De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Sumiço

Nas últimas semanas uma série de acontecimentos me fizeram perder o tempo para escrever.

Existiram coisas boas, como as relativas a nossa iminente mudança de casa, e coisas muito ruins, como o falecimento do meu sogro, que tiraram nosso chão.

O ano não está sendo fácil, e peço que vocês tenham um pouco de paciência.

Quero voltar e detalhar um pouco mais cada uma dessas coisas, mas preciso de tempo.

Por agora senti que precisava pelo menos falar.

Estou aqui, estou levando e organizando as coisas num ambiente um tanto caótico. Estou bem pois alguém precisa estar.
Meus pais tem ajudado muito, diria que até demais pois vejo como eles ficam sobrecarregados. Mas eu agradeço.

Seguimos em frente.

Vamos nos mudar. E quando eu conseguir parar pra respirar, eu sento e conto tudo da melhor forma possível.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Aquele sobre o Natal...

As vezes somos pressionados a fazer coisas mesmo não estando seguros se e a coisa certa a fazer. Tenho certeza que isso já aconteceu com você. Esse Natal aconteceu comigo, e o resultado não foi nada bom...

Rebeca tem 9 anos. É uma menina meiga, alegre, uma criança imaginativa e que vive toda a fantasia permitida para sua idade.

Dai que esse ano começaram as indagações se ela ja não é muito grande para acreditar em Papai Noel. Que já teria idade para deixar esse tipo de fantasia pra trás.

E essa perguntas vinham de pessoas muito próximas, irmã, marido, mãe, e eu sentia que por tras dessas indagações tinha uma acusação de que eu estaria mantendo uma fantasia desnecessaria porque não aceito que ela está crescendo.


Insegura, tentei argumentar que não, que achava que Rebeca ainda não é grande demais, que não acho que exista uma idade certa para isso e que não vejo ela se apegar a existência de Papai Noel e outros seres mágicos como algo ruim.

Mas, como comecei, estava muito insegura. E acabei cedendo e resolvi fazer um teste.

Na família do Taz, meu marido, a tradição era de abrir os presentes na manhã do dia 25, e na minha na meia noite do dia 24 para 25. Durante todos esses anos seguimos a tradição da minha família. Esse último ano resolvi mudar, como um teste, para ver como Rebeca iria reagir.

Não contei a ela, mas conversamos várias vezes sobre como era na família do pai dela, etc etc...

Na noite do dia 24 abrimos os presentes mais cedo do que o de costume. Meus sogros passaram o Natal conosco e precisavam voltar pra casa e como não teria a necessidade de esperar o Sr Noel, mudamos nosso cronograma.

Mas Rebeca continuava aflita, ansiosa, esperançosa. As horas iam passando e era possível notar a inquietação dela.

Tentei falar com ela, e ela dizia que entendia, que não é porque ele, Papai Noel, tinha vindo sempre a meia noite nos últimos anos, que ele viria esse horario sempre. Que ela já tinha ganhado presentes e podia se divertir com o que tinha ganhado... E ela concordava, mas era visivel que não estava tudo bem.

Eu não quis falar que Papai Noel não viria. Eu queria ver se ela chegava a conclusão sozinha, se sentia falta desse momento de fantasia.

Deu meia noite... 1h da manhã... E eu declarei que era hora de dormir e que não iríamos esperar mais.

Ela foi para o quarto se trocar, esperei uns minutos e a segui. E Rebeca chorava. Chorava muito. Eu sentia sua dor em cada soluçar.

"Ele não veio! Ele não veio mesmo! Ele me esqueceu! Ele esqueceu!"

E de repente eu entendi o que eu tinha feito.
Entendi que eu quis adiantar algo para o que ela não estava pronta. Que provoquei não apenas uma frustração mas um sentimento de abandono. E por quê? Por causa da pressão de outras pessoas...

Mas eu não podia voltar atrás. Sentia que seria pior se eu a fizesse passar por tudo isso por nada, e cedesse no final.

