De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Sobre se sentir melhor

Lá se vão 14 dias que mexi na minha medicação de novo e sinto que finalmente acertei o alvo.

Me sinto melhor.

Nós trocamos a medicação pra uma que tanto eu como minha médica já acreditávamos que traria benefícios mas estávamos evitando e buscando alternativas devido ao seu alto custo.

Eis que no meio daquele mar revolto que eu me encontrava cheguei a conclusão que estava fazendo uma escolha ruim. Que era uma economia burra. Que deixar de fazer um tratamento que tinha altas chances de funcionar por medo de aumentar os custos do tratamento apenas estava prolongando um problema.

Fiz as contas, pedi ajuda. Falei com a psiquiatra e mudamos. Se funcionar darei um jeito de arcar com isso.

Até porque com a saúde mental voltando fica muito mais fácil buscar formas de resolver isso.

Não a nada como a sombra da depressão na sua cabeça dizendo o tempo todo que sair de lá é impossível.

Consegui me desvencilhar dessa mentira e rapidamente senti a diferença. Coisa de poucos dias e eu já estava menos dopada, dormindo melhor e acordando bem disposta e de bom humor.

Voltei a conseguir a ouvir música.

Havia meses que eu não conseguia ouvir música.

Nem me lembro a última vez que eu tinha acordado de bom humor.

E só essa mudança do sono já trás um alívio que só quem já esteve se afogando em si mesmo sabe como é.

Eu me sinto eu mesma novamente.

Não canto vitória ainda. Sei que estou começando um longo processo de cura. Mas pelo menos agora parece que voltei a andar.

Ainda tenho crises de ansiedade. Algumas bem fortes. Ainda sinto meu corpo falhando e doendo por causa das semanas de descuido. Faz parte desse retorno retomar o cuidado que ficou no caminho.

Mas eu queria contar isso. Que hoje eu me sinto bem. Que sinto vontade de cantar. E sorrir. E dar risada. Que não sinto mais aquela dor constante e nem o desespero.

Hoje eu estou me sentindo bem.

E temos de comemorar cada bom momento.

E fazer o possível pra que isso dure.

Hoje eu me sinto eu mesma.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Sobre ser uma represa

 Tem sido difícil.


Eu estou num processo depressivo fortissimo, com crises de ansiedade constantes.

Tem sido difícil.

Todos os dias eu tenho que me esforçar para controlar o que eu sinto, separar o joio do trigo, não deixar que os sentimentos de medo e insegurança e tristeza inundem e vazem para todos os outros aspectos da minha vida.

Tenho que respirar fundo e dentro da minha cabeça, com esforço e paciência, impedir que essa vazão de sentimentos sobre mim mesma e sobre a situação que eu me vejo hoje, se espalhem pelas minhas relações com minha filha, meu parceiro, meu pais, minha irmã, meus amigos...

Impedir que eu transborde para todos os lados e com isso afunde assuntos e pessoas me fazendo sentir coisas que eu na verdade não estou sentindo.

Como se eu tivesse um pequeno balde em minhas mãos eu fico pegando os sentimentos que escapam e devolvendo de volta ao lugar de onde eles vieram, racionalizando e tentando entender o que eu realmente estou sentindo sobre cada aspecto da minha vida.

Mantendo minhas dores numa represa e tentando controlar a vazão com a qual esses sentimentos passam por mim de forma que as coisas façam algum sentido. Não impedindo a dor mas deixando cada coisa em seu lugar.

No entanto as vezes eu caio para dentro da água e quase me afogo. 

Por sorte eu sei nadar. E sei que a margem está logo ali e eu vou sair da água. Sei que pra cada braçada que eu dou, nadando contra essa corrente que me puxa para o fundo, vou me tornar mais forte e me levar mais perto da segurança da terra firme.

Sei que logo vou poder colocar meus pés no chão seco e me levantar. E que um mundo enorme, um continente inteiro de vida, estará lá para ser explorado e vivído.

