De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

domingo, 27 de dezembro de 2020

Sobre 2020

 O ano está acabando e a sensação que eu tenho é de "já?". Que o tempo passou muito rápido. 

Ao mesmo tempo eu tenho a percepção que 2020 foi, pra mim, um ano com uns 3 anos dentro dele. Tantas coisas diferentes aconteceram...

O ano começou Janeiro com festa com os amigos, com família, com altas conversas na madrugada, no passar a noite em claro, na bebida em excesso para alguns, na brincadeira das crianças...

É estranho pensar que no começo do ano eu ainda tinha em casa uma criança...

Tivemos também desemprego, depressão, companheirismo. Tivemos problemas sérios de saúde e o descobrir como alguém se importa mais do que o esperado. Tivemos ajuda e carinho de várias formas e pessoas que decidiram apostar em nós. E isso o ano todo foi uma constante...

Quando final de Março chegou com a COVID 19 e a quarentena foi como entrar em stand by. Sabíamos que as restrições durariam mais no Brasil que nos outros países, mas não estávamos preparados para perder o ano de 2020 inteiro. Quiçá o de 2021 também... Estávamos tão despreparados que conforme os meses passaram nós naturalizamos a tragédia e fomos impelidos a conviver com ela. 2020 parou o tempo por alguns meses, mas não tinha condições de pararmos nossas vidas por tanto, tanto tempo.


Aqui nós vimos a necessidade financeira bater a porta, a urgência em encontrar uma solução, a saúde mental pedir socorro. E veio Julho e Agosto e uma ideia que mudou tudo e virou meu mundo de ponta cabeça.

Um projeto que no começo nem era meu, que entrei de gaiato, e foi nele que me encontrei como não me encontrava há mais de uma década! E eu abracei e me joguei e agora começamos a ver, aos poucos, os resultados tímidos de todo o trabalho. Confiantes e nos divertindo, seguimos firmes em nosso propósito. Felizes.

E nesse ano louco eu me reencontrei. Encontrei a vontade de estar bem comigo mesma. De ser verdadeira. De explorar. De sentir. De vencer o medo. Encontrei minha inspiração. Minha vocação. Encontrei partes de mim que se escondiam há tanto tempo que ainda estou aprendendo a reconhecer.


Esse ano minha criança aqui de casa cresceu tanto e amadureceu tanto e tão rápido que hoje já é uma pré adolescente. Seus gostos mudaram. Seus interesses. Seu jeito de interagir. Suas brincadeiras tem outras histórias. Suas histórias tem outros personagens. Seu dia já é preenchido por outras pessoas.

Foi ela me mostrar que estava pronta pra esse vôo solo que me permitiu olhar pra mim. E olhar pra mim me mostrou que esse é um exemplo que quero dar pra ela. De que nunca é tarde pra vivermos nossos sonhos.

Minha forma de viver no mundo encontrou seu lugar, e eu pude ter a certeza que sei quem eu sou, o que eu quero, no que eu acredito, o que e quem eu amo. 

2020 no fim, com seus 3 versos me foi um ano bom. E é difícil admitir isso em meio a tantas tragédias. Mas pra mim ele foi.


Que 2021 me traga a continuação e realização desse trabalho, dessas verdades, dessas coisas boas.

Mas pode resolver a parte da tragédia também. Porque, né? 

Um feliz Ano Novo pra todos vocês! Que assim como eu vocês encontrem motivos para sorrir e acreditar no melhor.

Um Ano Novo de esperança.


domingo, 1 de novembro de 2020

11 anos de Mãe Bipolar e Filha Jacaré

 Hoje faz exatamente 11 anos que comecei o Blog!

Podemos remontar tanta coisa de lá para cá, tanto crescimento, tanto aprendizado.


Como ser mãe da Rebeca mudou tudo na minha vida.

E como quem ela é hoje aos 11 anos me permite mais uma vez mudar tudo e transformar meu mundo de ponta cabeça.


Eu estou hoje lutando pra sair de uma crise. Faz parte da vida bipolar: você não sabe quando e por quanto tempo mas sabe que ela vira: a crise. Uma crise depressiva, uma hipomania, uma mania, uma crise mista... E a certeza que podemos ter quando qualquer uma delas se instala, por sorte, também é a mesma: da mesma forma que ela vem ela eventualmente irá embora.


Nossa vida é cíclica.


Vivi esse último ano inteiro no que pode ser considerado uma crise de hipomania. Será?

Honestamente não tenho certeza.

Mas foi um ano diferente de todos os últimos, não sei, 10 anos?

Talvez por finalmente sentir a segurança e a liberdade depois de todo esse tempo para agir e ser eu mesma, aos poucos, semana após semana, eu fui mudando, me reconectando a partes de mim que estavam escondidas há anos, que pensei que estivessem perdidas.

Esse último ano foi um ano de mudanças intensas, de reconectar, de reencontrar, de amadurecer. De redescobrir uma face de mim: a minha.

Eu me dediquei por 10 anos totalmente a ser mãe da Rebeca. Era o que eu sentia que devia fazer.

