De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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sábado, 16 de março de 2024

Sobre adoecer e se curar

 Depois da minha  separação em fevereiro de 2022 eu entrei em uma depressão profunda.

Vivi um processo de luto intenso e duro, sofri demais pela decisão que tomei mesmo não me arrependendo dela. 

Saber que a relação tinha alcançado o limite de onde poderíamos ir juntos não fez a dor ser menor e nem o processo de deixar pra trás todos os sonhos que sonhamos juntos menos triste e difícil.

E eu passei 2022 praticamente inteiro sem conseguir cuidar da minha alimentação e por consequência a da Rebeca. 

Rebeca que viveu todo esse luto também, em silêncio,  lutando sozinha com o trauma e o medo de ficar sozinha, de ser deixadas pra trás e ser negligenciada.

E nós duas nos afogados na comida e principalmente nas massas e no fast food.

Ganhamos muito peso, e como consequência problemas de saúde. Colesterol alto foi o mínimo.

Eu vivi 2022 comendo miojo com salsicha e queijo ralado. Essa era a minha alimentação básica.

Rebeca comia macarrão com molho  e queijo ralado, sanduíches,  muitos doces.

A depressão era real para nós duas. 

Em 2023 queríamos nos cuidar, mas algo aconteceu. 

Eu comecei a ter problemas para comer. Eu comia cada vez menos, não conseguia engolir. Me sentia muito fraca, não conseguia carregar pesos ou subir um único degrau de escada sem ajuda. Minha força simplesmente havia me abandonado.  

Eu perdia peso muito rápido. Não tinha energia pra ficar acordada. 

Eu tive muito medo. E comecei a ir em médicos,  um atrás do outro,  para entender o que estava acontecendo comigo.

Foi só em Julho do ano passado que fiz um exame que mostrou que eu estava com um problema grave de gordura no fígado e uma fibrose hepatica moderada.

E a única coisa que eu podia fazer era mudar totalmente minha dieta,  adotando hábitos saudáveis,  e fazer exercícios físicos,  de forma que eu perdesse peso sim, mas muito mais devagar e de forma controlada e saudável. Eu não podia tomar remédios para ajudar. Era eu comigo mesma.

Eu estava doente, desnutrida, a perda de peso repentina tinha queimado minha massa muscular e não a gordura apenas. Eu precisava agir pra recuperar isso.

E foi o que eu fiz.

Eu mudei a alimentação em casa, aumentando o consumo de frutas, legumes, verduras, proteínas e cereais. (Entenda por arroz,  feijão,  carne, legumes e saladas), cortar os doces pra uns 20% do que era antes, passar a beber água,  muita água, quase nada de refrigerante, e fazer exercícios de 3 a 5 vezes por semana.

Não foi fácil, até porque eu tinha dificuldade para comer nas quantidades adequadas. Entenda, eu não comia demais, eu comia de menos. Era difícil terminar uma refeição inteira, mesmo ela sendo medida na balança como a nutricionista tinha indicado.

Mas eu encontrei prazer em cuidar de mim. Ir a academia me dava energia e fazia eu me sentir bem. Ver minhas forças voltando mes a mês me motivava.

Rebeca foi vendo esse processo e do lado dela ela lutava sua batalha pessoal contra a depressão e o transtorno de ansiedade. Mas ela via meus resultados e começava a querer isso pra ela também.

De Julho pra cá eu mudei meus hábitos. E ontem eu recebi o resultado do exame de acompanhamento dessa doença e tive a melhor notícia que poderia ter:

A de que estou curada. 

Não tenho mais fibrose ou gordura no fígado. Todos os indicadores voltaram a normalidade. Eu estou mais saudável do que fui nos últimos 15 anos.

E valeu a pena.

Eu estou tão feliz e tão aliviada!

Depois de tudo que passei e do medo que senti e ver que meu esforço deu resultado... 

Eu fico feliz toda vez que consigo subir uma escada. 

Eu olho pra esse resultado e penso "Uau! Olha o que eu conseguir, onde eu cheguei! E se eu continuar fazendo o que estou fazendo agora? Onde mais eu consigo chegar? Até onde eu consigo ir?"

Me sinto pronta pra mais um desafio e pra ir além.

Esse ano as coisas começaram diferentes pra mim. Estou com 2 trabalho free-lance em andamento, estou trabalhando nos meus projetos pessoais, estou fazendo faculdade e cursos livres, estou me cuidando  e cuidando da Beca.

É como se a vida tivesse começado a entrar nos eixos. 

E eu estou feliz.

Hoje eu estou muito feliz.

Cuidem-se. Saúde não tem preço,  seja mental ou física. Cuidem-se. Vale a pena.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Enfim 2022

 Estamos em Fevereiro e para mim o ano começa agora. Quer dizer, não que ele não tivesse começado, mas é que Janeiro é pra mim sempre um mês muito tenso, muito difícil, onde o resto do ano é organizado e planejado e esse ano, mais que outros, isso me afetou profundamente.

Além disso Janeiro marca o rebote do mês de dezembro, e dezembro é um mês que eu costumo estar num estado de hipomania devido as festas, ver a familia, comprar presentes e etc. 

Esse ano a depressão chegou mais cedo pra mim e apesar de ter tido bons momentos especialmente no começo de Dezembro, as festas de fim de ano já estavam manchadas por essa melancolia e cansaço e um bom tanto de desespero. Não consegui aproveitar meu Natal, tive um bom Ano Novo, mas dia 02 em diante minha rotina contou com a depressão constante, brigas em casa, medo e frustração e muito desespero. A sensação de ver tudo que eu havia planejado indo por água abaixo.

Mas a vida é assim, certo? Ela nem sempre funciona como planejamos. Viver significa muitas vezes ser capaz de respirar fundo e se adaptar a uma realidade diferente e tentar encontrar soluções criativas.

Apesar de todo esse sentimento negativo - não, ele não foi embora porque trocamos de mês, claro que não - eu tenho hoje em mim uma certeza de proposito muito grande.

Hoje em dia eu tenho um trabalho que amo e estou buscando aprender, estudar e me desenvolver como profissional na carreira que sempre quis. Eu sinto que estou no caminho certo, que estou fazendo as coisas certas, e que tudo que preciso é de um pouco de estabilidade e paz de espirito para continuar correndo atrás de algo que eu sei que vai dar certo. Eu preciso de espaço e de tempo. Mas eu sei o que eu estou fazendo.

E isso é muito raro.

Fevereiro é pra mim quando o ano começa pois é quando consigo estabalecer uma rotina. É quando o pior do rebote ja passou e eu ja consigo vislumbrar pra onde ir e como chegar lá.

Tem muita coisa pra se resolver. Nada vai ser como eu tinha imaginado. Mas é hora de imaginar algo novo. 

Vem comigo?


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Aquele sobre ser bipolar e mãe

 Olá, eu sou a Di. Caso você tenha chegado por aqui agora e ainda não me conheça.

Eu sou mãe da Rebeca, uma menina maravilhosa de 11 anos.

E eu sou bipolar.

Desse tipo diagnosticado mesmo. Com CID e tudo.

Pra quem quiser saber mais da minha história, eu vou recomendar ler uma série de posts que tenho contando um pouco do começo da minha trajetória. Eles chamam "A minha história". Da uma busca no blog. 😉

Por agora o resumo é que sou diagnosticada desde os 13 anos de idade, comecei o tratamento em 2004 aos 22 e levei e levo ele muito a sério por um objetivo muito claro: eu descobri que eu queria ser mãe. E eu entendia o que eu precisava fazer para alcançar esse sonho e me tornar a mãe que eu queria ser.

Depois de 5 anos de tratamento até alcançar a estabilidade eu realizei esse desejo e conquistei o direito de ter minha Rebeca.

E durante 10 anos eu me dediquei a ser a melhor mãe que eu podia ser.

O resultado disso foi uma filha saudável, companheira, amiga, empática, preocupada com o mundo ao seu redor, crítica, bem educada e que entrou na pré adolescência pronta pra começar a se virar sozinha e dar os próximos passos.

E no momento que ela já não precisa da minha dedicação integral 24h/7dias da semana, eu me vi em águas misteriosas, podendo voltar meus olhos para mim mesma novamente.

Isso trouxe uma onda de coisas boas mesmo em meio a uma Pandemia. Trouxe muita instabilidade emocional também pra eu ter que navegar, mas nada que não seja possível de lidar.

Ao longo desse meu caminho eu tive a sorte de ser uma pessoa muito consciente. Por ter convivido desde a infância com minha mãe com Transtorno de Pânico e entender isso como uma doença com tratamento e capaz de ser vencida - eu vi isso! - quando eu me vi em uma crise que parecia sem volta eu fui capaz de parar, entender o que estava acontecendo comigo, e buscar ajuda médica.

Foi iniciativa minha. No meio de uma crise depressiva. Um momento de lucidez no meio de uma tempestade.

Com o blog eu tive a chance de conhecer, e espero que ajudar, muitas pessoas que de repente se viram com esse diagnóstico cheio de tabus e precisavam de um apoio e de um exemplo que era possível ter uma vida boa, útil, feliz, e que não precisavam abandonar seus sonhos, muitas vezes de ter uma família.

No máximo teriam que desacelerar, respirar, aprender novas formas. Mas que um diagnóstico não é uma sentença.

E ser bipolar não define quem somos. É apenas mais uma das nossas características. E podemos conviver com isso.

Eu não escrevo mais com tanta frequência. Minha vida anda bem corrida e disso eu não tenho do que reclamar. Tenho vivido um segundo sonho.

Mas sinta-se a vontade para vasculhar nos arquivos daqui do blog. Pode ser que você encontre algo que se assemelhe ao que está vivendo agora. Talvez algo que te dê uma luz, ou uma mão.

E continue por aqui. Ainda vamos nos ver muito nessa viagem.


Boa semana pra vocês!

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Sobre 2021 e o segundo ano da pandemia

 A Pandemia me pegou em cheio esse ano. Minha vida tem sido uma série de instabilidades que eu não sentia ha anos. Mesmo assim sinto que não posso reclamar muito: muita coisa boa esta acontecendo na minha vida. Muita mesmo.


Mas a bipolaridade e a depressão nem sempre fazem muito sentido, não é mesmo?