Hoje eu sinto uma dor que eu não consigo quantificar. Uma tristeza que eu achei que não ia sentir tão cedo. Sinto falta e sinto culpa e sinto medo. Me sinto insegura e por vezes sozinha nesse enorme lago que se formou nessa represa que precisei criar. Muitas vezes estou cansada demais pra continuar nadando e apenas me deixo flutuar torcendo pra corrente não me levar pra muito longe de onde eu quero chegar.

E eu sei que por vezes esses sentimentos mantém meus pensamentos nublados e me fazem esquecer que se eu simplesmente colocar meus pés para baixo vou ver que eles encostam no chão e eu não vou realmente afundar. Com dificuldade e apenas com a cabeça pra fora da água eu ainda assim poderei caminhar em direção a segurança. E vou ver que terei muitas mãos tentando me ajudar no caminho.

Eu achei que a essa altura do campeonato eu já estaria navegando por esses águas com mais tranquilidade. Foi um pouco de ingenuidade achar que mudar a minha vida inteira seria algo a ser absorvido tão rapido.

Hoje eu estou perdida na vastidão de uma represa. É um lugar tão escuro e inóspito que tenho dificuldade de remar. Mas eu tenho uma luz que me guia para onde preciso ir. Então eu respiro fundo e nado em direção a ela todos os dias. Mesmo quando ela não sabe.

Eu estou cansada. 

Eu sei que estou.

Todo dia. 

Mas eu tenho em mim essa capacidade de enxergar a saída por mais distante que ela esteja. Eu vejo isso dentro de mim. Uma vontade gigante de seguir em frente e ver o que me espera do outro lado daquela barragem. Um amor maior que a vida para me guiar e me dar um norte.

Então eu sigo.

Sigamos.

A vida está logo ali, esperando. 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Aquele sobre a separação

 Estamos em Junho e eu não sei onde foi parar o tempo.

O que acontece é que no final de fevereiro eu me separei do meu marido depois de 23 anos juntos.

Eu não sei se consigo dimensionar o que isso significa.


Quando nós começamos a namorar eu tinha 16 anos e ele 22. Ele já tinha sido casado e tinha uma filha. Pra mim ele era meu primeiro namorado de verdade.


Desde o começo no nosso relacionamento, ali nos primeiros dias, nós já nos entendemos como um relacionamento aberto apesar da gente mesmo não entender ainda como isso funcionava. Nunca tínhamos tido contato aberto com pessoas que tinham esse tipo de relacionamento mas nós sabíamos que não queríamos privar um ao outro de viver outras experiências.

E isso funcionou, as vezes mais e as vezes menos, nos nossos 23 anos.

Ao ponto de que eu, por exemplo, não tenho desejo nenhum de algum dia viver um relacionamento que não seja não monogâmico. Simplesmente não faz sentido.

Mas essa foi só uma parte da nossa relação.


O fato é que eu fiz 40 anos esse ano. Nós íamos completar 24 anos juntos em Julho desse ano.


Mas o relacionamento acabou antes disso.


Tudo que eu sou hoje eu construí ao lado dele. A pessoa adulta que eu me tornei existe com essa marca. Eu não conheço uma outra vida adulta sem ter ele do meu lado.

Vocês conseguem conceber isso? São 23 anos e meio. É uma vida inteira.

No tempo que estivemos juntos nós passamos por dificuldades, ele esteve comigo durante tantas crises incontáveis, durante todo meu tratamento, durante tudo que eu conheço...

Nós temos uma filha adulta linda, incrível, do primeiro casamento dele. E essa é uma coisa que eu tenho muito certa dentro de mim: nós nós separamos dos pais, não dos filhos. Depois de 23 anos como poderia ser diferente? Ela vai ser minha filha pra sempre...

Juntos tivemos nossa filha mais nova. Rebeca é tudo que eu sonhei e muito mais. Ela é inteligente, esperta, com uma empatia que vale milhões, uma disposição pra tudo, é determinada e persistente de um jeito que me ensinou como eu quero ser.

E agora ela está sofrendo o luto da separação dos pais. E ela entende porque essa separação aconteceu. Ela viu como ninguém mais poderia todo o processo de deterioração do relacionamento que levou a separação. E ela entende que isso é melhor, por mais que doa muito.


Ela entende. Mas sofre.

E me dói como nada no mundo ver minha filha sofrer.