Nesse último ano Rebeca mudou muito. Ela deixou de ser uma criança indefesa e está se tornando uma pré adolescente que busca sua independência, que se sente mais segura para não precisar mais de mim na mesma intensidade. 

E isso me deu liberdade para que eu pudesse ser eu mesma novamente. Para que eu pudesse olhar para o mundo e redescobrir o que eu gosto. As coisas que eu quero. Me fez perguntar quem eu era, quem eu quero ser hoje.

Tem sido uma jornada incrível e vocês a acompanharam esses anos todos por aqui.

E eu tento como posso trazer um pouco desse novo momento também. Porque chega uma hora na vida de toda mãe que seus filhos começam a andar sozinhos e você precisa descobrir o que fazer com as mãos novamente.

A coisa mais importante que eu recuperei esse ano, de 2020 mesmo, no meio de uma pandemia, foi escrever.

Em algum momento em que tentávamos ver como viver e sobreviver a essa pandemia, não poder sair de casa, não ter outra saída a não ser buscar algo criativo para fazer, me libertou.

Numa combinação de ideias, amizade, liberdade, oportunidade, eu reencontrei a única coisa que eu sempre sonhei além da maternidade: a escrita.

Hoje é o que eu faço. Hoje faz parte da minha rotina como não fazia desde a adolescência. Hoje é meu trabalho. Hoje escrever tem sido um sonho que se torna realidade.

Mas eu disse que estou lutando com uma crise. E estou.

No último mês essa que parecia uma crise de hipomania degringolou para uma mania completa e eu fui aos poucos perdendo contato com a realidade.

Precisei dar 2 passos pra trás. Voltar 6 casas no tabuleiro.

E eu senti muito medo que a única forma de recuperar meu equilíbrio seria abrir mão do meu sonho mais uma vez.


Eu tenho pessoa que me amam do meu lado dizendo que eu não preciso fazer isso. Que eu não preciso abrir mão de nada. Que talvez isso signifique que, passada a crise mais forte, nós tenhamos que lidar com uma certa instabilidade. E que tudo bem.

Mas que eu não preciso perder quem eu estou descobrindo ser hoje, nem o que eu quero, ou meus sonhos, para alcançar meu equilíbrio. Porque eu preciso ver o que eles já vêem: o ponto de equilíbrio mudou.


Hoje faz 11 anos que comecei o Blog.


O ponto do equilíbrio mudou.


Você vem comigo descobrir esse novo mundo que se abre?

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Aquele sobre o aniversário de 11 anos



 Rebeca completou 11 anos em um Brasil em quarentena. Um lugar que, apesar das flexibilizações duvidosas país afora, as pessoas permanecem tendo de ficar o áximo possível em suas casas, se protegendo e protegendo os outros de uma doença perigosa, sem cura.

As vezes banalizamos para poder continuar vivendo sem estar em pânico constantemente, mas a verdade é que a Epidemia não acabou e continua matando quase mil pessoas todos os dias.

E nesse cenário de incertezas e medo, Rebeca fez 11 anos.

Muito mais do que uma mudança de um número, eu acho que ela não percebeu as mudanças que aconteceram com ela durante esse ano. Ela era uma criança de 10 anos, no aniverário do ano passado quando ainda me pediu para ganhar um boneca, das caras, de presente de aniversário.

Esse ano nós vamos pintar o cabelo dela de colorido como presente de aniversário.

E como se comemora aniversário em meio a quarentena? Com parabéns virtual? Sim, claro!
Mas eu achava que era pouco.

Eu queria fazer o aniversário dela ser especial, memorável, divertido!

Rebeca gosta de festas grandes, preparar as festas, monstar lembrancinhas. O que poderia suprir esse gosto?


Decidi que iríamos viajar.


Pedi a uma prima minha que tem casa na praia se ela poderia nos emprestar a casa dela por alguns dias para comemorar o aniversário da Rebeca, Conversei com ela com mais de um mês de antecedência para ter certeza que daria certo e que fosse no dia mais proximo possivel do aniversário da Beca.

Minha prima concordou. Nos organizamos e ela conseguiu que nós fossemos passar 5 dias exatamente no intervalo que aconteceria o aniversário da Rebeca. estaríamos na praia no dia certo!

Comecei então a organizar as coisas.

Eu queria que ela tivesse contato com outras crianças. Conversei com dois casis de amigos meus proximos e com quem nós temos convivido durante a quarentena por motivos de trabalho e saúde mental cujos filhos são amigos da Rebeca para que eu pudesse levar as crianças na viagem.

Com isso em mente, tentei fazer com que eles se sentissem seguros de deixar as crianças comigo e planejei a viagem para que meus pais pudessem ir conosco alguns dias e os amigos da Rebeca em outros, assim ela teria um pouco de cada coisa.

Arrumei também para que a irmã dela pudesse ir junto. Convidei um amigo meu que esta trabalhando conosco e esta sempre aqui em casa para nos acompanhar, assim poderiamos ir com dois carros pois ele poderia nos auxiliar sendo um dos motoristas.

