento de vazio, de inadequação. De solidão. De abandono. Uma dor dentro de mim, uma dor na alma, que tentava me convencer que eu não tinha valor nenhum, que eu era fraca, que tudo que eu tinha ali era por pena. Que no fim eu estav sozinha, sempre. Que eu iria perder tudo que eu achava que tinha conquistado. Que nada daquela felicidade do dia anterior iria permanecer...
Eu chorei copiosamente deitada na cama por mais de uma hora. Entre ondas de choro e alguns poucos minutos de calma eu tentava me levantar para pedir ajuda, para pedir companhia e não conseguia me mexer.
Quando depois dessa 1h hora, ainda em crise e chorando, percebi que talvez eu finalmente conseguiria levantar eu ainda consegui pensar que não queria que Rebeca ou meu sobrinho me vissem assim, não queria assusta-los. Então eu não podia chamar o Taz. Eu precisava que ele continuasse com as crianças.
Então levantei e fui até o quarto mais perto, onde meu amigo e minha entenada estavam cochilando e gritando, batendo a porta, implorei por ajuda. O tom que usei foi o de uma briga. Foi um grito, uma bronca. Foi a única forma que consegui fazer as palavras saírem da minha boca. Eu brigava não com eles mas com a dor dentro de mim que me sufocava.
Por sorte meu amigo entendeu e sem questionar apenas levantou e veio a minha ajuda. E ficou comigo, no quarto até que eu conseguisse me acalmar, falando comigo e me dando carinho.
Foi importante e necessário e serei grata sempre.
Naquela noite fui deitar cedo para deixar que tudo passasse, que o dia acabasse.
Acordei um pouco melhor no dia seguinte. Domingo. Dia de voltar para casa.
A viagem de volta foi boa. Lenta, por causa d echuva e neblina. Boa.
Demorei mais alguns dias para conseguir voltar ao normal. Não me culpei. Não fui culpada.
Olho para esse dias com muito carinho. Mesmo tendo tido essa crise tão forte eu não acredito que ela tenha estragado nada do que foi. Tivemos momentos maravilhosos, divertidos, e o mais impotante de tudo é que Rebeca ficou feliz com o aniversário dela. Ela se divertiu.
Eu alcancei o meu objetivo de dar a ela dias especiais para que ela lembrasse desse aniversário com carinho.
No meio de tantas coisas, eu recebi muito amor. Muita ajuda.
E se tem algo que eu quero lembrar desses dias é desse carinho.
Quero guardar na memória o amor.
Rebeca agora tem 11 anos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
Setembro Amarelo - Sobre como eu comecei meu tratamento
O Setembro Amarelo é uma iniciativa de ações para aumentar a consciência e as politicas e cuidados em prevenção ao suicidio.
Eu já contei aqui antes sobre partes da minha vida. Sobre como fui diagnosticada pela primeira vez muito cedo, ou de como decidi que queria ser mãe e como o tratamento correto me permitiu fazer isso.
Depois de pensar a respeito por algum tempo eu achei que contar um pouco sobre a crise que me levou a finalmente buscar tratamento de verdade, antes de eu pensar que queria ser mãe, era importante. Especialmente durante o Setembro Amarelo.
Apesar de ter tido meu primeiro diagnóstico muito cedo, aos 13 anos, como PMD - Psicose Maniaco Depressiva - que era como o Transtorno Bipolar era chamado na época. (Sim, faz bastante tempo!) eu só comecei a me tratar de verdade aos 21 anos. Durante toda minha adolescência eu encarava minhas mudanças de humor como parte de quem eu era, como parte da minha personalidade. Muitas vezes como falhas - como a dificuldade de terminar o que eu começava, por exemplo, ou minha insônia e incapacidade de dormir e acordar cedo. - e coisas de adolescente.
Em 2002 algo acontceu que mudou muito minha vida. Minha avó por parte de pai, Angelina, morreu um dia antes do aniversário do meu pai. Na época eu trabalhava fazendo clipagem - uma coisa que não existe mais hoje em dia - e acordava as 4h da manhã para trabalhar. Minha vó tinha cancer de pancreas e todos sabiamos que ela não tinha muito tempo. Naquele dia, as 5h da manhã enquanto eu trabalhava, o telefone tocou e eu atendi. Minha tia, com a voz embargada, me pede para dizer ao meu pai que minha avó falecera.