Passei os primeiros meses de 2021 numa depressão que variava de forte para média. Tenho tentado trabalhar isso e naveegar por essas águas. Tenho sucesso sim, mas ainda tem muitas ondas nesse oceano.


O que tem me ajudado muito é o trabalho. Por mais que ainda seja um trabalho não remunerado, é verdade, e isso seja um problema bem sério, eu estou trabalhando exatamente com o que eu amo fazer: eu escrevo. Eu cuido. Eu organizo.


Pra quem chegou agora, eu, junto com meu companheiro e um grande amigo, tenho um Canal no Youtube chamado Onde Esta Minha Mente (só clicar em cima pra ir conhecer). É um canal de filmes e ´series interativos, onde o espectador pode escolher os rumos da história clicando em opções que aparecem na tela no final de cada bloco, escolhendo o final da história. É uma mistura de curta-metragem e jogo de RPG.

Eu sou roteirista e produtora do Canal. Nós iniciamos no ano passado, de forma timida, e ainda estamos nos ajustando, mas o fato é que isso me deu mais que um trabalho, me deu um rumo!

Eu sempre quis viver de escrever. Sempre. Desde que aprendi a escrever aos 7 anos de idade eu sabia que era isso que eu queria fazer da minha vida. Mas até hoje, e eu tenho agora 39 anos, eu nunca havia me permitido me dedicar a isso por causa da tal história de "você precisa primeiro ser capaz de se sustentar sozinha" e etc. 

Pois ai veio uma pandemia e não poder sair de casa e ter que sentar e esperar a coisa toda passar de repente, pra mim, foi a oportunidade que faltava. Se eu não poderia fazer as tais coisas uteis, eu finalmente poderia me dedicar a isso sem culpa.

E ai meu amigo me trouxe a ideia do canal e sugeriu que eu escrevesse um roteiro. Eu aceitei sem saber o que eu estava fazendo, eu nunca tinha feito um roteiro na vida, mas parecia divertido.

E um roteiro de um video virou o roteiro de uma minisserie. E quando nós fomos gravar... Quando eu vi o que eu tinha escrito criando vida e se transformando na minha frente.... Eu soube:

É isso que eu quero pra minha vida.

E eu não tinha tanta certeza de algo desde que eu decidi que eu queria ter filhos. Desde que eu quis ter a Rebeca.

É isso que eu quero pra minha vida.

De lá pra cá escrevi muito mais, gravamos vários outros filmes que estão sendo preparados para lançar no Canal do Onde Esta Minha Mente, mas eu também fui atrpas de aprender de verdade esse oficio. Tenho feito cursos, lido, tenho planos de voltar pra faculdade e fazer uma nova graduação na área.

Tenho planos. 

Tenho sonhos.

Tenho algo meu e que me faz sentir eu mesma de novo.

Mas ai tem a tal da bipolaridade pra lidar. E a pandemia. E as responsabilidades.

Só que eu tenho tanta certeza do que eu estou fazendo que nada disso tira meu foco. Então eu vou atrás de como lidar com tudo isso, como equilibrar as coisas, como me equilibrar.

Retomei com minha antiga psiquiatra. Vou ajustar minha medicação. Assim que possível retomo a terapia. Tenho uma boa rede de apoio, não me escondo, aceito e procuro ajuda. Encontro essa ajuda as vezes de onde não espero. 

Tenho a Rebeca. Ela é meu norte, minha motivação, minha companhia, minha principal motivadora. Ela ouve e le minhas histórias antes que todos os outros. Ela senta e fica comigo, e já pediu para acordar mais cedo para poder escrver comigo ants da aula. Ela se torna cada vez mais independente e tem cada vez mais sua proria vida e seu prorprio mundo me dando espaço e me mostrando que eu posso sim me concentrar em mim e nos meus sonhos. Pois ela esta ali pra caminhar comigo.

Tem dias que eu mal consigo levantar da cama. Sinto muita vontade de chorar, muitas vezes, quase todos os dias. Tenho crises de ansiedade frequentes, as vezes com gatilho, as vezes por nada.

Não leio muito as notícias. Mas não me permito me alienar também. 

Espero que essas tempestade no mundo passe e possamos todos chegar salvos a praia. Hoje, navegamos em águas misteriosas.

Por sorte eu encontrei um mapa e uma bussúla para me ajudar a seguir navegando.

Aproveite e conheça o Canal: "Onde Esta Minha Mente"

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Aquele sobre o aniversário de 11 anos



 Rebeca completou 11 anos em um Brasil em quarentena. Um lugar que, apesar das flexibilizações duvidosas país afora, as pessoas permanecem tendo de ficar o áximo possível em suas casas, se protegendo e protegendo os outros de uma doença perigosa, sem cura.

As vezes banalizamos para poder continuar vivendo sem estar em pânico constantemente, mas a verdade é que a Epidemia não acabou e continua matando quase mil pessoas todos os dias.

E nesse cenário de incertezas e medo, Rebeca fez 11 anos.

Muito mais do que uma mudança de um número, eu acho que ela não percebeu as mudanças que aconteceram com ela durante esse ano. Ela era uma criança de 10 anos, no aniverário do ano passado quando ainda me pediu para ganhar um boneca, das caras, de presente de aniversário.

Esse ano nós vamos pintar o cabelo dela de colorido como presente de aniversário.

E como se comemora aniversário em meio a quarentena? Com parabéns virtual? Sim, claro!
Mas eu achava que era pouco.

Eu queria fazer o aniversário dela ser especial, memorável, divertido!

Rebeca gosta de festas grandes, preparar as festas, monstar lembrancinhas. O que poderia suprir esse gosto?


Decidi que iríamos viajar.


Pedi a uma prima minha que tem casa na praia se ela poderia nos emprestar a casa dela por alguns dias para comemorar o aniversário da Rebeca, Conversei com ela com mais de um mês de antecedência para ter certeza que daria certo e que fosse no dia mais proximo possivel do aniversário da Beca.

Minha prima concordou. Nos organizamos e ela conseguiu que nós fossemos passar 5 dias exatamente no intervalo que aconteceria o aniversário da Rebeca. estaríamos na praia no dia certo!

Comecei então a organizar as coisas.

Eu queria que ela tivesse contato com outras crianças. Conversei com dois casis de amigos meus proximos e com quem nós temos convivido durante a quarentena por motivos de trabalho e saúde mental cujos filhos são amigos da Rebeca para que eu pudesse levar as crianças na viagem.

Com isso em mente, tentei fazer com que eles se sentissem seguros de deixar as crianças comigo e planejei a viagem para que meus pais pudessem ir conosco alguns dias e os amigos da Rebeca em outros, assim ela teria um pouco de cada coisa.

Arrumei também para que a irmã dela pudesse ir junto. Convidei um amigo meu que esta trabalhando conosco e esta sempre aqui em casa para nos acompanhar, assim poderiamos ir com dois carros pois ele poderia nos auxiliar sendo um dos motoristas.

Semanas passam e meus amigos não me dão a resposta definitiva sobre as crianças. Meus pais estão com duvidas pois minha mãe tem muita dificuldade de sair de casa. Eu sigo organizando a viagem conforme posso, contando com a presença deles.

Eis que 3 dias antes de irmos viajar um dos meus amigo dias que não vão poder. Duas das tres crianças que eu tinha convidado estavam ali deixando de participar.

No dia seguinte disso meus pais dizem que não vão também. Minha mãe não esta confiante o suficiente.

1 dia antes da viagem eu sinto como se tudo estivesse dando errado. Fico pessima. Peço ajuda para lidar com a frustração. Recebo a ajuda. Recupero o folego. Bola pra frente e vamos em frente!


E fomos


E foi ótimo! Foi uma viagem deliciosa! Apesar de não irmos realmente até a praia em si para não nos arriscar com COVID nem nada, a casa tinha piscina. OS dias estavam muito quentes e ensolarados e pudemos aproveitar bastante a água, os dias na rede, passar a noite jogando jogos. Relaxar e apenas curtir o momento.
NO dia do aniversário propriamente dito nós cantamos parabéns e cortamos o bolo que eu havia feito e levado para a ocasião, do jeito que ela pediu. Fizemos o parabéns virtual com meus pais e minha irmã.

Meu amigo que nos acompanhou é fotógrafo, levou a camera, e nos presenteou com um registro cuidadoso e delicado de um aniversário fora do normal.


Mas tudo que sobre, desce, não é mesmo?

No sábado, ainda na casa de praia, o dia amanheceu chuvoso e frio, Todos cansados dos dias anteriores, cada um se fechou em seu mundo. Baixas de humor. Uma crise.

E então que ela veio. Uma crise forte, certeira, avassaladora.

Eu sabia que eu ia ter um rebote devido a ansiedade de ter preparado a viagem. Eu me dediquei muito e dei muita importância e estava muito preocupada para que o aniversário da Rebeca fosse tudo de melhor que eu pudesse fazer. E isso sempr tem uma consequência.

Mas eu estava esperando a consequencia quando voltasse para casa, não no meio da viagem.

Passei o dia entre o lá e o cá, brigando com o sentimento dentro de mim. Perdi. Em determinada hora apenas pedi que o Taz assumisse o cuidado com as crianças e me deixasse tentar descansar. Eu tinha esperanças de que, se eu conseguisse dormir, o sentimento fosse embora.

Mas ela veio. A dor. Uma dor de proporções que eu não sentia há mais de 10 anos. Um sentimento de vazio, de inadequação. De solidão. De abandono. Uma dor dentro de mim, uma dor na alma, que tentava me convencer que eu não tinha valor nenhum, que eu era fraca, que tudo que eu tinha ali era por pena. Que no fim eu estav sozinha, sempre. Que eu iria perder tudo que eu achava que tinha conquistado. Que nada daquela felicidade do dia anterior iria permanecer...

Eu chorei copiosamente deitada na cama por mais de uma hora. Entre ondas de choro e alguns poucos minutos de calma eu tentava me levantar para pedir ajuda, para pedir companhia e não conseguia me mexer.

Quando depois dessa 1h hora, ainda em crise e chorando, percebi que talvez eu finalmente conseguiria levantar eu ainda consegui pensar que não queria que Rebeca ou meu sobrinho me vissem assim, não queria assusta-los. Então eu não podia chamar o Taz. Eu precisava que ele continuasse com as crianças.