Semanas passam e meus amigos não me dão a resposta definitiva sobre as crianças. Meus pais estão com duvidas pois minha mãe tem muita dificuldade de sair de casa. Eu sigo organizando a viagem conforme posso, contando com a presença deles.

Eis que 3 dias antes de irmos viajar um dos meus amigo dias que não vão poder. Duas das tres crianças que eu tinha convidado estavam ali deixando de participar.

No dia seguinte disso meus pais dizem que não vão também. Minha mãe não esta confiante o suficiente.

1 dia antes da viagem eu sinto como se tudo estivesse dando errado. Fico pessima. Peço ajuda para lidar com a frustração. Recebo a ajuda. Recupero o folego. Bola pra frente e vamos em frente!


E fomos


E foi ótimo! Foi uma viagem deliciosa! Apesar de não irmos realmente até a praia em si para não nos arriscar com COVID nem nada, a casa tinha piscina. OS dias estavam muito quentes e ensolarados e pudemos aproveitar bastante a água, os dias na rede, passar a noite jogando jogos. Relaxar e apenas curtir o momento.
NO dia do aniversário propriamente dito nós cantamos parabéns e cortamos o bolo que eu havia feito e levado para a ocasião, do jeito que ela pediu. Fizemos o parabéns virtual com meus pais e minha irmã.

Meu amigo que nos acompanhou é fotógrafo, levou a camera, e nos presenteou com um registro cuidadoso e delicado de um aniversário fora do normal.


Mas tudo que sobre, desce, não é mesmo?

No sábado, ainda na casa de praia, o dia amanheceu chuvoso e frio, Todos cansados dos dias anteriores, cada um se fechou em seu mundo. Baixas de humor. Uma crise.

E então que ela veio. Uma crise forte, certeira, avassaladora.

Eu sabia que eu ia ter um rebote devido a ansiedade de ter preparado a viagem. Eu me dediquei muito e dei muita importância e estava muito preocupada para que o aniversário da Rebeca fosse tudo de melhor que eu pudesse fazer. E isso sempr tem uma consequência.

Mas eu estava esperando a consequencia quando voltasse para casa, não no meio da viagem.

Passei o dia entre o lá e o cá, brigando com o sentimento dentro de mim. Perdi. Em determinada hora apenas pedi que o Taz assumisse o cuidado com as crianças e me deixasse tentar descansar. Eu tinha esperanças de que, se eu conseguisse dormir, o sentimento fosse embora.

Mas ela veio. A dor. Uma dor de proporções que eu não sentia há mais de 10 anos. Um sentimento de vazio, de inadequação. De solidão. De abandono. Uma dor dentro de mim, uma dor na alma, que tentava me convencer que eu não tinha valor nenhum, que eu era fraca, que tudo que eu tinha ali era por pena. Que no fim eu estav sozinha, sempre. Que eu iria perder tudo que eu achava que tinha conquistado. Que nada daquela felicidade do dia anterior iria permanecer...

Eu chorei copiosamente deitada na cama por mais de uma hora. Entre ondas de choro e alguns poucos minutos de calma eu tentava me levantar para pedir ajuda, para pedir companhia e não conseguia me mexer.

Quando depois dessa 1h hora, ainda em crise e chorando, percebi que talvez eu finalmente conseguiria levantar eu ainda consegui pensar que não queria que Rebeca ou meu sobrinho me vissem assim, não queria assusta-los. Então eu não podia chamar o Taz. Eu precisava que ele continuasse com as crianças.

Então levantei e fui até o quarto mais perto, onde meu amigo e minha entenada estavam cochilando e  gritando, batendo a porta, implorei por ajuda. O tom que usei foi o de uma briga. Foi um grito, uma bronca. Foi a única forma que consegui fazer as palavras saírem da minha boca. Eu brigava não com eles mas com a dor dentro de mim que me sufocava.

Por sorte meu amigo entendeu e sem questionar apenas levantou e veio a minha ajuda. E ficou comigo, no quarto até que eu conseguisse me acalmar, falando comigo e me dando carinho.

Foi importante e necessário e serei grata sempre.

Naquela noite fui deitar cedo para deixar que tudo passasse, que o dia acabasse.

Acordei um pouco melhor no dia seguinte. Domingo. Dia de voltar para casa.

A viagem de volta foi boa. Lenta, por causa d echuva e neblina. Boa.

Demorei mais alguns dias para conseguir voltar ao normal. Não me culpei. Não fui culpada.


Olho para esse dias com muito carinho. Mesmo tendo tido essa crise tão forte eu não acredito que ela tenha estragado nada do que foi. Tivemos momentos maravilhosos, divertidos, e o mais impotante de tudo é que Rebeca ficou feliz com o aniversário dela. Ela se divertiu.

Eu alcancei o meu objetivo de dar a ela dias especiais para que ela lembrasse desse aniversário com carinho.

No meio de tantas coisas, eu recebi muito amor. Muita ajuda.

E se tem algo que eu quero lembrar desses dias é desse carinho.

Quero guardar na memória o amor.

Rebeca agora tem 11 anos.