Ainda hoje eu choro ao lembrar disso.
Eu, chocada, meio desesperada, ouço meu pai descendo as escadas da casa, e chamo ele quase gritando. Digo para minha tia, sem saber o que fazer, para ela contar a ele. Ele vem rapido para o meu lado, preocupado, pergunta o que aconteceu. Eu, já em prantos, entrego o telefone e digo "é a vó".
Dali em diante algo mudou.
No fim de semana anterior meu pai havia ido ver minha vó, se despedir, e me chamou para ir junto. Ele disse: "Di, vamos ver sua avó. Ela não tem muito tempo..." ou algo assim. Era um domingo de manhã, eu havia dormido depois de amanhecer e não queria acordar e sair e respondi: "não, hoje não, eu vou na semana que vem..."
Só que a semana que vem nunca chegou. E eu não conseguia lidar com a culpa.
A partir dai eu comecei a ter crises de depressão e mania cada vez mais frequentes. Eu ciclava com muita rapidez. Saia todos os fins de semana, bebia muito.
Por mais que coisas boas tenham acontecido naquela época, a forma como eu lidei com essas coisas foi totalmente norteada pela crise profunda que eu estava. Tudo era muito intenso, tudo era muito forte, confuso.
Naquele ano nós tivemos nosso primeiro relacionamento poliamoroso, ou era assim que eu entendia. Saimos da casa dos meus pais para morar juntos exatamente quando eu perdi meu emprego. Ao mesmo tempo que as coisas pareciam ótimas as crises iam piorando. O relacionamento se deteriorava junto comigo e isso fez com que a maioria das pessoas entendesse que era o relacionamento que me fazia adoecer e não o contrário. Na época não entendiamos o que estava acontecendo.
Depois de quase um ano da morte da minha avó eu estava no fundo do poço. A dor que eu sentia dentro de mim era insuportável. Eu tinha episodios de auto flagelo que eu não tinha desde os 13 anos. Eu não conseguia dormir, passava 72h acordada para dormir 4h e depois passar mais 72h acordada. A velocidade dos meus pensamentos era tâo grande que eu mesma não conseguia acompanhar e ter uma linha de raciocinio logico, terminar um pensamento sem entrar com outro no meio. Sentia que no trabalho eu era a unica capaz de resolver problemas que existiam há anos, de forma simples, por que eu era capaz de pensar coisas que ninguém havia pensado antes. Fazia planos mirabolantes para tudo ao mesmo tempo que a dor me dominava e eu chorava por horas. Com medo do relacionamento acabar, porque eu sabia que estava quase impossivel de conviver comigo, eu tinha discussões e mais discussões, suplicava para não ficar sozinha.
Até que em algum momento, num dia igual qualquer outro, eu consegui dormir um pouco mais. E quando acordei, com a mente mais clara do que havia estado no ultimo ano inteiro, eu tive um insight. Eu entendi o que estava acontecendo comigo.
Durante toda a minha infância eu convivi com a minha mãe, primeiro com crises devido a sindrome de panico, e depois com ela em tratamento e melhorando. Eu sabia que eu tinha esse diagnostico desde pequena, eu apenas não havia dado bola pra ele. Mas naquele dia, naquela manhã, eu entendi que tudo aquilo que eu sentia, toda a dor, toda a angustia, toda a agitação, tudo, eram sintomas de uma doença. E que se era uma doença então ela tinha tratamento. Eu entendi que eu poderia ficar bem, que eu podia não sentir tudo aquilo. Eu entendi que eu podia ficar bem...
Eu liguei para os meus pais e pedi que eles averiguassem no livro de referência do meu convênio que eu havia deixado na casa deles o telefone de um psiquiatra. Expliquei o que estava acontecendo, que eu sabia que estava doente e que eu precisava de ajuda, Eles prontamente me ajudaram, me arranjaram o telefone e eu marquei a primeira consulta.