Então levantei e fui até o quarto mais perto, onde meu amigo e minha entenada estavam cochilando e  gritando, batendo a porta, implorei por ajuda. O tom que usei foi o de uma briga. Foi um grito, uma bronca. Foi a única forma que consegui fazer as palavras saírem da minha boca. Eu brigava não com eles mas com a dor dentro de mim que me sufocava.

Por sorte meu amigo entendeu e sem questionar apenas levantou e veio a minha ajuda. E ficou comigo, no quarto até que eu conseguisse me acalmar, falando comigo e me dando carinho.

Foi importante e necessário e serei grata sempre.

Naquela noite fui deitar cedo para deixar que tudo passasse, que o dia acabasse.

Acordei um pouco melhor no dia seguinte. Domingo. Dia de voltar para casa.

A viagem de volta foi boa. Lenta, por causa d echuva e neblina. Boa.

Demorei mais alguns dias para conseguir voltar ao normal. Não me culpei. Não fui culpada.


Olho para esse dias com muito carinho. Mesmo tendo tido essa crise tão forte eu não acredito que ela tenha estragado nada do que foi. Tivemos momentos maravilhosos, divertidos, e o mais impotante de tudo é que Rebeca ficou feliz com o aniversário dela. Ela se divertiu.

Eu alcancei o meu objetivo de dar a ela dias especiais para que ela lembrasse desse aniversário com carinho.

No meio de tantas coisas, eu recebi muito amor. Muita ajuda.

E se tem algo que eu quero lembrar desses dias é desse carinho.

Quero guardar na memória o amor.

Rebeca agora tem 11 anos.



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Setembro Amarelo - Sobre como eu comecei meu tratamento

 O Setembro Amarelo é uma iniciativa de ações para aumentar a consciência e as politicas e cuidados em prevenção ao suicidio.

Eu já contei aqui antes sobre partes da minha vida. Sobre como fui diagnosticada pela primeira vez muito cedo, ou de como decidi que queria ser mãe e como o tratamento correto me permitiu fazer isso.

Depois de pensar a respeito por algum tempo eu achei que contar um pouco sobre a crise que me levou a finalmente buscar tratamento de verdade, antes de eu pensar que queria ser mãe, era importante. Especialmente durante o Setembro Amarelo.

Apesar de ter tido meu primeiro diagnóstico muito cedo, aos 13 anos, como PMD - Psicose Maniaco Depressiva - que era como o Transtorno Bipolar era chamado na época. (Sim, faz bastante tempo!) eu só comecei a me tratar de verdade aos 21 anos. Durante toda minha adolescência eu encarava minhas mudanças de humor como parte de quem eu era, como parte da minha personalidade. Muitas vezes como falhas - como a dificuldade de terminar o que eu começava, por exemplo, ou minha insônia e incapacidade de dormir e acordar cedo. - e coisas de adolescente.

Em 2002 algo acontceu que mudou muito minha vida. Minha avó por parte de pai, Angelina, morreu um dia antes do aniversário do meu pai. Na época eu trabalhava fazendo clipagem - uma coisa que não existe mais hoje em dia - e acordava as 4h da manhã para trabalhar. Minha vó tinha cancer de pancreas e todos sabiamos que ela não tinha muito tempo. Naquele dia, as 5h da manhã enquanto eu trabalhava, o telefone tocou e eu atendi. Minha tia, com a voz embargada, me pede para dizer ao meu pai que minha avó falecera.

Ainda hoje eu choro ao lembrar disso.

Eu, chocada, meio desesperada, ouço meu pai descendo as escadas da casa, e chamo ele quase gritando. Digo para minha tia, sem saber o que fazer, para ela contar a ele. Ele vem rapido para o meu lado, preocupado, pergunta o que aconteceu. Eu, já em prantos, entrego o telefone e digo "é a vó".

Dali em diante algo mudou.

No fim de semana anterior meu pai havia ido ver minha vó, se despedir, e me chamou para ir junto. Ele disse: "Di, vamos ver sua avó. Ela não tem muito tempo..." ou algo assim. Era um domingo de manhã, eu havia dormido depois de amanhecer e não queria acordar e sair e respondi: "não, hoje não, eu vou na semana que vem..."

Só que a semana que vem nunca chegou. E eu não conseguia lidar com a culpa.

A partir dai eu comecei a ter crises de depressão e mania cada vez mais frequentes. Eu ciclava com muita rapidez. Saia todos os fins de semana, bebia muito. 

Por mais que coisas boas tenham acontecido naquela época, a forma como eu lidei com essas coisas foi totalmente norteada pela crise profunda que eu estava. Tudo era muito intenso, tudo era muito forte, confuso.

Naquele ano nós tivemos nosso primeiro relacionamento poliamoroso, ou era assim que eu entendia. Saimos da casa dos meus pais para morar juntos exatamente quando eu perdi meu emprego. Ao mesmo tempo que as coisas pareciam ótimas as crises iam piorando. O relacionamento se deteriorava junto comigo e isso fez com que a maioria das pessoas entendesse que era o relacionamento que me fazia adoecer e não o contrário. Na época não entendiamos o que estava acontecendo.

Depois de quase um ano da morte da minha avó eu estava no fundo do poço. A dor que eu sentia dentro de mim era insuportável. Eu tinha episodios de auto flagelo que eu não tinha desde os 13 anos. Eu não conseguia dormir, passava 72h acordada para dormir 4h e depois passar mais 72h acordada. A velocidade dos meus pensamentos era tâo grande que eu mesma não conseguia acompanhar e ter uma linha de raciocinio logico, terminar um pensamento sem entrar com outro no meio. Sentia que no trabalho eu era a unica capaz de resolver problemas que existiam há anos, de forma simples, por que eu era capaz de pensar coisas que ninguém havia pensado antes. Fazia planos mirabolantes para tudo ao mesmo tempo que a dor me dominava e eu chorava por horas. Com medo do relacionamento acabar, porque eu sabia que estava quase impossivel de conviver comigo, eu tinha discussões e mais discussões, suplicava para não ficar sozinha.

Até que em algum momento, num dia igual qualquer outro, eu consegui dormir um pouco mais. E quando acordei, com a mente mais clara do que havia estado no ultimo ano inteiro, eu tive um insight. Eu entendi o que estava acontecendo comigo.

Durante toda a minha infância eu convivi com a minha mãe, primeiro com crises devido a sindrome de panico, e depois com ela em tratamento e melhorando. Eu sabia que eu tinha esse diagnostico desde pequena, eu apenas não havia dado bola pra ele. Mas naquele dia, naquela manhã, eu entendi que tudo aquilo que eu sentia, toda a dor, toda a angustia, toda a agitação, tudo, eram sintomas de uma doença. E que se era uma doença então ela tinha tratamento. Eu entendi que eu poderia ficar bem, que eu podia não sentir tudo aquilo. Eu entendi que eu podia ficar bem...

Eu liguei para os meus pais e pedi que eles averiguassem no livro de referência do meu convênio que eu havia deixado na casa deles o telefone de um psiquiatra. Expliquei o que estava acontecendo, que eu sabia que estava doente e que eu precisava de ajuda, Eles prontamente me ajudaram, me arranjaram o telefone e eu marquei a primeira consulta.

Não foi um começo fácil.

A psiquiatra era muito competente, referência em tratamento de transtornos afetivos fui saber depois, e ela teve muito cuidado antes de fechar o diagnostico.

O que eu aprendi desde ali é que quando chegamos ao psiquiatra pela primeira vez, geralmente em crise, eles fazem uma avaliação durante algumas consultas onde eles analisam não apenas o que falamos, mas como nos comportamos e qual a reação que temos com a medicação inicial que eles passam. Ela trabalhou com algumas hipoteses de diagnostico até fechar com o Transtorno Afetivo Bipolar, ou Transtorno Bipolar de Humor. Na época eu apresentava um quadro de neurose e ansiedade também.

O tratamento começou, começamos testando alguns medicamentos. O importante, inicialmente, ela dizia ser retomar meu sono. Eu precisava dormir. Mas mesmo com a medicação eu não conseguia.

E o cansaço me dominava. E por consequência o desespero.

Eu cheguei a usar maconha como forma de relaxamento para ver se isso me ajudava a dormir. Deixei de usar quando vi que nem isso funcionava.

Com os remédios na minha mão, e com tudo a minha volta ruindo, tudo que eu queria era poder descansar. E fazer as pessoas a minha volta pararem de sofrer por minha causa.

Eu comecei a sair de casa para escrever e respirar. Ia para a padaria perto e ficava lá por horas, sem vontade de voltar para casa. A noite, na hora de dormir, eu exagerava nas doses da medicação para ver se isso me faria dormir por mais tempo e eu finalmente poder descansar.

Até que eu comecei a não sentir nada. Apenas cansaço. Eu só queria descansar.

Nesse dia eu tinha consulta com a psiquiatra. Eu relatei tudo isso para ela. E, melhor do que eu, ela entendeu para onde aquele caminho estava me levando.

E ela pediu a minha internação.

Eu concordei. Eu entendia que estava doente e eu confiava nela. Mas quando ela disse: "Traga seus pais amanhã, vou explicar para eles, e vamos internar você essa semana" eu disse que não "não, essa semana não, eu tenho muitas coisas pra fazer ainda". Ela disse "não é assim que funciona, Adriana. Você pode fazer tudo depois. Agora você precisa se tratar".

E, sabem de uma coisa?

Ela tinha razão.

Eu levei meus pais, meu namorido, e todos entenderam o que precisava ser feito e o que iria acontecer se eu não fosse internada naquele momento.

Eu passei 14 dias no hospital. A maior parte do tempo eu dormi. Eu tomei doses altíssimas de remédio, controladamente, para que eu dormisse o maximo de tempo possível.

Todos os dias a medica ia me ver, assim como meu psicólogo, e ela me questionava sobre como eu me sentia. Especialmente se os pensamentos de morte haviam desaparecido.

Nos primeiros dias eu nem entendia a pergunta direito. Eu achava estranho, porque eu só queria descansar. Mas conforme os dias passavam e eu dormia mais e meus pensamentos ficavam mais claros, eu entendia porque ela havia me internado.

