De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Dos sonhos que deixamos para trás, para frente, mas nunca agora

Eu vou falar uma coisa que eu acho que  9 de 10 pessoas que lêem o blog vão se identificar.

Eu tenho muita dificuldade de dar andamento para aquele grande sonho da minha vida.

Quer dizer, o outro. O grande sonho que eu já realizei foi ter a Rebeca.

Mas tem aquele outro....

Sabem como é?

Você quer muito fazer aquilo, é a sua grande vocação na vida, mas seja lá por que motivo, você nunca acha tempo pra ele. E ele fica lá naquele passado onde você "poderia ter feito" ou "Deveria ter se dedicado" ou ainda "gostaria de ter tido tempo". E você fica se prometendo que "um dia eu vou colocar isso em pratica".

Vou te contar, senta ai:

Desde que eu aprendi a escrever, com meus 7 anos... Por que na "minha época" a gente aprendia a ler na 1ª série viu! Nada de sair alfabetizado do pré escolar nem nada do gênero, com as mães entrando em parafuso quando a pobre criança de 5 anos quer mais saber de brincar que de soletrar o nome de trás pra frente. Ok, desculpem o desabafo, falo sobre a alfabetização atual depois.

Mas enfim, desde que eu aprendi a escrever eu soube, ali, o que eu queria fazer da minha vida: escrever! Mais do que fascinada por ler livros e conhecer histórias, a ideia de criar minhas próprias histórias e que as pessoas lessem e gostassem dessas minhas histórias me encantava como nada nunca mais o fez.

Assim, sério, nada mesmo.

E eu passei boa parte da minha infância, na verdade, escrevendo. Redações na escola eram a minha especialidade, e o difícil sempre foi ter que escrever histórias curtas. Como assim, gente, 30 linhas? Era pouco, sempre era pouco.

Quando comecei a ter meus problemas por causa da bipolaridade, lá nos meus 11 e 12 anos, ainda sem saber o que estava acontecendo, foram as letras no papel, e eventualmente na tela de um computador, que me deixavam transpirar todos os sentimentos de tristeza, solidão e inadequação que viviam dentro de mim. E, sim, todos aquele sonhos de como poderia ser diferente, outras vidas, outros personagens.

Mas a adolescência foi chegando. Com ela veio muita coisa... E a maioria delas não me impedia de escrever, muito pelo contrário. Tenho histórias incríveis dentro da minha cabeça que datam dessa época. O problema é que elas continuam aqui, dentro da minha cabeça. Por causa de 2 fatores muito importantes...

O primeiro fator foi quando chegou a fase do vestibular e eu, que passei a vida toda tendo certeza que eu iria fazer jornalismo e iria viver de escrever, me vi com dúvidas: por que eu deveria fazer jornalismo? eu não queria ser jornalista, nem repórter, nem nada do gênero. Eu queria ser escritora! Eu deveria fazer Letras! E se bem que, na verdade, eu posso fazer qualquer faculdade pra ser escritora, né? Só preciso escrever! Só que escrever não da dinheiro. Não de imediato, isso se um dia eu tiver condições de me sustentar só de escrever. Será que eu não deveria então fazer faculdade de outra coisa? Algo que pudesse me garantir uma boa renda enquanto os livros não emplacassem? O que mais eu gosto de fazer?

Sim, lá estava eu, 17, 18 anos, pensando no que eu deveria fazer pro resto da minha vida.
Sabe qual foi o problema? Eu nunca mais consegui tirar isso da minha cabeça.
Nunca mais. Foram 5 faculdades, nenhuma terminada, e nada...
Eu tenho essas duvidas até hoje. Toda vez que eu sento na frente do computador e penso "agora vai, essa ideia é ótima!" sabem o que acontece? Isso mesmo, a tela continua em branco e minha mente vai lá de volta pros meus 18 anos.

A outra coisa que aconteceu nessa mesma época foram as crises de mania e depressão se intensificando novamente.

Digo novamente por que depois de uma crise muito ruim aos 13 anos, e um tico de tratamento de poucos meses, elas ficaram "manejáveis" e ganharam os status de "crise de adolescente" e "de lua".
Mas aos 20 anos com a morte da minha vó tudo mudou e minhas crises deixaram de ser brandas.
Contei essa história algumas vezes, volte uns posts pra trás inclusive que tem mais detalhes, ok?

Mas não foram as crises que me impediram de escrever. Não. Foi o tratamento mesmo. Medicação forte, pesada, pra deixar a gente no chão, todo quebrado, e juntar os pedacinhos comprimido a comprimido, sessão de terapia após a outra, por anos a fio.

