De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Escola é lugar de educar sim!

Eu já vi muitas vezes as pessoas repetindo que na escola se aprende apenas as disciplinas formais (português, matemática, ciências, etc) e que educação se aprende em casa. Inclusive das próprias escolas e professores.

Não sei se algum dia eu acreditei nisso também.
Meu pai teve uma escola por muitos anos. Eu fui professora de inglês por algum tempo.
E parando pra pensar, a minha relação com os alunos nunca foi essa.
Ate porque a minha postura na vida sempre foi a de acolher e explicar. Mas eu nunca associei a minha postura pessoal como um ideal de educação a ser seguido. Na época eu questionava, mas lá no meu íntimo. Da boca pra fora eu repeti algumas vezes aquela afirmação la de cima.

Ai eu quis ser mãe, e comecei a tentar entender melhor o que é educar alguém.
E depois que a Rebeca nasceu, foi crescendo, entrou pra escola e eu pude ver de verdade o que é educar alguém, o que é ajudar um ser humano a se formar e criar sua identidade, eu entendi.

Escola é lugar de educar sim.
Casa é lugar de educar sim.
Escola se aprende disciplinas formais sim.
Casa se aprende disciplina formais sim.

Por que ser humano não é um robozinho, um programa de computador que você abre e fecha aplicativos, caixas, planilhas, e escolhe que ele vai absorver apenas aquilo que você quer que ele absorva.

Ser humano é esponja. Ele aprende o tempo todo, 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano.
E quando somos crianças todo esse aprendizado é elevado ao quadrado, ao cubo, por que é a primeira vez que eles tem contato com tudo. Então somos responsáveis o tempo todo, por todas as crianças que temos a nossa volta. Por todo adolescente. Por que somos aquilo que eles vem, e é com o nosso exemplo, com as nossas ações, que eles aprendem.

Porque não adianta você achar que vai ser professor de matemática e só vai ensinar criança a fazer equação de 2 grau, e tratar mal aluno que aprende devagar, ou agir de forma racista e preconceituosa, gritar pra classe  prestar atenção, e achar que nada disso vai ter efeito nenhum na vida dessas crianças.. Porque quando você faz isso você ta ensinando a todos eles que todos esses comportamentos são aceitáveis, especialmente vindos de uma suposta figura de autoridade.


Minha filha hoje tem 8 anos. Ela presta atenção em tudo que alcança o radar dela. Eu posso estar cochichando que ela ouve.

Ela chama minha atenção toda vez que eu falo um palavrão. Mas ela também presta atenção se eu falo com ela usando o tempo verbal correto nas frases, se eu pronuncio as palavras corretamente, e se eu faço pausas enquanto falo para que ela tenha tempo de entender o que estou dizendo.

Ela presta atenção se eu falo obrigada, por favor, bom dia. Ela presta atenção toda vez que eu decido ajudar alguém. Toda vez que eu decido abrir mão de algumas moedas no farol, ou emprestar dinheiro pra um amigo, ou dar apoio a alguém doente. Ela presta atenção em como eu trato meus pais, meus sogros, minha irmã, minhas cunhadas. E isso ensina a ela como deve se comportar muito mais do que quando eu cobro que ela faça essas coisas brigando com ela, chamando atenção.

E ela aprende a ver horas, aprende a história da nossa família, aprende música, aprende a contar o dinheiro que tem no cofrinho ou as moedas para um doce, aprende os aniversários e as datas de nascimento e como fazer a associação dos dois. Aprende a respeitar os animais, as plantas, e a importância disso na nossa vida.

E eu sei que ela presta atenção em tudo isso com todas as pessoas que ela tem contato.

Ela já sabe que quando vai na casa dos avós paternos ela deve colocar pouca comida no prato e estar disposta a comer mesmo se não gostar, por que o avô dela faz questão que todos comam tudo o que colocaram no prato. Porque ele foi ensinado assim, porque ele já passou muita necessidade e sente que nada deve ser desperdiçado.

Ela sabe que aqui em casa tudo bem não comer o prato todo. Podemos guardar pra depois, ou dar pro cachorro, ou qualquer outra coisa. Porque aqui é mais importante saber identificar quando se esta satisfeito e saber dizer não a si mesmo, saber parar. Porque aqui o problema é a gula.

Na escola ela sabe que deve respeitar a professora e que não deve brigar com os colegas. E que se alguém caçoar dela ou pior, que ela deve procurar a ajuda de um adulto. Mas ela também sabe que pode se defender se alguém tentar machucá-la.

Se a escola se exime do seu papel, escolhendo para si apenas uma parte, ela não esta realmente fazendo isso. Ela esta automaticamente ensinando algo a essas crianças e adolescentes. Está ensinando que não se importa se eles se tornarão boas pessoas, ou cidadãos conscientes. Esta ensinando que não se importa se eles não sabem respeitar o próximo. Esta mostrando que a gente pode sim escolher apenas a parte que nos interessa e deixar o que não queremos para outras pessoas.

A maioria das crianças que conheço passa cerca de 12h na escola. É muito mais tempo do que eles passam com a família. Não é possível achar que o que uma criança vive durante 12h vai ter menos ou nenhum impacto comparado as 4h que passa acordada com a família.