Ela tinha visto o risco que eu estava, silenciosamente, me colocando. Ela tinha experiência para ver o que esses sentimentos de cansaço, de culpa, de desespero, de inadequação, iriam me levar.

Eu acho, olhando hoje, que ela tinha razão.

Mas ela me resgatou. Me internou num momento que sozinha eu não era capaz de sair daquele buraco escuro. E isso foi a luz que eu precisava. 

Eu sai do hospital direto de volta para a casa dos meus pais. Na época eu não sabia, mas eu continuava internada em internação domiciliar. Eles eram responsáveis por mim. Eu não podia ter acesso a minha própria medicação, eles eram responsaveis por me dar cada remedio nos horarios corretos, garantir que eu tomava todos, que eu dormia, e que iria em todas as consultas com a psiquiatra, a cada 15 dias, e no terapeuta semanalmente.

Foram mais 6 meses assim. Eu lembro de flashes dessa época. Lembro que eu tive que reaprender a sentir cada sentimento de novo. Tive que redescovrir quem eu era. 


Mas essa parte da história fica pra outro dia. Por que, a parte mais importante, e eu preciso que você entenda isso, é:

Eu estou aqui. Eu estou bem. Eu tenho uma vida boa, feliz, e satisfatória. 

Eu não estou curada. Eu continuo e sempre terei Transtorno Bipolar. Isso é uma das minhas caracteristicas, uma das partes de quem eu sou. Eu tenho muitas limitações. MAS EU ESTOU AQUI.

Eu tenho algumas oscilações de humor. Mas eu nunca mais tive uma crise tão profunda como essa de 17 anos atrás. Há 17 anos eu fui resgatada de mim mesma. Eu procurei ajuda e eu recebi a ajuda que eu precisava. E por mais dificil que tenha sido, por mais percalços que eu tenha tido no caminho, não desistir do tratamento, persisitir, me permitiu chegar aqui e contar que sim, é possível.

A dor pode passar. Procure ajuda. Consulte um medico, procure fazer terapia com um psicologo, peça ajuda as pessoas ao seu redor que se dispuserem a ajudar. Insista no tratamento. O começo é dificil, demora um pouco para encontrar o seu caminho. Mas é possivel!


Não desista. Você não esta sozinho. E o que eu posso fazer é contar a minha história e esperar que, tendo um exemplo, você possa encontrar a força de buscar a ajuda médica que precisa. Ajuda profissional.

Vou deixar aqui duas informações importantes, o telefone do CVV - Centro de Valorização da Vida, grupo de auxilio e atendimento, e o site da ABRATA - Associação Brasileira de Transtornos Afetivos, onde você encontra informações, e acolhimento a portadores e familiares de transtornos afetivos:

CVV: - disque 188

ABRATA: http://www.abrata.org.br/

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Sobre conviver com um bipolar...

As férias passaram. Aos poucos a rotina vai voltando ao normal. Conforme os dias vão entrando numa certa normalidade, tento encontrar a melhor forma de retomar os posts no blog.

Eis que recebi uma comentários querendo saber sobre como é a relação minha e de meu esposo e como essa relação é afetada pela bipolaridade. E eu achei que era um assunto que merece atenção e um texto mais longo do que uma resposta rápida.

Não vou entrar em detalhes mas espero abordar a questão de como se relacionar com um bipolar de forma que ajude.

Vamos lá:

Quando eu meu marido começamos a namorar eu já tinha recebido um diagnóstico inicial de Psicose Maníaco Depressiva. No entanto eu não fazia nenhum tipo de tratamento com psiquiatras ou terapia, nada.

Não era algo que eu entendia e considerava relevante. Minhas mudanças de humor constantes eram vistas como parte de quem eu era. Não era visto como uma doença e minhas ações e reações não eram caracterizadas como sintomas.

Era uma peculiaridade. Eu era "difícil" e "briguenta", muitas vezes "sensível" ou "exagerada", sempre "instável". Eu era adolescente e estava vivendo uma "fase rebelde".

O próprio termo bipolaridade ainda não era algo difundido nem na comunidade médica e as pessoas não falavam sobre transtornos mentais. A internet ainda era um bebê caminhando e celulares só faziam ligações.

Ok, sou velha.

Eu e meu esposo namoramos por 5 anos até chegar o momento em que eu comecei meu tratamento.

Não sei se teriam sido 5 anos mais fáceis se já soubéssemos que eu tinha uma doença e já fizesse tratamento.

O que eu sei é o que nos vivemos.

Acho que é importante falar que por mais que fosse difícil pra ele lidar comigo durante as crises, também era difícil pra mim lidar com ele.

Pessoas não são fáceis. Pessoas são. Um indivíduo tem diversas características pessoais que o tornam único, algumas positivas e outras não tanto. A bipolaridade é uma característica médica, como seria ter diabete, pressão alta, ou outra enfermidade que requer tratamento.

Dito isso, eu entendo que não é fácil.

Quando meu namoro começou meus amigos não acreditavam que o relacionamento duraria muito tempo. O fato de eu ser volúvel e inconstante os fazia acreditar que eu enjoaria do relacionamento em 1 ou 2 meses.

Claramente não foi o que aconteceu.

Mas um fator determinante para isso é que eu não estava vivendo nenhuma crise aguda naquele momento. Eu estava relativamente bem e isso se manteve por muito muito tempo. Não que eu não tivesse alterações de humor, mas elas eram administráveis e passavam apenas como uma personalidade forte.

Eu acho que com relação a minha bipolaridade nosso verdadeiro teste veio em 2002, 2003. Já estávamos juntos há anos e uma série de fatores convergiram para que eu tivesse uma crise depressiva muito aguda, muito grave e que foi a que me levou ao tratamento, a uma internação e uma mudança completa na minha vida.

E acho que quem me perguntou deve conhecer alguém talvez com um caso como o desse momento.

Eu sei o que eu vivia dentro de mim e sei o que meu esposo e família me contaram sobre como foi viver comigo naquela época.

Eles não eram perfeitos, mas posso dizer que o apoio de todos que escolheram se manter próximos foi essencial para o sucesso do meu tratamento.

Agora, não foram todos os meus conhecidos que conseguiram lidar com isso.

Pessoas que eu gostava muito se afastaram de mim, alguns para se preservar, outros por não querer a responsabilidade, e outros apenas porque eu deixei de ser uma companhia agradável.

Meu marido pensou em me deixar mais de uma vez. Meus pais tinham medo do que podia acontecer. Minha irmã sentiu raiva em alguns momentos.

É muito difícil você ver uma pessoa que você gosta ser tomada por um sofrimento que não pode ser medido ou demonstrado, difícil de ser entendido.

Quando é possível saber se aquela reação foi real ou foi por causa da doença? Será que se aceitar um comportamento ou uma ação que teria sido motivada pela crise você não estaria dando justificativas e desculpas para a pessoa bipolar usar quando convir mesmo fora da crise?

Meus pais, minha irmã e eu sempre fomos muito próximos e muito ligados e temos essa ideia de fazer tudo pela família.

Um relacionamento amoroso não tem essa premissa. Pode ter a promessa romântica, mas não a premissa. Porque se relacionar com alguém é uma escolha. (Ou deveria ser)

Então eu entendo que meu esposo, na época namorado, fez uma escolha consciente de ficar comigo. Antes e durante e depois da crise.

E ele teve que se relembrar disso muitas e muitas vezes ao longo dos 20 anos que estamos juntos. Ele faz essa escolha todos os dias ainda hoje.

Se ele sente raiva de vez em quando? Claro que sente. Se brigamos? Sem dúvida. Quase nos separamos diversas vezes.

No fim, quando a poeira abaixa e estamos mais calmos pra pensar e conversar sempre decidimos continuar juntos.

Mas olha, não é pra todo mundo.

E tudo bem.

Tem algo muito importante que é base fundamental para tudo ter dado "certo" até hoje: querer melhorar.

Quando eu tive a tal crise em 2002 eu tive um momento de clareza que me fez entender o que eu estava vivendo e sentindo como parte de uma doença e isso foi algo transformador.

Porque doenças podem ser tratadas e administradas. É possível viver bem. Eu não precisava passar por tudo aquilo, eu não precisava viver daquele jeito e nem ser aquela pessoa. Eu podia melhorar.

Eu acredito que o fato do meu marido ter ido comigo ao médico, ter conversado e aprendido o que estava acontecendo comigo, ter meu terapeuta dando a ele ajuda e dicas do que esperar e o que caracterizava a doença fez diferença na descisão dele de ficar do meu lado e me ajudar.

Ele acreditou em mim. Ele entendeu que era uma doença. Ele acreditou que aquilo podia mudar. E eu, do meu lado, me comprometi a seguir o tratamento.

E olha, não foi fácil nem rápido. Eu cheguei a abandonar o tratamento após uma perda e retomei e me mantive no mesmo porque eu decidi ser mãe e a única forma segura de fazer isso era alcançando uma estabilidade que eu nem sabia como era.

Mas eu queria ficar bem. Eu queria melhorar acima de tudo. E eu sabia dentro de mim que isso era possível porque eu já tinha visto isso acontecer com outra pessoa.

Vamos pular muitos anos pra frente.

O blog me permitiu aprender muito e conhecer muitas pessoas. Muitos conhecidos da minha adolescência apresentaram ao longo dos anos algum tipo de transtorno, seja a bipolaridade seja ansiedade, pânico, etc.

Uma coisa que eu aprendi é que ninguém está a salvo de um dia viver uma crise de algum transtorno mental. Uma pessoa que nunca teve nada pode ter uma depressão pós parto. Ou uma depressão profunda ao tentar migrar para outro país. Ou um transtorno de pânico devido a pressão irreal de um trabalho infeliz.

E todas elas podem precisar de ajuda.

Mas a gente só pode ajudar quem quer ser ajudado.

E a gente só consegue ajudar outra pessoa se a gente estiver bem.

É possível adoecer por tentar ajudar alguém que se recusa a seguir um tratamento.

O mundo não para de girar esperando a gente ficar bem. Nem existe atestado de afastamento pra ficar junto com o amigo ou amor que não está bem e precisa de companhia ou supervisão.