E eu tenho que lembrar que ela já estava sofrendo com as brigas que ficavam cada vez mais frequentes. Sempre o mesmo motivo, sempre a mesma briga, sempre as mesmas dores...

Até que ponto nós nos deixamos levar por uma situação ruim porque não conhecemos nada diferente daquilo?

Eu vivo muitas alegrias nesses 23 anos. Muitas. E eu amo muito tudo o que eu vivi e construí nesse período.

Separar não foi uma decisão facil. Eu perdi uma família. Eu abri mão de toda uma realidade e de uma esperança de futuro. Eu abro mão de todo um passado porque eu vi que o futuro na verdade não era mais o que eu sonhei um dia. Porque o presente já não era mais o mesmo.

Nós conversamos muitas vezes sobre nós separar antes de realmente nós separarmos. Foram anos de insatisfação e meses de conversa pra entender que nossa relação já tinha mudado. Que nós não éramos mais os mesmos e não nos víamos mais como o casal que um dia fomos.

Em mim crescia uma mágoa cada vez pior que me trazia tristeza e raiva com a qual eu já não conseguia mais ignorar ou lidar.

Por anos eu achei que enquanto a gente se amasse e quisesse as mesmas coisas nós poderíamos resolver qualquer coisa.

Mas o que eu percebi é que algumas coisas não foram resolvidas. Foram apenas colocadas de lado, numa expectativa de que o tempo levaria aqueles problemas embora.

Não levou. 

Eventualmente precisamos olhar para o que nós queríamos de uma relação e perceber, ou pelo menos eu percebi, que eu queria coisas que ele não era capaz de me dar.

E ele percebeu que eu queria coisas que ele não estava disposto a abrir mão ou a fazer.

E foi isso.

Chegamos em diferenças irreconciliáveis. 

Chegamos naquele ponto em que existe amor. Mas não mais do mesmo jeito. Existe carinho. Existe respeito. Mas que nada disso é mais suficiente pra sustentar uma relação saudável.

O amor não era mais suficiente.

Não queríamos mais as mesmas coisas.

Eu queria mais.

Eu quero mais.

E principalmente, eu quero mais de mim.


Mas isso tudo me quebrou num momento que eu já estava quebrada.

E eu não estou conseguindo me levantar.

Faz 3 meses e meio e eu sinto uma tristeza que eu tenho dificuldade de lidar.

De repente eu tinha uma mão cheia de certezas e eu não sei onde elas foram parar.

Eu sinto medo. E me sinto sozinha. Uma solidão que só 23 anos acordando e dormindo todos os dias do lado de alguém pode me trazer.

Eu me sinto insegura. E culpada.

Eu não consigo trabalhar direito. Ou cuidar da casa. Ou cuidar de mim.

Eu cuido da Rebeca. E ela cuida de mim. Nós estamos ligadas e sendo a força uma da outra no meio de uma tempestade que não tem previsão de quando vai acabar.

Mas vai acabar.

E eu sei disso.

Uma hora a dor vai ficar mais suportável. E haverão mais dias bons que ruins.

Uma hora as lembranças vão parar de doer e vão fazer parte da história da nossa vida. E vai ser bom. Já é bom.

Uma hora vai ficar mais fácil. Aos poucos. Um pouco mais a cada dia.

Mas por agora eu sinto que eu não estou dando conta.

Eu me sinto completamente perdida.

A deriva.

Então eu me agarro com força no que me ajuda a continuar no rumo.

Me apego no que eu vi antes de mergulhar.

E sigo.


Tá muito muito difícil.


Mas vai passar.

E eu vou sair do outro lado muito melhor do que eu entrei.

A tempestade vai passar.


quinta-feira, 26 de maio de 2022

Sobre fazer 40 anos

 Hoje eu completo 40 anos.

Isso talvez explicasse muitas coisas, ou não explique realmente nada.

A foto de hoje é minha favorita desse ensaio até agora e é a última que vou postar por um bom tempo.

Nela eu vejo um pouco de como sou vista e isso é muito forte pra mim.

Ela está aqui para colocar esse marco: essa sou eu aos 40 anos.

