De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Sobre ser pipa...

Aprendi com os tombos
A ter medo de ir muito alto.
De subir os degraus de uma escada dura demais para descer,
Mas com a descida tão certa quanto cada passo dado para cima.
Aprendi a ter medo dos exageros,
Das emoções fortes,
Das ideias loucas
E dos prazeres fugazes.
Prender os pés no chão,
Fincar fundo e se segurar
Quando a cabeça começa a flutuar
Como um balão de hélio subindo pro céu.
Aprendi com o tempo a ser como a pipa,
Que sobe com o vento o mais alto que pode
E tenta se segurar lá em cima o maior tempo possível,
Mas que desce ao puxar de seu mestre,
Carretel de sanidade na mão, um brinquedo.
Que seja assim, quem sabe?
Uma vida contada em floreios, ondas de vento e... O que era mesmo?

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Sobre as alegrias e tristezas de completar uma década!

Rebeca completou sua primeira década.

São 10 anos de uma vida que chegou em meio a música e tem música em todos os seus momentos.

No dia que Rebeca nasceu eu não entrei em trabalho de parto. Eu tinha uma consulta marcada com minha médica para aquela tarde e estava bastante ansiosa.

Minha médica voltava de uma viagem de 3 semanas a Grécia naquele dia. É o tipo de coisa que desestabiliza um ser humano em reta final de gestação, imagina pra uma bipolar que estava absolutamente sub-medicada...

Eu estava cansada e sentia dores constantes. O quadril já estava aberto a semanas e andar de carro era uma tortura pois cada sacolejada era como um chute. Passei a gravidez toda sem dormir mais que 45min por piscada, acordando o tempo todo, incapaz de relaxar e descansar. Eu cheirava a cânfora o tempo todo devido a enorme quantidade de emplastos nas minhas costas. E minha hipoglicemia me obrigava a comer alguma coisa a cada 2h, então mesmo quando eu conseguia dormir um pouco mais acabava precisando acordar para comer ou a glicemia baixava perigosamente.

Para fechar a gravidez com chave de ouro eu havia passado os últimos 6 meses andando com um copinho a tira colo para ficar cuspindo. Estava com uma produção anormal de saliva e simplesmente não conseguia engolir tanto assim pois isso provocava ânsia e me fazia vomitar. Para não vomitar o tempo todo, cuspia.

Eu estava exausta.

Minha médica então me liga no meio da manhã:
 - Oi Adriana, bom dia. Pode ficar tranquila que já estou chegando no hospital viu? Já estou quase aí!"
Eu, sem entender, pergunto:
 - Como assim? Eu não estou no hospital!
- Não é você que as meninas no consultório me avisaram que está em trabalho de parto no hospital?
- Não... Mas se você achar que é uma boa ideia posso encontrar você lá!
- Não. A princípio vamos manter sua consulta a tarde e lá a gente conversa.

Quando fui a consulta já estava decidida. Conversei com minha médica, expliquei como me sentia, disse que não tinha mais condições de aguentar. Ela tentou me convencer de aguentar mais alguns dias. Eu já estava com mais de 39 semanas e tinha chegado ao meu limite. Marcamos a cesária para aquela noite.

Do consultório fui direto para o hospital dar entrada na internação. Alocada inicialmente numa sala de parto natural até a hora da cirurgia, meu marido estava comigo durante todo o tempo.
Para ajudar a passar as horas, cantamos.

Passamos horas cantado Legião Urbana. As enfermeiras entravam para fazer a preparação e se encantavam com nossa cantoria.

Na sala de cirurgia os médicos colocaram música para tocar. Na hora exata em que ela nasceu tocava uma música de Legião Urbana.

10 anos atrás tudo mudou ao som de Legião Urbana.

Ao longo de todos esses anos eu a faço dormir boa parte das noites cantando Legião Urbana.

Eduardo e Mônica, Tempo Perdido, Quase sem querer...

Hoje Rebeca já escolhe as músicas que quer ouvir no Spotify. Puxou a facilidade e a harmonia do pai e o gosto por todos os tipos de música e por conhecer coisas novas.

Rebeca as vezes canta enquanto dorme.

Nas aulas de dança, mesmo nos dias que tem mais sono e o ombro pesa com as dores de crescer nesse mundo, ela sai feliz. Cansada, mas feliz.

Quer aprender a tocar violão.

Quer ser cientista sim, e descobrir uma forma de fazer os humanos viverem pra sempre. Mas quer ser cantora também.
Pode ser os dois, ora bolas, porque não?

São dez anos que me encanto diariamente com a pessoa incrível que ela tem se tornado.

Hoje o mundo já dói. Hoje os amigos as vezes a magoam, as vezes a insegurança fala mais alto, os padrões estéticos da sociedade insistem em fazer com que ela sinta que tem algo errado com seu corpo.

Mas mesmo o mundo dizendo que esses dez anos tem seu preço, ela dá um sacode e encontra felicidade em cada dia. Muitas vezes na música.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Sobre me deixar sentir...