Hoje, 14 anos depois da crise, 13 anos de tratamento, eu fico feliz de dizer que minha mente tem uma clareza que eu nunca imaginei que teria se me contassem lá em 2002. Mas tem. Então, ok, valeu a pena. Sério, valeu mesmo!

Durante o tratamento eu descobri, ou redescobri, meu desejo intenso por ser mãe, e muito trabalho e persistência me trouxeram a realização desse sonho. Foi duro, não foi fácil não. Demorou pra poder começar a tentar engravidar, depois pra conseguir ficar gravida, depois de ficar sem medicamento, depois pra retomar o tratamento...

E foi duro, muito duro, por que ser mãe me fez repensar e redefinir uma porção de coisas sobre mim mesma. Por que eu não era só mais a "Di". Eu era a "Di mãe da Rebeca" e eu tive que viver essa transição.

E eu decidi me dedicar a isso, a ser mãe. Tentei outras coisas nesses últimos 7 anos, mas a verdade é que tudo estava, está, diretamente ligado a mãe que eu quero ser.

Mas é isso, né, Rebeca já tem 6 anos, vai fazer 7... E ai que ela esta esticando as asas, se interessando cada vez mais pela escola e por brincar com os amigos do que de fato ficar comigo e me acompanhar nos programas de adulto.

E isso é ótimo! Eu sinto tanto orgulho da pessoa que ela esta se tornando que nem cabe no peito.
Mas desde que esse processo de identidades separadas se intensificou eu venho sentindo algo estranho: Espaço.

Tenho espaço para voltar a pensar em mim. E no que eu quero fazer, e o mais importante de tudo isso, tempo livre para poder de fato fazer alguma coisa.

E eu ainda quero.... Quero escrever e viver de fazer livro! Que viver disso aqui, de colocar em letra atrás de letra as idéias para os outros lerem.

E me vejo aqui nesse impasse, nessa trava... O que me impede hoje?

Eu preciso melhorar as condições financeiras em casa? Olha, não vou mentir não, seria muito bom que a coisa ta bem feia. Mas... Estamos levando até agora... Será que não dava pra se espremer mais um pouco?

Escrever não da dinheiro? Talvez... Mas eu também não estou ganhando nenhum agora.

E vou deixar claro uma coisa. Eu não acho que consigo trabalhar. Eu tentei, várias vezes, inclusive nesses últimos anos tive algumas tentativas frustradas. E todas elas levaram a um processo depressivo de leve a moderado e foram abandonadas antes que isso se agravasse muito. Então... Não é exatamente como se eu tivesse muitas opções.

Então... Ó, duvidas dos meus 18 anos, por que vocês não me deixam em paz?

Não quero que seja um sonho que ficou pra trás, e cansei de ir prorrogando esse sonho pra um futuro que nunca chega.

Mas como tornar o sonho real?

To tentando.

Vocês estão lendo uma partezinha dele, aliás...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cara nova, novas histórias, velhos personagens

Eu quero muito voltar a escrever no blog. Muito mesmo! Mas percebi que essa enferrujada de ficar tanto tempo sem escrever atrapalhou mais do que eu imaginava.
E eu quero poder falar! Contar do nosso dia a dia, falar sobre o que eu aprendi nesses anos como mãe, falar de como a vida tem nos tratado e como temos levado a vida. Quero falar das coisas que me interessam, e dos meus planos.

Enfim, quero voltar.

Mas pra voltar, depois de tanto tempo, acho que o blog merece uma repaginada. Ganhar uma carinha nova. Tirar esses banners, criar outros.
Vou manter todo o arquivo que já existe, mas meio que vamos ter uma quebra aqui, um antes e depois, sabem?

Então, ta ai, convido vocês a acompanhar e compartilhar essa nova fase do blog.
Quem sabe ela não acompanha uma nova fase na vida, não é mesmo?

Tudo passa, tudo muda, tudo é vento.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sobre Depressão, e a batalha de viver todos os dias.

Eu faço tratamento para Transtorno Afetivo Bipolar há aproximadamente 13 anos. Quando eu iniciei o tratamento eu já sabia que possuía a doença há alguns anos, mas tanto por minha imaturidade quanto pelo falta de conhecimento de minha família, só iniciei o tratamento realmente aos 21 anos durante uma crise de depressão e ciclotimia muito severa.
Depois de aproximadamente 2 meses de tratamento medicamentoso e terapia, sem um avanço efetivo do tratamento, a médica responsável pelo tratamento na época decidiu ouvir meu apelo e solicitou minha internação. Internação essa que eu sei ter sido decisiva naquele momento da minha vida e no sucesso do tratamento todos esses anos.