Tanto de mim já se foi e tanto eu ainda vou alcançar. Se tudo der certo eu vivi o primeiro terço da minha vida.

A pessoa que sou hoje é uma pessoa em construção. Uma pessoa que está aprendendo a se identificar, se olhar de uma forma mais gentil, que encontrou forças para mudar tudo de pernas pro ar e se perder totalmente pra poder se reencontrar.

Sou jovem demais pra me acostumar com um único lugar. Sou velha demais pra fingir que não existem consequências.

Sou tantas e sou única. Sou bipolar - dos de verdade! - e isso não me define nem pela metade. Sou mãe e por isso sou gigante. Sou hoje mais eu mesma do que há muito tempo mas se sou é porque pude caminhar até aqui.

Eu amo muito minha história e cada pessoa que fez e faz parte dela. É preciso uma vila e juntos somos fortes. Eu sou grata. Mas tenha essa ânsia por seguir em frente.

Levo 40 anos comigo, mais 23, mais 12, mais 3... Cada um no seu espaço e no meu coração.

Hoje eu faço 40 anos buscando uma independência e uma liberdade que só serei capaz de encontrar em mim. Conto com ajuda, com amores, e sou sim um exemplo. 

Se de tudo que os 40 me trazem é a possibilidade de viver um sonho. Um objetivo. Uma meta. Uma vida.

Hoje eu faço 40 anos.

Feliz aniversário. Que venham mais 80.


quarta-feira, 23 de março de 2022

Todo dia ela faz tudo sempre igual...

 Tudo mudou. Ainda não estou preparada pra falar muito mais sobre isso. Mas tudo mudou.

Eu me vejo me apegando aquilo que posso para tentar me manter de pé e seguir em frente.

Eu tenho planos, e sonhos, e vontade.

E tudo isso nesse momento está sendo levado em câmera lenta conforme eu tento me adaptar a uma nova realidade no meio de uma crise que já existia.

Tanta coisa que já existia...

Eu me apego ao que sei, ao que consigo.

Eu acordo todos os dias as 5h da manhã pra poder fazer um café com calma e acordar a Beca as 5h30 pra ela começar a se arrumar pra escola.

A Beca sempre precisou do seu tempo, de poder fazer as coisas com calma, pra funcionar. São 1h30 praticamente entre eu chamar ela a primeira vez e ela estar pronta pra ir pra escola.

Mas tudo bem. Isso é normal. Faz parte da nossa vida e da nossa rotina há muito tempo. Isso me conforta. Então eu acordo às 5h, tomo meu remédio, faço meu café...

Mas tudo mudou. Tudo.

Sem ter certeza de nada eu me vejo acordando as 4h da manhã e não conseguindo me manter na cama.

Levanto. Faço café. Esqueço de tomar o remédio. Mexo no celular, falo com um amigo que fica acordado de madrugada.

Me pergunto se nós últimos dias ele não tem feito isso de propósito pra me fazer companhia...

Não faz diferença. Eu agradeço assim mesmo.

O ócio não tem me feito muito bem.

Eu tento trabalhar um pouco, conforme consigo. Nos dias bons a coisa rende e eu consigo fazer os projetos, tanto meu pessoal como do Canal do Onde Está Minha Mente, irem em frente. Um passo pequeno por vez. Mas nunca parada. Não consigo não fazer nada. Acho que isso não me pertence mais.

Estou em movimento. Sei pra onde quero ir, qual meu norte. E rumo pra lá em meio a uma das maiores tempestades que passei até agora.

Eu sei que as coisas vão aos poucos melhorar e eu vou ficar bem e vou conseguir chegar onde eu quero.

Mesmo porque é por isso mesmo que tudo mudou.

Porque eu mudei. E não consigo mais ficar parada.

Mas não vamos falar mais do que isso hoje...

terça-feira, 1 de março de 2022

Sobre como os problemas não esperam

Eis que a vida continua a andar independente de como eu me sinto. De como eu preciso...

O mundo gira, a vida segue, e a melhora que eu vejo tem seus baques.

O fato é que as coisas que levam a depressão não mudam porque eu entrei em depressão. Os motivos continuam lá. Porque a maior parte deles já está em mim.