Você não deixa de se ofender ou se magoar porque você sabe racionalmente que aquela pessoa não tem controle do que está fazendo ou falando.

Não é culpa de ninguém. Nem do doente nem do companheiro. Só é.

Se a pessoa não quiser se tratar ela vai ter ações para boicotar o tratamento. Consciente ou inconscientemente.

Agora, como pessoa bipolar, eu sei como é difícil aceitar que você não vai tratar só a crise. Que o que você tem é uma doença crônica e que para alcançar e manter-se sob controle você vai precisar se tratar para o resto da vida.

Cara, o resto da vida é muito tempo.

E o caminho pra alcançar a estabilidade é muito lento. Você começa o tratamento muitas vezes sendo dopado. Você precisa interiorizar e aceitar que muito do que você achava que era algo que te definia na verdade era um sintoma de uma doença e que pra ficar bem você vai ter que abrir mão do que você sabe sobre você e passar por um longo processo de reaprender e redefinir a si mesmo.

Você vai tentar diferentes remédios e diferentes doses e combinações antes de encontrar algo que te faça mais bem do que mal. Vai passar meses e anos, no começo duvidando de si mesmo e depois recuperando sua auto estima.

Quem estiver do seu lado vai escolher estar ali.

Então, acho que depois de tudo que eu contei e disse, quero terminar com um:

Vale a pena.

Fazer o tratamento vale a pena. Insistir, lutar, vale a pena. O que você ganha é muito mais do que você deixa para trás.

Ninguém merece sofrer.

E se você for a pessoa que está próximo de um bipolar vivendo uma crise, força.

Ninguém pode fazer a escolha de ficar por você. Eu espero que você faça a melhor escolha pra você e pra quem você ama.
Que vocês encontrem paz e felicidade em suas vidas. Eu não sei qual escolha vai ser essa. Nem sempre o melhor pra mim vai ser o melhor pra você. E tudo bem.
Mas eu te aconselho a fazer isso de forma honesta e calma. Sem culpa ou pressões.
O caminho de cada um é de si mesmo.
Nos podemos apenas escolher caminhar lado a lado, ou não.

Espero ter ajudado vocês a pensar sobre isso.

terça-feira, 4 de junho de 2019

O bom filho a casa torna... Ou, olha só eu aqui!

Estamos aqui.

A casa já está mais arrumada. Já tem seus problemas, já tem alguns dos detalhes que a fazem nossa. Mas ainda fico achando que a qualquer momento chegará o dia de voltar atrás. De "voltar para casa".
Me lembro que essa é minha casa agora, e deixo a sensação de "AirBnB" ir embora.

São as pequenas coisas que tento focar pra me ajudar a me sentir mais a vontade: o quarto com a cama grande... O banho delicioso e estupidamente quente e com muita água... A sensação de segurança ao ficar acordada até mais tarde, de madrugada, sem me sentir exposta...

Preparar a mudança, tomar essa decisão e levá-la em frente até o fim, encaixotar tudo e mais um pouco e ver que tanto ainda ficou pra trás... Tudo mexe comigo de uma forma muito mais intensa do que minha estabilidade permitia. Fui pro alto, pra muito alto... E fiz isso consciente de que tudo que sobe tem que descer. Já nos mostrou Ícaro ao tentar chegar perto demais do sol...

Estou completamente instável. Por vezes sinto um desespero tremendo me dominar e simplesmente não consigo fazer nada de produtivo no dia.

Ainda não consigo cozinhar todos os dias. Comemos fora com muito mais frequência que minhas possibilidades financeiras permitem. Muito mais.

Tenho dificuldades pra dormir. Dificuldade pra acordar de manhã.

Não estou arrependida nem nada disso. Nem triste de ter mudado. Pelo contrário, estou muito feliz de estar aqui e ter dado esse passo.

Mas existe todo o resto. Existe a rotina. Existe o dia a dia. O trabalho, a escola, as contas, os médicos, o clube, a família, os amigos, o carro, o carro do trabalho, a cidade, o estado, o país, o mundo...

Me sinto triste e choro por tudo e por nada. Quero fazer as coisas mais simples e percebo que não consigo fazer sozinha.

De repente percebo que todo aquele sentimento de inadequação, incapacidade, inutilidade, e todas as coisas ruins que sinto sobre mim mesma não passaram. Que os represei com a promessa que olharia pra isso depois. Depois... 

Ao mesmo tempo estou feliz. Quero cuidar da minha casa. Quero chegar no momento em que eu entre pela porta e sinta aquela sensação agradável de alívio por estar em casa e posso deixar toda a tensão pra trás.

Colocamos as prateleiras, instalamos o escorredor de pratos suspenso que eu tanto queria... Rebeca tem a cama que pediu pra poder receber os amigos... 

Minhas tias vieram almoçar aqui no último domingo.

O aspirador quebrou...

Ficamos doentes a semana passada inteira graças ao frio de inverno que finalmente chegou.

Hoje eu me deixei descansar.

Tomei aquele banho pelando de tão quente que tanto gosto, coloquei uma roupa bem quentinha, e deitei na cama debaixo das cobertas a tarde toda...

Ganhei meias fofas e quentinhas no dia das mães e elas estão sendo muito úteis.

E me lembrei que tenho que levar um dia de cada vez mesmo. E fazer o melhor que eu puder todo dia.

Está frio e estamos assistindo TV a meia noite porque Rebeca não conseguia dormir...

Amanhã... Bom, amanhã nos vemos como vai ser...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Sobre falar sempre da mesma coisa sem querer...

Hoje eu acordei de melhor humor.
O dia está quente, o sol brilha e queima ardido mesmo cedo de manhã. A noite fez muito calor e tivemos que dormir com o ventilador ligado no quarto pela primeira vez desde maio quando o frio do outono começou a amenizar as temperaturas...
O ventilador não era a melhor ideia considerando que estou resfriada, mas apesar dele acordei me sentindo menos doente, e talvez graças a ele, de melhor humor.

Ontem conversei muito com o Taz, sobre as dificuldades que estamos passando tanto emocionais como financeiras mesmo. Estamos naquele momento que vemos a mudança ser necessária mas não temos certeza de o que devemos fazer ou como.
Será que existe uma forma de mudar sem abrir mão das poucas coisas que mantemos?

E apesar de não termos chegado a nenhuma solução o simples fato de conversar foi bom. Colocar em voz alta, mostrar que estamos ali pra ouvir as angustias um do outro, lembrar que temos problemas práticos em conjunto. Lembrar que somos uma família e que devemos passar por tudo isso unidos.

Não acho que consigo ter conversas muito sérias sem ter uma crise de choro, ou de raiva.

Antes mesmo de conversar com o Taz, e o motivador para a conversa com ele ter existido, foi uma discussão, mais um desabafo mesmo, com meus pais sobre como viver numa situação desenhada para ser temporária por muito tempo tem me feito mal.

E por mais que nada do que eu sinto ou tenha dito ontem tenha mudado, ainda que nenhum dos fatores que geram minhas aflições e medos tenham sido resolvidos, ainda que eu ainda sinta que se ficar em silêncio por tempo demais vou ser engolida pela escuridão que me cega, ainda sim, hoje eu acordei de melhor humor.

Está calor. O sol brilha e queima ardido mesmo cedo de manhã. Levanto cedo mais uma vez, o corpo melado do suor por causa da noite quente, levo a Rebeca para as aulas de dança. Ela vai se apresentar no fim do ano e é importante não faltar nos ensaios até lá.

A noite deve ser quente, e noites quentes tornam o quintal convidativo para receber amigos ou apenas bater papo sem estar entre quatro paredes. Não temos isso a meses. Na verdade ainda não tinha acontecido de fazer calor a noite e não chover desde que mudamos para o andar de cima da casa onde fica o quintal.

É que até agora o quintal estava sendo aquele espaço descoberto entre os quartos e a cozinha que temos que passar meio correndo porque está chovendo, ou estava frio demais pra ficar por ali. Mas agora o calor parece ter chegado e o quintal é convidativo.

Terminei de ler mais um livro essa semana.

Consegui escrever o começo de uma história, assim, despretensiosamente mesmo, e fiquei feliz com o resultado.
Fiz um curso online rápido para dicas para escrever personagens e tramas de forma mais objetiva.

Estou de bom humor.

Amanhã é feriado.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Vai passar...

Eu sei que passa.

Hoje eu tenho dificuldade de me concentrar.
Me comunicar, ter que falar com outras pessoas, por mais que eu queira, é difícil, requer esforço e cansa.
Hoje eu so sinto vontade de ficar quietinha, na cama, enrolada em uma coberta, me sentindo quentinha e segura. Mesmo que lá fora esteja um calor de 30°.
É verdade que sair desse estado da trabalho, mas pra algumas coisas eu ainda consigo fazer o esforço: Rebeca. Levar ela as aulas de dança, ajudar a fazer a lição de casa, dar um mínimo de atenção, responder os inúmeros questionamentos sobre o mundo na hora de dormir. Eu gosto, mas requer muito mais esforço que o normal.
Hoje, depois de passar o dia, quando finalmente me permito parar para jantar, eu estou tão exausta que não tenho energia para pensar em comer, o que comer, e a ideia de ter que preparar um prato que seja das sobras do almoço não alcança o meu desejo de me sentir acolhida, reconfortada, que acabo buscando na comida no fim do dia.
Cada um tem sua fuga, sua valvula de escape. Não tenho orgulho disso, no momento é um fato e um fator que não consigo mudar. Sem conseguir direcionar e encontrar essa sensação em mais nada, me parece desesperador tentar mudar isso agora.
Eu ainda sinto prazer nas coisas, eu ainda sinto vontade de fazer algumas coisas, mas é como carregar um enorme peso nas pernas, nos braços, nas costas, na mente...

Mas tudo isso passa.

Nas horas que minha mente simplesmente insiste em pensar apenas em coisas ruins, eu agradeço a existência do computador e do celular, tanto para distrair a Rebeca quando eu não me sinto capaz, quanto para derreter minha mente em redes sociais de forma que os pensamentos ruins escorram junto com a enorme quantidade de informações sem utilidade que se arrastam pela tela.

Mas eu sei que tudo isso passa.