Eu troquei de médica duas vezes depois disso, sempre por motivos financeiros. O tratamento para bipolaridade é caro, os remédios são de uso continuo e nem sempre a mesma substancia vai ter o mesmo efeito vindo de laboratórios diferentes, e você pode ter que pagar mais caro para ter o retorno necessário. Mas eu continuo aqui, muito e talvez principalmente, pela minha própria capacidade de entender e racionalizar a doença.

Essa característica pessoal foi o que me tornou capaz de mesmo em meio a uma crise aguda, aos 20 anos, ser capaz de entender que o que eu vivia não era real e sim uma série de sintomas de uma doença que poderia e deveria ser tratada.
Foi o que me fez persistir com um tratamento que inicialmente me deixava dopada e incapaz de me reconhecer, por saber que era a persistência nesse tratamento e a confiança naqueles ao meu redor que buscavam a minha melhora que iria me fazer passar por aquilo e voltar a ser eu mesma novamente.
Foi o que me fez ter paciência para esperar um momento oportuno para dar uma pausa nesse mesmo tratamento, e com orientação e acompanhamento, buscar um sonho de longa data, o de me tornar mãe.
Foi o que me fez entender que era mais importante ser uma mãe sã, não apenas de corpo, mas da mente, do que manter um comportamento ou uma atitude que pudessem parecer socialmente corretos mas que ao serem colocados na lente que mostrava a minha vida, não eram aplicáveis.
Foram essas características, não, foram não, são essas características que me peritem sentar e avaliar cada decisão que eu tomo, buscando um equilíbrio que para muitos pode parecer utópico ou até mesmo desestimulante, mas que para mim é vital. E que as vezes eu terei de abrir mão de certas coisas, ou adaptá-las a minha realidade.

Eu não deixei de ter Transtorno Afetivo Bipolar. Eu não deixei de ter crises de depressão, ou de mania. Mas hoje elas são raras perto de como minha vida foi um dia. Hoje eu sou capaz de identificar cada uma dessas fases, normalmente brandas mas que quando alimentadas por um gatilho podem vir tão fortes quanto um furacão, e tão repentinas quanto também. E sou capaz de tentar tomar o que eu acredito serem as melhores decisões para lidar com cada uma delas.

Infelizmente não são todos os que tem essa sorte.

Eu perdi um amigo ha duas semanas atrás para a depressão. Ele lutava sua própria batalha, e uma noite não diferente de tantas outras, ele perdeu a luta. Da janela de sua casa ele encontrou um final para sua história, deixando para trás apenas a dor e a saudade de todos os que o amaram.

Ele não era mais fraco, nem nada do gênero. Ele não era burro, ou covarde. Ele era uma das pessoas mais inteligentes e sagazes que eu conheci. Era gentil e bondoso, e buscava uma carreira em uma área de pouca atuação no Brasil, com o sonho de buscar seu lugar lá fora. Mas em algum momento algo quebrou dentro dele, e eu sei exatamente o que é sentir isso. E eu sei que cada dia a partir dai ele lutou, a cada vez que el acordava para cada hora que ele conseguia dormir, ele lutou.

A depressão é uma doença muito injusta por que ela engana não apenas aqueles que convivem com ela dentro de si mas aqueles que convivem com o adoecido. Eles não podem vê-la, ou senti-la, e é algo tão difícil de compreender que muitas vezes ela é minimizada. Por que ela ataca pessoas que amamos de uma forma muito forte, e os machuca de uma forma que muitas vezes não sabemos como ajudar, e nossa, como é horrível ver alguém sofrer e não poder ajudar!

Eu infelizmente não posso fazer meu amigo voltar. A luta dele já acabou, e agora me resta honrar sua memória continuando a viver. Continuando a lutar. E se eu puder, ajudando a luta de outras pessoas também.

Existem muitas pessoas no mundo que hoje lutam uma batalha sobre a qual não sabemos nada a respeito.
Sejamos gentis, sempre.

E se você tiver contato pessoal com alguém que esta sofrendo, ou que você suspeita que possa estar sofrendo, de depressão, ofereça ajuda. Ajude-a a buscar informação. Esteja presente. As vezes apenas estar lá já é tudo o que uma pessoa precisa.
E se for você a pessoa, saiba que você não esta sozinho.
E que isso é uma doença, e que ela tem tratamento. Ele é lento, mas funciona. E você pode e vai se sentir melhor.
A dor não dura pra sempre.
Isso vai passar.
Apenas continue a nadar.
Um dia de cada vez.