As brigas que misturam o passado e o presente, e todo o ressentimento, tudo isso continua lá. Pedindo meu tempo, minha atenção e minha sanidade.

Simplesmente não há tempo para respirar o suficiente. 

Quando menos espero levo um tapa da realidade chamando minha atenção e me perguntando:

"Por quê?"

E dessa vez eu não soube mais responder.

E não soube responder porque minha resposta mudou. Porque mudei eu, mudou ele, e essa mudança precisa fazer sentido então a pergunta fatal "Por quê?" Parece pedir uma resposta mais honesta para quem somos hoje.

Já não somos os mesmos... Então a urgência de entender quem somos e o que queremos e pra onde vamos grita cada vez mais alto.

Mas mudanças dão medo. Muito medo. Especialmente quando sabemos o valor enorme do que estamos perdendo. Do que abrimos mão, da segurança do conhecido para algo nunca vivido.

Medo de perder tudo que foi construído, que se constrói, que se apega, que se ama.

Não é falta de amor. Definitivamente amor existe e está presente em cada linha dessa história que só está em um novo capítulo.

Eu não sou mais quem fui um dia.

Eu hoje luto para ser a pessoa que quero ser.

Para ser o exemplo que acho que devo.

Para ser completa.

Para ter controle da minha própria vida.

Como é difícil crescer.

Ainda mais aos 40...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Sobre a hora de pedir ajuda

 Eu estou deprimida. 

Estou em uma crise depressiva bem forte.

Eu estava tentando manter o controle, aquela coisa de tentar esticar o tempo, tentar esticar o elástico da mente só mais um pouquinho... "Eu só preciso fazer isso primeiro..."

Não deu.


Duas semanas atrás eu cheguei no limite. E eu não consegui ver ele chegando. Eu realmente não achava que estava tão mal.

As coisas em casa andam bastante difíceis. A gente briga bastante, estamos frustrados, eu sinto um desespero constante e os loops mentais me mantinham em uma paranóia e dependência emocional muito altas.

Aí duas semanas atrás, num domingo, combinamos eu, o marido, o parceiro e um amigo, de instalar um papel de parede no quarto da Rebeca que estávamos devendo fazer há meses.

Mas foi um dia ruim. Marido e eu havíamos passado os dias anteriores discutindo. Parceiro tava passando por suas próprias questões. Amigo idem.

A instalação do papel de parede deu errado, não ficou do jeito que devia, todo mundo frustrado.

Demos sequência indo bater papo na sala. Caímos num assunto meio espinhoso.

Mas eu achava que a coisa estava sob controle, falávamos de sociedade, de relações pessoais, mas não de forma pessoal, não sobre nós. Até que marido mudou o rumo da conversa e começou a falar de como ele se sente.

E eu, que tentava fazer o jantar, senti o gatilho de todas as nossas discussões. E fui ficando nervosa. 

Eu entendia que era importante e que ele estava buscando ajuda e eu tentava ouvir. Mas eu tive uma quebra de realidade e o meu raciocínio parou quando a conversa ainda não havia enveredado a ser tão pessoal.

E eu de repente não ouvia mais nada. Era só barulho. Eu sabia que eles estavam falando, conversando, eu ouvia o som das vozes, mas eu não ouvia mais o que eles de fato falavam. Era só barulho.

Dentro da minha cabeça eu ouvia mais barulho. Os pensamentos negativos e as memórias passavam numa velocidade tão grande que eu não conseguia acompanhar meus próprios pensamentos.

Rebeca veio pra cozinha pra ver como eu estava e eu via os lábios dela se mexendo e não conseguia ouvir o que ela falava.

Foi aí que eu comecei a entender que eu tinha quebrado. 

Pedi pra ela terminar o jantar.

Eu ia pro quarto.

No caminho decidi apenas falar o último pensamento que eu achei relevante para a conversa. Mas era um pensamento que teria feito sentido na conversa impessoal e não era mais isso que estava acontecendo. Misturei o que eu estava pensando com o pouco que consegui ouvir e falei algo, que nem tenho certeza do que foi, que soou muito pessoal ao parceiro que estava se expondo,  foi ofensivo e o magoou.