Eu tento lutar o tempo todo com o sentimento de desespero que me assola. A voz que repete todo o tempo o quanto sou incapaz de fazer qualquer coisa, que não tenho controle nenhum sobre a minha vida, que sou dependente de outros inclusive nas poucas coisas que insisto em achar que faço bem. Que ecoa frases ouvidas em diferentes momentos da minha vida, os flashes repetidos de cenas vividas, a dor e a vergonha revivida a cada vez que pisco e perco o foco que tenho que manter para afastar tudo isso que escurece minha visão do mundo.

Hoje eu me sinto sozinha e desamparada, me sinto triste e perdida.

Mas eu sei que isso passa.

Então eu levanto pela manhã e me forço a abrir os olhos e continuar. Simplesmente continuar.

Não me sinto sem esperança, isso realmente não acontece. Eu tenho esperança, mais do que isso, eu tenho certeza, eu sei que isso tudo que eu estou sentindo vai passar.

Mas eu não quero que tudo passe. Acho que é importante ouvir um pouco do que esse lobo de escuridão tem a me dizer.

Tenho que ouvir minhas dores para poder mudar o que é real. Tenho que ouvir minhas dores para distinguir o medo e o exagero do que pode ser feito.

Para que depois eu possa usar minhas vitórias para me proteger.

Eu sei que isso passa.

Saiba você também.

Vai passar. FORÇA.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Fase

Fases

De pronto eu nego a realidade
Muito dura, difícil, injusta.
Não pode ser verdade, não é certo
Algo deve estar errado, oculto,
Escondem de nós, uma brincadeira,
Ou somos nós que nos escondemos
Daquilo que para nos é insuportável?

Dentro de cada um queima,
Fogo ou frio,
Devora a cada dia
A capacidade de raciocínio,
A paciência, a clareza,
O prazer, a conversa
Um briga interna que não se acaba,
Eterno diálogo inflamado com si mesmo,
Talvez na esperança de apagar a dor.

E conforme o tempo sopra o calor pra longe,
Uma leve brisa abranda a alma,
Que tenta racionalizar o inevitável.
Questionamos cada frase, cada lágrima,
Buscamos sentido
Pois no sentido deve morar a resposta,
Ressignificar, entender, abrandar.
A certeza vira dúvida, a dúvida vira pergunta,
A pergunta pede calma,
Mas nenhuma delas muda o fato.
O fato está la,
A dor é real,
Não podemos fugir,
Ou brigar,
Ou relevar.
Doi. 

É a sensação de perda.
Perdemos.
Perdemos o passo, a hora
Perdemos o dia, o mes
Perdemos a vontade, o sorriso
Perdemos a saída, a janela
O rumo.
Perdemos o amigo,
A família,
O amor.
Temos um medo enorme,
Indescritível
De perder a vida,
Ou pior,
De em vida perder a si mesmo.

É real.
Não foi um sonho,
Um pesadelo,
Uma piada.
Foi um segundo,
Um piscar de olhos,
Uma escolha ruim,
Um reflexo...
Mas se perdemos algo,
Que a cabeça pese,
Mas não se perca.
Doi.
Vamos perdoar nossa fraqueza,
E deixar o tempo levar embora
Cada grão que fecha nossos olhos,
E que cada lágrima lave a face,
E com ela escorra em gotas 
A pontada no peito
Indo embora.
Que a gente se permita sofrer,
E que a permissão seja nosso perdão.
Que a gente entenda que pode
Sentir a dor
E ainda sim continuar em frente.
E que com isso em mente,
A dor vire força,
A falta saudade,
O amor seja a segurança
E cada passo seguinte 
Saibamos,
Não estamos sozinhos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

De passeios, de cultura, de diferenças, de voltar pra casa

Nos dias que se seguiram tentamos aproveitar o máximo possível.

Reservamos um tempo para fazer compras de roupas pois era algo que eu queria fazer muito, comprar roupas pra Rebeca. 

Também era importante fazer programas que incluísse as filhas dos amigos de minha irmã. E tempo para passar com eles. E para descansar.

A única coisa com data certa era nossa ida a Orlando para a Disney. Nos outros dias sabíamos o que gostaríamos de fazer mas estávamos abertos a mudar de planos de fosse necessário.

Nós jantamos com os amigos de minha irmã duas vezes na semana. Um dia na casa deles, onde experimentamos uma sopa de abóbora que Rebeca não foi muito fã, mas educadamente tentou comer, e eu levei brigadeiros para enrolar com as crianças. O outro dia em uma pizzaria local. Até às pizzas lá são grandes, hehe Mas muito boas. Na pizzaria foi onde Rebeca e as meninas se entenderam melhor, fazendo bagunça, se melecando comendo a pizza com as mãos, pães de massa de pizza e muito queijo, dando risada. Um pouco de bagunça demais pro meu gosto, mas ei, a viagem não era pro meu gosto, certo?

Dos passeios nós fomos ao chamado Museu da criança, que se assemelha ao Museu da Imaginação em São Paulo, onde na primeira tentativa chegamos muito perto da hora de fechar (lembra que eu falei que as coisas fecham cedo por lá?) e acabamos brincando no parque e nas fontes em frente ao mesmo, mas que conseguimos visitar no dia seguinte com sucesso.
Passamos tempo na piscina do condomínio, tambem.

Num outro dia fomos ao Aquário de Tampa, muito bacana, com espécies e apresentação diferentes daqui. Lá participamos de uma atividade estilo show de perguntas parecido com o que vemos em filmes. Foi bem divertido.



Quando fomos pra Orlando tivemos que sair cedo de manhã. Entregamos o apto onde estávamos ficando ja que passaríamos a noite em Orlando e na volta os amigos de minha irmã fizeram a gentileza de nos receber por uma noite em sua casa. 
Orlando fica a cerca de 1h30 de Tampa e no primeiro dia fomos ao Magic Kingdom da Disney.

Foi mágico. O parque é gigantesco e nós decidimos não seguir a dica de minha prima, que havia dito para nós alugarmos uma Scooter elétrica que eles oferecem no parque para minha tia. Foi uma decisão ruim, mas só descobririamos isso no fim do dia.

Nós levamos lanchinhos na mochila para tentar economizar um pouco já que a prioridade era ficar nos brinquedos. Apesar de ser muito divertido e muito emocionante estar lá, o Magic Kingdom ė um parque para crianças pequenas. Rebeca com 8 anos já tinha altura para ir em todos os brinquedos e eles não eram de muita intensidade. Pra ela que gosta de emoçõed fortes, foi bom, mas nada espetacular. O fato de estar no parque e vivenciar tudo aquilo acho que pesava mais. No entanto para crianças mais velhas acho que os brinquedos seriam meio sem graça. Esse sentimento veio também porque a primeira atração que fomos foi a Space Mountain que era a montanha russa mais intensa do parque, então tudo que veio depois ficou com gosto de "é, foi bom, mas não foi a Space Mountain".

No final da tarde o parque seria fechado e aberto apenas para o especial de Halloween. Apenas quem tinha ingresso para o especial poderia permanecer ou entrar no parque, os outros precisariam ir embora.

As filas para os brinquedos eram gigantescas na mesma proporção do parque. Estamos falando da menor espera ser de 40min e a maior de 2h! Isso porque não era a época mais cheia, estava até meio vazio. Quem nos deu esse parâmetro foi um primo meu que encontramos por lá e já foi outras vezes. No meio do dia eu já não aguentava ficar em pé de tanta dor nos pés. Rebeca também reclamava bastante, minha tia sofria mas tentava ser mais discreta.

A dor veio forte na hora de ir embora. Fomos embora na hora de fechar para o evento de Halloween. Nós e todas as outras pessoas do parque. E aí descobrimos que a fila de 2h também existia para pegar o transporte para ir embora.

De lá nos fomos jantar. Por pedido meu nós fomos a um restaurante indiano. A comida era deliciosa! Muito apimentada, mesmo nos termos pedido com o mínimo de pimenta possível, e com isso Rebeca não conseguiu comer nada.

Aliás essa foi uma situação que se repetiu algumas vezes. Rebeca comeu muito menos que seu normal em diversas ocasiões por diversos motivos. Além dessa vez no restaurante indiano, dias antes nós fomos em um resarestaur coreano na expectativa de comer sushi que Rebeca adora. Mas fomos pegas por diferenças culturais que desconhecíamos: no sushi coreano o wasabi, aquela pasta verde extra apimentada, não vem a parte para você colocar como quiser como nos restaurantes japoneses no Brasil, mas entre o peixe e o arroz. Rebeca descobriu isso dá pior forma, colocando o sushi todo na boca. A garçonete, muito atenciosa e prestativa, tomou a culpa para si dizendo que devia ter avisado e ofereceu uma porção extra de hot rolo sem wasabi por conta da casa para compensar.

No restaurante indiano pela primeira vez nos perguntaram se Rebeca tinha alguma alergia alimentar antes de escolhermos os pratos. Quando informamos que ela tem alergia a nozes eles nos indicaram quais pratos e molhos ela não deveria comer. E vendo a dificuldade dela com o alimento muito temperado, foram atenciosos e buscaram nos oferecer opçõee que ela poderia se dar melhor.

Depois do jantar fomos para o Hotel onde passaríamos a noite e nós encontramos com o amigo de minha irmã. Duas das meninas iriam passar o dia seguinte conosco no parque da Universal.

Mas essa parte eu continuo depois... :)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Viajar é preciso, ter medo não é preciso...

Embarcamos.

Eu escolhi viajar de dia. Por algum motivo, acho que por uma associação a viagens de carro, eu me sentia mais segura se a viagem acontecesse de dia. Fomos pro aeroporto cedo de manhã, encontramos minha tia e fizemos nosso check in.

Não demoramos muito e adentramos a área de embarque. A partir daí eu já comecei a ficar um pouco melhor. Mas só um pouco.

Embarcamos, nos ajeitamos no lugar, arrumamos malas de mão no bagageiro. Rebeca estava muito animada, muito ansiosa e feliz. Logo quis mexer na tela de vidro de seu lugar, explorar as opcões de filmes e jogos e descobriu que tinha um programa que monitorava o vôo, mostrando onde aproximadamente no mapa estávamos e quanto tempo de viagem ainda restava. Pronto. A cada 15min ela parava o que estava fazendo e voltava a ver o programa numa clássica modernização de "já chegamos?".