Não foi um começo fácil.
A psiquiatra era muito competente, referência em tratamento de transtornos afetivos fui saber depois, e ela teve muito cuidado antes de fechar o diagnostico.
O que eu aprendi desde ali é que quando chegamos ao psiquiatra pela primeira vez, geralmente em crise, eles fazem uma avaliação durante algumas consultas onde eles analisam não apenas o que falamos, mas como nos comportamos e qual a reação que temos com a medicação inicial que eles passam. Ela trabalhou com algumas hipoteses de diagnostico até fechar com o Transtorno Afetivo Bipolar, ou Transtorno Bipolar de Humor. Na época eu apresentava um quadro de neurose e ansiedade também.
O tratamento começou, começamos testando alguns medicamentos. O importante, inicialmente, ela dizia ser retomar meu sono. Eu precisava dormir. Mas mesmo com a medicação eu não conseguia.
E o cansaço me dominava. E por consequência o desespero.
Eu cheguei a usar maconha como forma de relaxamento para ver se isso me ajudava a dormir. Deixei de usar quando vi que nem isso funcionava.
Com os remédios na minha mão, e com tudo a minha volta ruindo, tudo que eu queria era poder descansar. E fazer as pessoas a minha volta pararem de sofrer por minha causa.
Eu comecei a sair de casa para escrever e respirar. Ia para a padaria perto e ficava lá por horas, sem vontade de voltar para casa. A noite, na hora de dormir, eu exagerava nas doses da medicação para ver se isso me faria dormir por mais tempo e eu finalmente poder descansar.
Até que eu comecei a não sentir nada. Apenas cansaço. Eu só queria descansar.
Nesse dia eu tinha consulta com a psiquiatra. Eu relatei tudo isso para ela. E, melhor do que eu, ela entendeu para onde aquele caminho estava me levando.
E ela pediu a minha internação.
Eu concordei. Eu entendia que estava doente e eu confiava nela. Mas quando ela disse: "Traga seus pais amanhã, vou explicar para eles, e vamos internar você essa semana" eu disse que não "não, essa semana não, eu tenho muitas coisas pra fazer ainda". Ela disse "não é assim que funciona, Adriana. Você pode fazer tudo depois. Agora você precisa se tratar".
E, sabem de uma coisa?
Ela tinha razão.
Eu levei meus pais, meu namorido, e todos entenderam o que precisava ser feito e o que iria acontecer se eu não fosse internada naquele momento.
Eu passei 14 dias no hospital. A maior parte do tempo eu dormi. Eu tomei doses altíssimas de remédio, controladamente, para que eu dormisse o maximo de tempo possível.
Todos os dias a medica ia me ver, assim como meu psicólogo, e ela me questionava sobre como eu me sentia. Especialmente se os pensamentos de morte haviam desaparecido.
Nos primeiros dias eu nem entendia a pergunta direito. Eu achava estranho, porque eu só queria descansar. Mas conforme os dias passavam e eu dormia mais e meus pensamentos ficavam mais claros, eu entendia porque ela havia me internado.
Ela tinha visto o risco que eu estava, silenciosamente, me colocando. Ela tinha experiência para ver o que esses sentimentos de cansaço, de culpa, de desespero, de inadequação, iriam me levar.
Eu acho, olhando hoje, que ela tinha razão.
Mas ela me resgatou. Me internou num momento que sozinha eu não era capaz de sair daquele buraco escuro. E isso foi a luz que eu precisava.
Eu sai do hospital direto de volta para a casa dos meus pais. Na época eu não sabia, mas eu continuava internada em internação domiciliar. Eles eram responsáveis por mim. Eu não podia ter acesso a minha própria medicação, eles eram responsaveis por me dar cada remedio nos horarios corretos, garantir que eu tomava todos, que eu dormia, e que iria em todas as consultas com a psiquiatra, a cada 15 dias, e no terapeuta semanalmente.
Foram mais 6 meses assim. Eu lembro de flashes dessa época. Lembro que eu tive que reaprender a sentir cada sentimento de novo. Tive que redescovrir quem eu era.