Eu vi a reação imediata no rosto dele quando eu falei.

Fui para o quarto o mais rápido que pude como havia sido combinado de quando eu sentia que não conseguia acompanhar uma conversa, pra me acalmar.

Fiz isso de forma repentina.

Marido perguntou o que tinha acontecido.

Eu apenas respondi que ele sabia o que era. Porque eu de fato achei que ele teria entendido.

Ele não entendeu.

Acho que nenhum deles entendeu.

Fiquei no quarto mas o barulho não passava e os pensamentos negativos foram piorando. 

Me acalmei um pouco e voltei para a sala porque não queria ficar sozinha.

Tentei ficar o mais quieta e não me envolver que consegui.


Mas o estrago estava feito.

Gerou um série de consequências que só me fizeram descer mais fundo na depressão e no desespero. Comecei a me sentir mal comigo mesmo e a me odiar e a odiar essa doença que me faz agir assim.


Esse sentimento ainda não passou completamente.


Mas eu fiz algo a respeito. Algo importante e bom.

Eu falei com as psiquiatra e expliquei o que aconteceu e nós ajustamos a medicação, incluímos mais remédios e diminuímos o tempo entre as sessões.

Aceitei a ajuda de minha irmã e recomecei a fazer terapia.

Hoje estou um pouco melhor. O loop mental e o desespero estão melhores. Consigo trabalhar e ser produtiva e ter dias bons.

Estou otimista e me sinto bem disposta.

Mas não posso pensar sobre mim mesma por muito tempo ainda.

Qualquer assunto mais difícil ainda me é muito pesado pra lidar e causa uma reação intensa demais.

Mas é isso. Agora é tratar, cuidar, ter paciência. E tentar ser mais gentil comigo mesma. E se der, consertar o que foi quebrado. E seguir em frente.

Mas eu tô me cuidando. Eu procurei ajuda. E eu vou ficar bem de novo.

Mais que isso.

Eu vou ficar melhor.

Um dia de cada vez.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Enfim 2022

 Estamos em Fevereiro e para mim o ano começa agora. Quer dizer, não que ele não tivesse começado, mas é que Janeiro é pra mim sempre um mês muito tenso, muito difícil, onde o resto do ano é organizado e planejado e esse ano, mais que outros, isso me afetou profundamente.

Além disso Janeiro marca o rebote do mês de dezembro, e dezembro é um mês que eu costumo estar num estado de hipomania devido as festas, ver a familia, comprar presentes e etc. 

Esse ano a depressão chegou mais cedo pra mim e apesar de ter tido bons momentos especialmente no começo de Dezembro, as festas de fim de ano já estavam manchadas por essa melancolia e cansaço e um bom tanto de desespero. Não consegui aproveitar meu Natal, tive um bom Ano Novo, mas dia 02 em diante minha rotina contou com a depressão constante, brigas em casa, medo e frustração e muito desespero. A sensação de ver tudo que eu havia planejado indo por água abaixo.

Mas a vida é assim, certo? Ela nem sempre funciona como planejamos. Viver significa muitas vezes ser capaz de respirar fundo e se adaptar a uma realidade diferente e tentar encontrar soluções criativas.

Apesar de todo esse sentimento negativo - não, ele não foi embora porque trocamos de mês, claro que não - eu tenho hoje em mim uma certeza de proposito muito grande.

Hoje em dia eu tenho um trabalho que amo e estou buscando aprender, estudar e me desenvolver como profissional na carreira que sempre quis. Eu sinto que estou no caminho certo, que estou fazendo as coisas certas, e que tudo que preciso é de um pouco de estabilidade e paz de espirito para continuar correndo atrás de algo que eu sei que vai dar certo. Eu preciso de espaço e de tempo. Mas eu sei o que eu estou fazendo.

E isso é muito raro.

Fevereiro é pra mim quando o ano começa pois é quando consigo estabalecer uma rotina. É quando o pior do rebote ja passou e eu ja consigo vislumbrar pra onde ir e como chegar lá.

Tem muita coisa pra se resolver. Nada vai ser como eu tinha imaginado. Mas é hora de imaginar algo novo. 

Vem comigo?