A viagem toda. A cada 15 min. Foram 8h de viagem.

Eu tentei assistir algum filme, o máximo que ela permitiu. Minha tia também. Conversamos um pouco também, mas no mais eu lembro de me ocupar com a Rebeca e sua ansiedade em chegar. Acho que com a minha também.

Quando chegamos em Miami tive minha prova de fogo, meu último obstaculo: a imigração. Eu tinha medo de falar alguma besteira, ou mesmo não conseguir me comunicar de tão nervosa. Minha tia não falava muito inglês e a Rebeca ainda uma criança então essa primeira comunicação dependia totalmente da minha capacidade de me controlar.

Atendimento rápido, fila grande. Apenas algumas perguntas sobre quanto tempo iríamos ficar e onde e fomos liberadas.
Pronto. Estava feito. Consegui passar por meus medos. Estava pronta para aproveitar a viagem tão sonhada.

Encontramos minha irmã no desembarque. Rebeca correu para um abraço. Muita emoção. Ela estava de carro, já era noite e nós seguimos para o hotel onde ficaríamos aquela dia antes de seguir viagem em direção a Tampa.

As diferenças culturais já começaram a aparecer: lá tudo fecha relativamente cedo, então quando saímos para jantar perto do hotel, quase 21h, a única coisa que encontramos aberto foi uma lanchonete. Vazia. Lanches vieram errado, mas quem ligava a essa altura do campeonato?

Voltamos para o hotel e acabamos dormindo cedo. Teríamos horas de estrada no dia seguinte.

Nossa viagem estava apenas começando...


Foram 6 horas de carro até Tampa. Tomamos café no hotel. Nada parecido com os cafés da manhã de hotéis no Brasil, muito mais simples. Leite, café, iogurte, bagel, cereal, geleias, um suco, era isso.

Saímos cedo para tentar aproveitar o dia.
Andar de carro foi algo que fizemos bastante nessa viagem.

Era Outubro e estava muito calor. Aquele calor úmido de cidades praianas. O sol forte, queimando. E todo lugar que íamos, do carro as lojas, ao hotel, ao apto que ficamos em Tampa, tudo com ar condicionado. Se não me engano todos regulados a 20°C. Do lado de fora o sol há fáceis 35°C. Era um choque de temperatura atrás do outro.

A viagem de carro para Tampa foi muito agradavel. Conversamos, ouvimos música, falamos sobre o que iríamos fazer nos próximos dias. Almoçamos num restaurante mexicano no caminho. Fast food também, mas delicioso. Porções enormes de comida, refil a vontade de bebidas.

Estrada quase que uma reta só. Os vidros fechados do ar condicionado disfarçam a velocidade que lá é medida em milhas.

Chegamos em Tampa. Automaticamente me senti dentro de um filme americano. Essa sensação me acompanhou por dias, de estar vivendo um filme.

As casas com seus grandes jardins na frente. A cerca branca. As ruas tranquila se limpas. Ou quase. Alguns lugares ainda alagados e um pouco de entulho acusavam que por ali passará um furacão a apenas 2 semanas...

Esquilos.

Ficamos em um apto numa área residencial da cidade. Grande, confortavel, 2 quartos, piscina no condomínio. Banheira. Todas as casas lá tem banheira, me lembrou minha irmã.

Descansamos um pouco e decidimos fazer compras para a semana. No final do dia receberiamos a visita dos amigos de minha irmã e suas filhas.

Antes de entrar no Mercado minha irmã avisa que estamos num país consumista e que temos que controlar nossos impulsos.

É época de Halloween. Na entrada da loja tem uma barraca com abóboras enormes. Minha irmã se empolga e decide comprar a abóbora.

Fomos fazer compras várias vezes durante a viagem. Compras de comida, de roupas... As lojas gigantescas, maior do que qualquer loja que eu já vi no Brasil. E tudo muito barato (Se você ganha em dólar)! Era muito fácil se empolgar comprando coisas. Muito facil mesmo.

Terminamos nossa primeira noite em Tampa recebendo os amigos de minha irmã para uma taça de sorvete. Muito simpáticos, nos deram boas vindas e nos fizeram sentir a vontade.

Rebeca conheceu as meninas e elas logo se deram bem. Ok, rolou aquela vergonha de quando conhecemos pessoas novas, mas dentro do esperado, conseguimos nos entender.

Agora era acertar a programação e aproveitar.

Seriam 10 dias muito intensos.

domingo, 22 de julho de 2018

De domingo a domingo

Hoje foi um domingo com bastante cara de domingo.

Sabe aqueles dias que são lentos? Calmos? Que você não faz nada o dia todo e não sentiu vontade de fazer nada diferente disso?

Pois é...

Por mais que eu goste de sair ou receber pessoas em casa, principalmente receber pessoas em casa, as vezes eu sinto que preciso de dias como hoje.

Tenho tido a cabeça cheia de preocupações nos últimos meses. Minha mãe não está muito bem de saúde e além de lidar com o stress e insegurança que ter uma pessoa da família com a saúde fragilizada causa, ainda temos que lidar com burocracias e pagamentos de convenio, medicos, hospital.
Adicione a isso uma reforma na casa, uma decisão de mudança de endereço e modo de vida, mais a rotina do dia a dia com todas as já habituais dificuldades e pronto, temos um cenário perfeito para uma crise.

Mas no entanto não foi isso que aconteceu.
Não estou em crise.
Me sinto talvez em modo de espera em boa parte do tempo. Mas a verdade é que sou uma pessoa bem paciente.

Nesse mês de férias escolares meu sobrinho esteve por aqui para passar tempo com a Rebeca. Foram quase 20 dias e foi ótimo ver os dois brincando e se divertindo juntos, mesmo quando eles se estranhavam um pouco.

Mas ter ele aqui somado a situação que descrevi me manteve num ritmo diferente do meu habitual. Dormindo pouco, pensamento acelerado... Foi bom, mas sinto que preciso de alguns dias para voltar para os eixos, descansar.

Ontem e hoje essa necessidade de me voltar a mim mesma me levou a ficar meio antisocial, um tanto nostalgica, mexendo em álbuns de fotos antigos.

Me sentei no sofa em meio a fotos da minha infância, da minha família, dos amigos... Cerquei-me das boas e das más lembranças. Lembrei do tempo que era fácil, talvez?
Não encontrei diversos álbuns de fotos que sei que existem da minha adolescência, que era os que eu mais queria ver. Não tem problema. Continuarei procurando.

Mas o que me veio a cabeça nesse momento de introspecção foi uma frase que meu marido me diz há 20 anos: "Pra quem sabe olhar pra tras nenhum caminho é sem saída".

Me senti me procurando. Talvez ao olhar quem fui eu caminhe mais tranquila por onde estou.

Hoje foi um domingo com muita cara de domingo mesmo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Minha História - parte 3

Quando saí da escola no meio da 7ª série, eu fui levada pela primeira vez ao psiquiatra. Era o médico que tratava minha mãe para Síndrome de Pânico já há vários anos, e meus pais finalmente aceitaram o fato de que talvez tivesse alguma coisa errada comigo.
Já na primeira consulta, de cerca de 2 horas, ele deu um diagnostico: Psicose-Maníaco-Depressiva. Ou o que é conhecido hoje como Transtorno Bipolar do Humor, mas que naquela época ainda tinha esse outro nome.

Ele receitou que tomasse antidepressivos e eu o fiz por um mês e parei. Meus pais não relutaram muito com isso. Pra eles também era difícil aceitar que a filha de 13 anos precisaria tomar remédios para a vida toda.

Mas eu fiquei com essa informação guardada dentro de mim por muitos anos. De alguma forma eu sabia que aquilo significava algo importante, mesmo que na época eu não entendesse.
Na época era só uma fase. E ia passar.

E por algum tempo, quando eu me encontrei e encontrei um lugar para fazer parte, passou... Ou eu achei que era suportável o suficiente para acreditar que aquilo era parte de mim, e que aquela pessoa era quem eu realmente era.

Pulei de uma escola a outra e terminei a 8ª série raspando. Naquela época eu estava interessada em outra coisa... Nos amigos que eu sofri tanto até conseguir... E me agarrei a eles como se minha vida dependesse daquilo. Com toda a intensidade que uma adolescente bipolar pode fazer.


Era 1996 quando eu os conheci, depois de uma festa no carnaval que minha irmã deu para os amigos e conhecidos dela que jogavam RPG. Foi a partir dali que eu passei os fins de semana indo há uma unidade do Sesc e ao Shopping para conhecer e conviver com pessoas que, finalmente, gostavam das mesmas coisas que eu. Que eram diferentes, que gostavam de fantasia e ficção cientifica, de jogar RPG, e que estavam dispostas a me aceitar como eu era.
Que estavam dispostas a me aceitar.
E foi ai que eu tentei me encaixar. Foi onde passei toda a minha adolescência.
E foi nesse meio que tentei construir quem eu era pela primeira vez...

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Minha História - parte 2

Era um mês de julho e eu simplesmente não sentia vontade de fazer nada.
Em casa a coisa não era melhor. Chorava sem motivo algum, comia muita besteira, passava as madrugadas acordada assistindo TV e jogando vídeo game, e de manhã me recusava ao máximo a levantar para ir à escola.

Meu pai, mais de uma vez, cortou o fio da TV com faca para que, já que eu ia ficar em casa, não tivesse a TV como distração. Ele não entendia que a TV não era o problema. E ignorava que eu sabia refazer a fiação.

Brigava muito com meus pais, em especial com minha mãe.  Me sentia incompreendida o tempo todo. Por mim mesma, inclusive. Não entendia aquela dor que eu sentia dentro de mim o tempo todo. 

Em determinado momento decidi começar a me cortar, autoflagelar, especialmente depois de uma briga, para ver se a dor que eu sentia com os cortes podia por um momento me fazer esquecer a dor que eu sentia dentro de mim.

Quando eu ainda estava na 6 série, perto do final do ano, meus pais pediram que minha irmã começasse a me levar para sair com os amigos dela, para que eu saísse um pouco de casa.
Eu sou muito grata a eles todos por isso. Por que esse foi o começo de algo que me salvou por muitos anos sem fazer tratamento.