Ficamos juntas por quase uma hora, eu consolando e ela chorando, ate que ela aceitou dormir.

Providenciei que Papai Noel passasse na madrugada e deixasse seu presente para ela abrir quando acordasse. Depositei embaixo da árvore o presente que havia separado e fui dormir.

Quando acordamos no dia 25 ela não acordou animada. Não estava feliz ou esperançosa. Continuava triste.
Eu a chamei para vir a sala, tomar café. E quando ela entrou e viu o presente embaixo da árvore foi como se as luzes do Natal se acendescem de novo!

"Ele veio!"

E tudo que consegui dizer foi: "Viu só, ele não esqueceu de você!"

Porque temos a necessidade de tirar a infância de nossas crianças? Porque temos essa pressa em vê-las crescer? Que mal há em manter a magia pelo tempo delas e não o nosso?

Ela não estava preparada e eu, na minha pressa e insegurança, provoquei uma dor que não precisava ter existido se eu apenas tivesse confiado mais em mim e ouvido o que meu coração me dizia desde o começo: respeito. Respeito a infância de minha filha. Respeito ao tempo dela. Respeito a sua inocência, a sua vontade, e a seus sonhos. Respeito.

Espero ter aprendido minha lição.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Sobre rotina e segurança

Antes de começar meu tratamento para bipolaridade eu abominava a ideia de rotina. Sei que muita gente, especialmente jovens, acham a ideia de rotina algo impensável.

Como se ater a fazer as mesmas coisas todos os dias do mesmo jeito?

Mas a verdade é que não entendemos a ideia da rotina no nosso bem estar.

Tomar remédio todo dia no mesmo horário, por consequência, era um desafio real. E complicado adotar um tratamento de longo prazo se você não sabe nem onde vai estar todas as noites, não é?

Mas eu olho pra trás e penso que eu subestimava o bem que a rotina podia fazer por mim, e superestimava a minha "falta de rotina".

Nos primeiros meses do tratamento, la em 2003, eu não conseguia seguir horários muito regrados, esquecia de tomar os remédios, desobedecia instruções médicas e tomava doses extras quando achava que devia. Era um comportamento perigoso, e que intensificou a necessidade de uma internação.

Vou contar pra quem chegou agora que naquele momento eu fui internada, fiquei 14 dias no hospital onde tive um tratamento intensivo e foi quando eu considero que realmente meu tratamento começou a funcionar.

Durante a internação eu fiz o que não conseguia fora do hospital: dormir. Sai de uma rotina, que eu não sabia que tinha pois não era voluntária, de passar 72h sem dormir para dormir 6h e depois mais 72h acordada, para dormir o dia todo enquanto estava no hospital devido a medicação.

E era exatamente o que eu estava precisando.

Dali em diante, anos para frente, muitas coisas aconteceram, idas e vindas, troca de remédios, de medicos, mas uma coisa foi sempre priorizada: dormir. Se começo a oscilar demais a primeira reação é dormir mais e melhor por alguns dias.

Quase como dar um reboot no cerebro.

Depois que tive a Rebeca eu entendi e adotei a rotina como parte integrante da minha vida.

Se antes eu já havia me entendido com a rotina da medicação, a maternidade me ajudou a fazer as pazes com os horários e com atividades e comportamentos repetitivos.

Rotina, eu descobri, é o que nos faz sentir em casa. Nos faz sentir seguros. É a ação que fazemos sem precisar de esforço e que nos permite prever os acontecimentos. E saber o que vai acontecer nos permite relaxar.

Num mundo que nos mantém ligados o tempo todo, atentos, de prontidão, que nos cobra atenção constante e em uma cidade onde a sensação de segurança falha, ter esses momentos de paz são essenciais para manter nossa sanidade.

Num mundo louco a sanidade é ouro.

Num mundo louco a rotina pode ser nossa âncora de segurança.