Mas essa parte da história fica pra outro dia. Por que, a parte mais importante, e eu preciso que você entenda isso, é:
Eu estou aqui. Eu estou bem. Eu tenho uma vida boa, feliz, e satisfatória.
Eu não estou curada. Eu continuo e sempre terei Transtorno Bipolar. Isso é uma das minhas caracteristicas, uma das partes de quem eu sou. Eu tenho muitas limitações. MAS EU ESTOU AQUI.
Eu tenho algumas oscilações de humor. Mas eu nunca mais tive uma crise tão profunda como essa de 17 anos atrás. Há 17 anos eu fui resgatada de mim mesma. Eu procurei ajuda e eu recebi a ajuda que eu precisava. E por mais dificil que tenha sido, por mais percalços que eu tenha tido no caminho, não desistir do tratamento, persisitir, me permitiu chegar aqui e contar que sim, é possível.
A dor pode passar. Procure ajuda. Consulte um medico, procure fazer terapia com um psicologo, peça ajuda as pessoas ao seu redor que se dispuserem a ajudar. Insista no tratamento. O começo é dificil, demora um pouco para encontrar o seu caminho. Mas é possivel!
Não desista. Você não esta sozinho. E o que eu posso fazer é contar a minha história e esperar que, tendo um exemplo, você possa encontrar a força de buscar a ajuda médica que precisa. Ajuda profissional.
Vou deixar aqui duas informações importantes, o telefone do CVV - Centro de Valorização da Vida, grupo de auxilio e atendimento, e o site da ABRATA - Associação Brasileira de Transtornos Afetivos, onde você encontra informações, e acolhimento a portadores e familiares de transtornos afetivos:
CVV: - disque 188
ABRATA: http://www.abrata.org.br/
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Uma pausa pro café...
As vezes nossa vida parece que nos coloca num turbilhão. São emoções que por vezes não conseguimos conter, que nos paralisam, nos corroem, tornam a convivência algo quase impossível. Seja para nos dar o tempo que precisamos para nos curar, seja para nos proteger e proteger os outros de algo que não podemos evitar, o tempo é muitas vezes nosso maior aliado.
Saber respeitar seu tempo, e o dos outros, dentro do que é possível no dia a dia, é um exercício consciente.
Saber que não se está sozinho e que outros talvez se sintam como você nesse momento pode pelo menos mostrar que todos temos nossos monstros para lidar.
E não precisamos lidar com eles sozinhos.
Cada um sabe o momento que estar junto é possível. É necessário.
Se você está por aí, saiba: quando conseguir eu estarei aqui pra você.
E vamos tomar esse café juntos...
Por agora, senta, sente o aroma e toma um café quente. Com muito açúcar, pois como diria o Sábio: não existe açúcar demais.
Apenas sinta o perfume das flores e deixe o tempo passar.
Tudo passa. A tempestade também vai passar.
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Sobre conviver com um bipolar...
Eis que recebi uma comentários querendo saber sobre como é a relação minha e de meu esposo e como essa relação é afetada pela bipolaridade. E eu achei que era um assunto que merece atenção e um texto mais longo do que uma resposta rápida.
Não vou entrar em detalhes mas espero abordar a questão de como se relacionar com um bipolar de forma que ajude.
Vamos lá:
Quando eu meu marido começamos a namorar eu já tinha recebido um diagnóstico inicial de Psicose Maníaco Depressiva. No entanto eu não fazia nenhum tipo de tratamento com psiquiatras ou terapia, nada.
Não era algo que eu entendia e considerava relevante. Minhas mudanças de humor constantes eram vistas como parte de quem eu era. Não era visto como uma doença e minhas ações e reações não eram caracterizadas como sintomas.
Era uma peculiaridade. Eu era "difícil" e "briguenta", muitas vezes "sensível" ou "exagerada", sempre "instável". Eu era adolescente e estava vivendo uma "fase rebelde".
O próprio termo bipolaridade ainda não era algo difundido nem na comunidade médica e as pessoas não falavam sobre transtornos mentais. A internet ainda era um bebê caminhando e celulares só faziam ligações.
Ok, sou velha.