Não foi fácil, mas eles estavam dispostos a me ajudar, e me aceitaram junto deles. Eu me sentia mais como uma mascote, mas mesmo assim, foi mais do que eu havia tido nos últimos 2 anos.
Minha irmã e seus amigos jogavam RPG. Saiam a noite para ir à bares, sim, por que a maioria deles era maior de idade ou quase. Mas muitas vezes apenas iam lá em casa, jogar RPG, passar tempo, conversando ou mesmo jogando vídeo game.

Eles foram os primeiros a adotar nossa casa como um segundo lar temporário. E no auge da minha crise, foi a diversão de jogar RPG e as pessoas que conheci através deles que iriam, por fim, me ajudar a sair do abismo que eu me encontrava.

Com eles houveram dois momentos bem marcantes, e uma pessoa que me adotou como irmã e cuidou de mim ainda por muitos anos pra frente.
O primeiro momento foi numa discussão que eu os ouvi ter em casa onde eu ouvi minha irmã, brigando, dizer “Mas vocês são MEUS amigos!” e um deles responder “Nós somos amigos DELA também!”

Eu nunca esqueci isso.
Mas ainda sim, a dor persistia dentro de mim, e eu tinha dificuldade de me adaptar a tudo aquilo. Ao atender o telefone de casa e reconhecer a voz de qualquer um deles, nem esperava que pedissem, já avisava que ia chamar minha irmã e passava o telefone pra ela.
Então um dia fui pega de surpresa por um dos amigos dela. “Eu não liguei pra falar com ela, eu liguei pra falar com você!”. André... Nós passamos uma hora conversando no telefone aquele dia, e no fim ele não pediu para falar com minha irmã. Nós nos despedimos e ele só ligou pra ela no outro dia.

Aquele dia ele ligou e falou comigo.

Eu ainda acho que ele fez isso por pirraça pela forma como eu atendia o telefone. Mas não importa. Nós fomos amigos até o final, quando ele foi levado da vida mais cedo...

Queria que ele soubesse que aquele simples telefonema foi de imensa importância na minha vida. Mas se hoje não posso contar pra ele, conto para você.

Ele foi alguém que esteve do meu lado quando eu mais precisei...


Dos amigos de minha irmã eu me apaixonei por um deles. Daqueles bons amores impossíveis que temos na pré-adolescência, eu tinha 12 anos e ele 20. E por mais que a reputação dele fosse de galinha que sai com todo mundo, ele era um cara bem correto. Obviamente nunca se interessou por mim, e eu agradeço por isso também. Por que foi importante ter contato com pessoas que faziam o que era certo. E ele me adotou como irmã, cuidou de mim, e esteve ao meu lado em bons e maus bocados. Ele tomou para si a responsabilidade de cuidar de mim quando eu não estivesse em casa, ficando comigo quando meus pais saiam, me levando para sair, me buscando quando eu eventualmente conheci outros amigos e saia sozinha, mesmo que eu ligasse pra ele ás 3 da manhã e ele estivesse dormindo. Foi, é, meu irmão. Sempre será. Por que amor se constrói, se mantém, assim, com pequenas e grandes ações. Mas principalmente por estar lá quando parece que estamos sozinhos.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Uma conversa sobre depressão...

Não, não sumi de verdade, de novo.
Só esta bem difícil de escrever.
Então quero falar um pouco sobre isso. Sobre depressão.

A depressão sempre foi um dos aspectos mais fortes no meu tipo de bipolaridade. Sim, existe mais de um tipo de bipolaridade, e vale a pena pesquisar sobre isso. Inclusive, você pode apresentar tipos diferentes em etapas diferentes da sua vida.

No meu caso, apesar de já ter tido diversos episódios de Mania e de Ciclotimia, a depressão sempre foi uma companheira mais constante.

Minha primeira crise depressiva foi entre os meus 12 e 13 anos. Não foi um episodio rápido, de dias ou semanas. Estou falando aqui de um quadro que teve inicio discreto quando eu tinha 9 ou 10 anos, e que foi se agravando muito quando eu troquei de escola e passei a ser alvo de bullying e a ficar isolada, aos 10. E isso culminou numa crise tão severa, por volta do final dos meus 12 anos,  que, ai sim com 13 anos, no meio da sétima série, eu não tinha mais condições de frequentar a escola. Nesse momento meus pais, finalmente, deixaram de achar que era “uma fase” e me levaram ao médico.
Fui diagnosticada com PMD – Psicose Maníaco Depressiva – e tratada com antidepressivo. E ai vocês podem imaginar o que aconteceu: o remédio desencadeou um episodio de mania, todo mundo inclusive eu acharam que eu estava melhor, e adeus remédios e médicos e olá crises cíclicas pelos próximos 9 anos.
Quando eu iniciei meu tratamento aos 21, portanto, eu já sabia o meu diagnostico. E acho que isso ajudou, pois fez com que eu conseguisse enxergar o que eu estava vivendo não como “um momento” ou “uma tristeza” mas como parte de uma doença muito mais grave e a qual eu não conseguia mais controlar sozinha.
O fato de ter visto minha mãe lutar por toda a minha vida contra a Síndrome de Pânico também ajudou, pois eu sabia que se eu me tratasse e insistisse no tratamento, eu ficaria melhor, e poderia ter uma vida produtiva. Com limitações, sim. Mas eu sabia que aquele horror pelo qual eu estava vivendo iria passar.
E eu sei disso hoje também.
E eu sei disso todos os dias.
E eu digo isso pra você: Vai passar. Isso vai passar.

Quando comecei meu tratamento em 2003 eu cheguei a ficar 14 dias internada para ajustar a medicação, pois minha psiquiatra tinha medo que eu “sofresse um suicídio”. Eu digo sofrer e não cometer por que nunca existiu a intenção de morte, mas o meu comportamento com a medicação que eu estava apenas começando a tomar era tão perigoso que isso poderia acabar acontecendo da mesma forma.

Após ser liberada da internação, onde eu praticamente dormia o dia inteiro, eu precisei voltar a morar na casa dos meus pais e a partir daí levaram muitos meses até que eu tivesse condição de ficar sozinha de novo.

Começar o tratamento foi muito difícil. Pra mim, claro, mas pra todas as pessoas que conviviam comigo – meu marido, meus pais, minha irmã, meus amigos, minha família. Nós tínhamos que aceitar que eu estava doente, que o meu comportamento não era intencional, que eu não era capaz de controlar meus sentimentos ou minhas ações.
Que eu precisava, conforme a medicação fazia efeito, aprender a sentir tudo de novo. Precisava aprender a pensar, a acalmar minha mente.
Era como se antes eu pensasse à 200km por hora e de um dia pro outro não conseguisse passar de 20Km mesmo que eu me esforçasse.
E uma das coisas que o remédio fez, naquele momento, foi me manter deprimida.

Louco isso não?

Mas o fato é que uma das primeiras coisas que a medicação faz é evitar as mudanças de humor e te manter com um humor só. E, fato é, é muito mais fácil se manter deprimido do que em Mania não?

E é mais fácil tratar um paciente depressivo, por que mesmo que ele não acredite que possa ficar melhor, ele está mais disposto a seguir as instruções do médico, terapeuta e da família, do que uma pessoa em mania que acredita que não precisa daquilo.

De lá pra cá eu alcancei a estabilidade 5 anos depois, engravidei, fiquei quase sem medicação durantes a gravidez, tive uma filha que é tudo pra mim, retomei a medicação, levei mais de um ano pra voltar a me sentir normal de novo, tive altos e baixos, alguns mais altos, outros mais baixos, mas nada comparado ao que eu vivi sem o tratamento.

2015 não tem sido um bom ano. Muitas coisas aconteceram e meu humor, que desde o final de 2014 já estava ruim, mas lutando contra a depressão, foi de mal a pior. A cada vez que eu me percebia melhorando, algum fator externo me devolvia pro olho do furacão.
Doi muito. É difícil lidar com outras pessoas, ou ter paciência. É difícil sentir vontade de fazer qualquer coisa, e de sentir prazer genuíno nas coisas que eu consigo fazer. Existem dias melhores, e eu tento aproveitá-los como posso. Mas existem os dias de rebote, de ressaca mental desses dias melhores, em que tudo que eu consigo fazer é tentar não ser muito desagradável.

É um esforço falar, pensar e fazer qualquer coisa. Cansa. E eu me sinto constantemente cansada.

Ficar e fazer coisas com a Rebeca, com meu Marido, com minha família, são momentos em que sinto que estou saindo debaixo da água e conseguindo respirar. São momentos bons e eu sou grata todos os dias por tê-los e minha vida.

E mesmo assim, eu sei isso sobre a depressão: Isso vai passar.

Se eu for ao médico, falar sobre a medicação, tomar a medicação corretamente, continuar na terapia, e usar os gatilhos que eu aprendi nos últimos 12 anos para me ajudar a sair dessa, isso vai passar.

Terão diz que eu só vou conseguir fazer o mínimo. E tudo bem. Tudo bem fazer o mínimo.

Terão dias, no entanto, em que eu vou ter mais vontade e mais energia, e nesses dias eu preciso tentar agir para que esses momentos se multipliquem.

Tem muita gente que acha que deixar de estar deprimido tem a ver com se sentir bem.
O que eu aprendi é que tem a ver com parar de se sentir mal o tempo todo.

Ninguém é feliz o tempo inteiro. O segredo não é buscar a felicidade, mas buscar não se sentir mal.
É se sentir normal. É ser capaz de ter uma conversa sem que isso te cause uma estafa mental.
É ser capaz de levantar da cama de manhã e reclamar que acordou cedo.
É querer que suas férias cheguem para você viajar.
É esperar pelo fim de semana e reclamar do trabalho, mas ser capaz de ir trabalhar.

É não se sentir mal o tempo todo.

É deixar de estar deprimido.


Então, eu vou repetir, pra mim e pra você:

Calma. Respira. Isso vai passar.

Isso vai passar.

Busque ajuda. Se cerque de pessoas e coisas que você gosta. Fique num lugar que te traga segurança. E confie no seu tratamento.

Isso vai passar.