Eu tenho tido fins de semana muito bacanas nas últimas semanas. Tenho jogado RPG com amigos que tem se aproximado mais e tem sido muito bom, divertido e libertador.

Esse fato, os jogos de RPG nos fins de semana, tem sido uma consequência da reaproximação de alguns amigos nos últimos meses. Além dos jogos de RPG, temos recebido amigos em casa, dado suporte a amigos com dificuldades e feito da nossa casa o que sempre desejamos: um local seguro, um refúgio, um local que você se sinta bem recebido e tenha vontade de voltar.
Esse movimento de receber, de acolher, é algo que faz parte de mim, é uma das minhas principais características. Taz chegou na minha vida e se sentiu a vontade exatamente por causa disso e ao iniciarmos nosso relacionamento ele tomou para si parte dessa característica, se identificou, e hoje é corresponsável pela manutenção dessa rede.
Agora, apesar disso, tem uma coisa que eu sinto e da qual nunca falo que as vezes me parece ir contra todo esse sentimento de mamãe coruja.

Eu não me sinto confortável com toque.

Isso não é algo que eu senti sempre. Sempre fui tímida, sim, e não demonstrava ou recebia bem demonstrações de afeto de desconhecidos, mas depois que me sentia mais a vontade conseguia relaxar e aceitava bem a aproximação das pessoas.

Isso mudou muito depois do nascimento da Rebeca.

Sinto que fui me fechando cada vez mais para o mundo, criando uma proteção, uma barreira para me proteger e manter o controle. Eu sinto, o tempo todo, que posso perder o controle a qualquer momento. E eu não posso perder o controle.
Inicialmente uma barreira mental, sem que eu percebesse isso foi crescendo, ao ponto que eu não me sentia bem recebendo elogios, abraços, beijos no rosto, apertos de mão, ou qualquer coisa que pudesse me expor de alguma forma.
Duas ou três vezes no ano eu tento abrir mão desse controle tendo uma noite onde vou beber, ficar levemente bêbada, dar risada e não me preocupar com mais ninguém a não ser minha própria diversão. Sempre acompanhada de alguém para dividir esse momento, nunca sozinha. O que faz com que muitas vezes o plano de errado e eu me veja tendo que cuidar desse outro alguém, mas são experiências mais positivas que negativas então mantenho o plano.
Pode parecer besteira mas é muito difícil se permitir esses dias e mesmo nesses situações eu estou sempre a apenas um “clique” de voltar a me fechar, me concentrar, ser responsável.

O que eu quero focar um pouco aqui é na questão do ser tocada. Com todas as dificuldades e as crises depressivas, de leves e contínuas as mais graves, eu fui desenvolvendo uma certa aversão ao toque de outras pessoas. Ao ponto de que em alguns momentos o único toque que eu me sentia realmente confortável era o da Rebeca. Com ela era o único momento que eu me sentia totalmente a vontade.

Com o Taz esse sentimento ia e vinha dependendo do meu humor, do tom das conversas, mas mesmo assim isso afetou profundamente nossa relação. Mesmo me sentindo segura com a presença dele a maior parte do tempo eu simplesmente não consigo baixar totalmente a guarda.

E dai que isso começou, lentamente a mudar no último ano. Com tudo que passei com minha mãe adoecendo, a mudança, a perda do meu sogro… Eu não tinha como não estar vulnerável. E durante esse período algumas pessoas voltaram ou passaram a estar bem mais presentes na minha vida. Amigos que me ofereceram não apenas ajuda em coisas práticas, mas atenção e carinho. E carinho na forma, também, de abraços.

Eu não me senti confortável com o toque, com ser tocada, num primeiro momento. Mas eu senti, sinto, a necessidade dessa proximidade. Eu quero muito ter essas pessoas na minha vida e quero que elas se sintam sim na liberdade de serem afetuosas comigo. Porque elas são assim. E porque eu percebi, enfim, o quanto eu preciso disso.

Os abraços inicialmente mal retribuídos, pois eu não sabia mais como me portar, aos poucos tem sido cada vez mais bem vindos.
E o que começou como uma reciprocidade tímida e muito inconsciente, de repente com todas essas peças se juntando me fizeram querer tomar a ação.

Eu ainda sinto, a cada abraço, que se eu ficar ali aninhada por tempo demais eu vou simplesmente perder o controle. Vou cair num choro sentido de quem não sabe o quanto sente falta de se permitir sentir qualquer coisa.

E o que eu percebi é que: eu ainda não consigo e não sei como fazer isso, mas eu quero voltar a sentir de novo.

Não sei como descrever isso melhor. Eu quero voltar a me deixar sentir.

E apesar disso me causar um medo absurdo, a vida é muito curta e muito imprevisível pra ter medo o tempo todo.

E eu quero, em algum momento, não sentir mais medo. Pelo menos não de mim mesma.