Eu e meu esposo namoramos por 5 anos até chegar o momento em que eu comecei meu tratamento.
Não sei se teriam sido 5 anos mais fáceis se já soubéssemos que eu tinha uma doença e já fizesse tratamento.
O que eu sei é o que nos vivemos.
Acho que é importante falar que por mais que fosse difícil pra ele lidar comigo durante as crises, também era difícil pra mim lidar com ele.
Pessoas não são fáceis. Pessoas são. Um indivíduo tem diversas características pessoais que o tornam único, algumas positivas e outras não tanto. A bipolaridade é uma característica médica, como seria ter diabete, pressão alta, ou outra enfermidade que requer tratamento.
Dito isso, eu entendo que não é fácil.
Quando meu namoro começou meus amigos não acreditavam que o relacionamento duraria muito tempo. O fato de eu ser volúvel e inconstante os fazia acreditar que eu enjoaria do relacionamento em 1 ou 2 meses.
Claramente não foi o que aconteceu.
Mas um fator determinante para isso é que eu não estava vivendo nenhuma crise aguda naquele momento. Eu estava relativamente bem e isso se manteve por muito muito tempo. Não que eu não tivesse alterações de humor, mas elas eram administráveis e passavam apenas como uma personalidade forte.
Eu acho que com relação a minha bipolaridade nosso verdadeiro teste veio em 2002, 2003. Já estávamos juntos há anos e uma série de fatores convergiram para que eu tivesse uma crise depressiva muito aguda, muito grave e que foi a que me levou ao tratamento, a uma internação e uma mudança completa na minha vida.
E acho que quem me perguntou deve conhecer alguém talvez com um caso como o desse momento.
Eu sei o que eu vivia dentro de mim e sei o que meu esposo e família me contaram sobre como foi viver comigo naquela época.
Eles não eram perfeitos, mas posso dizer que o apoio de todos que escolheram se manter próximos foi essencial para o sucesso do meu tratamento.
Agora, não foram todos os meus conhecidos que conseguiram lidar com isso.
Pessoas que eu gostava muito se afastaram de mim, alguns para se preservar, outros por não querer a responsabilidade, e outros apenas porque eu deixei de ser uma companhia agradável.
Meu marido pensou em me deixar mais de uma vez. Meus pais tinham medo do que podia acontecer. Minha irmã sentiu raiva em alguns momentos.
É muito difícil você ver uma pessoa que você gosta ser tomada por um sofrimento que não pode ser medido ou demonstrado, difícil de ser entendido.
Quando é possível saber se aquela reação foi real ou foi por causa da doença? Será que se aceitar um comportamento ou uma ação que teria sido motivada pela crise você não estaria dando justificativas e desculpas para a pessoa bipolar usar quando convir mesmo fora da crise?
Meus pais, minha irmã e eu sempre fomos muito próximos e muito ligados e temos essa ideia de fazer tudo pela família.
Um relacionamento amoroso não tem essa premissa. Pode ter a promessa romântica, mas não a premissa. Porque se relacionar com alguém é uma escolha. (Ou deveria ser)
Então eu entendo que meu esposo, na época namorado, fez uma escolha consciente de ficar comigo. Antes e durante e depois da crise.
E ele teve que se relembrar disso muitas e muitas vezes ao longo dos 20 anos que estamos juntos. Ele faz essa escolha todos os dias ainda hoje.
Se ele sente raiva de vez em quando? Claro que sente. Se brigamos? Sem dúvida. Quase nos separamos diversas vezes.
No fim, quando a poeira abaixa e estamos mais calmos pra pensar e conversar sempre decidimos continuar juntos.
Mas olha, não é pra todo mundo.
E tudo bem.
Tem algo muito importante que é base fundamental para tudo ter dado "certo" até hoje: querer melhorar.
Quando eu tive a tal crise em 2002 eu tive um momento de clareza que me fez entender o que eu estava vivendo e sentindo como parte de uma doença e isso foi algo transformador.
Porque doenças podem ser tratadas e administradas. É possível viver bem. Eu não precisava passar por tudo aquilo, eu não precisava viver daquele jeito e nem ser aquela pessoa. Eu podia melhorar.
Eu acredito que o fato do meu marido ter ido comigo ao médico, ter conversado e aprendido o que estava acontecendo comigo, ter meu terapeuta dando a ele ajuda e dicas do que esperar e o que caracterizava a doença fez diferença na descisão dele de ficar do meu lado e me ajudar.
Ele acreditou em mim. Ele entendeu que era uma doença. Ele acreditou que aquilo podia mudar. E eu, do meu lado, me comprometi a seguir o tratamento.
E olha, não foi fácil nem rápido. Eu cheguei a abandonar o tratamento após uma perda e retomei e me mantive no mesmo porque eu decidi ser mãe e a única forma segura de fazer isso era alcançando uma estabilidade que eu nem sabia como era.
Mas eu queria ficar bem. Eu queria melhorar acima de tudo. E eu sabia dentro de mim que isso era possível porque eu já tinha visto isso acontecer com outra pessoa.
Vamos pular muitos anos pra frente.
O blog me permitiu aprender muito e conhecer muitas pessoas. Muitos conhecidos da minha adolescência apresentaram ao longo dos anos algum tipo de transtorno, seja a bipolaridade seja ansiedade, pânico, etc.
Uma coisa que eu aprendi é que ninguém está a salvo de um dia viver uma crise de algum transtorno mental. Uma pessoa que nunca teve nada pode ter uma depressão pós parto. Ou uma depressão profunda ao tentar migrar para outro país. Ou um transtorno de pânico devido a pressão irreal de um trabalho infeliz.
E todas elas podem precisar de ajuda.
Mas a gente só pode ajudar quem quer ser ajudado.
E a gente só consegue ajudar outra pessoa se a gente estiver bem.
É possível adoecer por tentar ajudar alguém que se recusa a seguir um tratamento.
O mundo não para de girar esperando a gente ficar bem. Nem existe atestado de afastamento pra ficar junto com o amigo ou amor que não está bem e precisa de companhia ou supervisão.
Você não deixa de se ofender ou se magoar porque você sabe racionalmente que aquela pessoa não tem controle do que está fazendo ou falando.
Não é culpa de ninguém. Nem do doente nem do companheiro. Só é.
Se a pessoa não quiser se tratar ela vai ter ações para boicotar o tratamento. Consciente ou inconscientemente.
Agora, como pessoa bipolar, eu sei como é difícil aceitar que você não vai tratar só a crise. Que o que você tem é uma doença crônica e que para alcançar e manter-se sob controle você vai precisar se tratar para o resto da vida.
Cara, o resto da vida é muito tempo.
E o caminho pra alcançar a estabilidade é muito lento. Você começa o tratamento muitas vezes sendo dopado. Você precisa interiorizar e aceitar que muito do que você achava que era algo que te definia na verdade era um sintoma de uma doença e que pra ficar bem você vai ter que abrir mão do que você sabe sobre você e passar por um longo processo de reaprender e redefinir a si mesmo.
Você vai tentar diferentes remédios e diferentes doses e combinações antes de encontrar algo que te faça mais bem do que mal. Vai passar meses e anos, no começo duvidando de si mesmo e depois recuperando sua auto estima.
Quem estiver do seu lado vai escolher estar ali.
Então, acho que depois de tudo que eu contei e disse, quero terminar com um:
Vale a pena.
Fazer o tratamento vale a pena. Insistir, lutar, vale a pena. O que você ganha é muito mais do que você deixa para trás.
Ninguém merece sofrer.
E se você for a pessoa que está próximo de um bipolar vivendo uma crise, força.
Ninguém pode fazer a escolha de ficar por você. Eu espero que você faça a melhor escolha pra você e pra quem você ama.
Que vocês encontrem paz e felicidade em suas vidas. Eu não sei qual escolha vai ser essa. Nem sempre o melhor pra mim vai ser o melhor pra você. E tudo bem.
Mas eu te aconselho a fazer isso de forma honesta e calma. Sem culpa ou pressões.
O caminho de cada um é de si mesmo.
Nos podemos apenas escolher caminhar lado a lado, ou não.
Espero ter ajudado vocês a pensar sobre isso.