Somos todos responsáveis. O tempo todo. Seja você o tipo de aluno que você quer na sua sala de aula. Estamos criando seres humanos, não maquinas. Não basta dar informação. Temos que dar o exemplo.

Bom fim de semana.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Falando de: Educação e Alfabetização

Eu ja fui professora de Inglês.

Foi o meu primeiro emprego, o que consegui sozinha, na raça, mandando currículo a todos os lados e fazendo entrevista em outra lingua com medo de perceberem que meu inglês não era lá essas coisas na verdade.

Depois disso dei aula em outros lugares, inclusive na escola que meu pai tinha. (passado, não tem mais, ta aposentado)

Meu pai ter uma escola por 26 anos da minha vida foi um fato marcante pras minhas escolhas. Eu acreditava que iria, um dia, assumir os negocios da familia. Então, apesar das minhas dificuldades, eu tentei me focar nessa questão da educação...

Outra coisa que marcou  muito a minha visão sobre esse assunto foi o fato de ter frequentado boas escolas que seguiam um metodo de vanguarda conhecido como socio-construtivista. (Mais AQUI)

Viver nessa imersão toda me fez acreditar em algumas coisas que tenho tido oportunidade de colocar em pratica com a Beca. E avaliar o que tem sido feito com meus sobrinhos...

Hoje conversando com minha cunhada ela comentou que meu sobrinho de 8 anos não sabe ler. Não sabe, pelo que ela falou, escrever o proprio nome.

O que me chocou e eu fiquei sem saber como agir, foi o fato de que ela não falou num tom preocupado, mas de reprovação. A culpa disso era do menino. Afinal, ele tinha ajuda dos pais, e mesmo assim não aprendia. Era preguiçoso e mais, estava se tornando mal educado e respondão. Havia levado um puxão de orelha do avô no fim de semana por ter-lhe respondido de forma mal criada.

Não vou nem entrar no mérito do puxão de orelha - fica pra outro post. 

Ela comentou que achava um absurdo uma criança que tinha feito Jardim e Pré-escola não soubesse, nessa etapa, saber ler.

Eu respondi que, pra começo de conversa, era no primeiro ano que ele devia ter aprendido isso. Mas a verdade é que eu queria falar muita coisa, muita, e me calei. Eu não tenho intimidade suficiente nem estou proxima para de fato, ajudar. Minha opinião, ali, seria apenas uma critica e eu acho ainda, muito mal recebida.

Eu entendo a visão da minha cunhada. Mesmo. A moça que trabalha na casa dos meus pais tem um problema semelhante com o filho de 9 anos.

Não é coincidência. Ambos estudam em escola publica. Seus pais, que trabalham o dia inteiro, também estudaram em escola publica e, se chegaram a tanto, tiveram que se esforçar pra terminar o Ensino Medio.

Tenho certeza que ninguém lê pra essas crianças dormirem. Nem nunca leram. Sei que se os filhos pedirem uma revistinha em quadrinhos, serão duramente criticados por "querer ler besteira quando não leem os livros da escola". Sei que esses pais não tem condições de corrigir as lições dos filhos por eles mesmos não saberem a forma correta do uso das palavras e suas regras.

E todos acham que é obrigação da escola ensinar isso.

E nem querem que o filho saiba muito. Não precisa saber ler e escrever corretamente. Mas precisa ser capaz de ler um jornal, por exemplo, quando for adulto. Mais que isso, tem que tirar nota boa - leia acima da média - e passar de ano.

Eu sei, por que tive a chance de aprender,que não é bem assim.

Eu aprendi a ler com meu pai lendo gibis da mônica pra mim. Sempre tive livros em casa e pude mexer neles quando não corria mais o risco de rasga-los. Meus pais contavam historias pra nós antes de dormir - repetidamente se assim pedissemos. liam nos livros ou as vezes inventavam eles mesmos uma historia nova.

Na escola ler foi uma conquista! Foi algo bom, feito de forma gradativa e prazeirosa. Brincamos muito com letras, silabas e nos permitiram explorar esse universo novo.

Nada era feito de forma uniformizada, robotizada, mecanizada. Entendem? Não eramos um unico ser coletivo, eramos unicos.

Pra vocês terem ideia so fui saber o que era uma prova de verdade, com notas na 4 serie. Alem disso meus pais recebiam avaliações escritas individualizadas bimestralmente, com dicas de como trabalhar minhas dificuldades em casa. Não tive boletim ate mudar de escola, ja na 5 serie.

E apesar de saber que nem todos podem oferecer um ensino como o que eu tive - eu mesma não posso dar isso pra Beca - o que eu tive em casa, a preocupação que meus pais tinham conosco, o cuidado, isso todo mundo pode ter. E deveria.

Não é obrigação da escola somente de ensinar nossos filhos a ler. E um processo que deve acontecer em conjunto. E ele começa em casa, com o pai e a mãe que, mesmo cansados de um dia de trabalho, sentam pra ler um gibi com os filhos, ou inventam uma historia.

Eu sei que ligar a tv e mais facil. Sei que trabalhar o dia inteiro, chegar e ter uma casa pra arrumar, comida pra fazer, é a rotina de 99%:da população. Sei que a escola tem que ensinar muita coisa. Inclusive a ler e escrever. Mas se não podemos perder 15 minutos do nosso dia pra educar nossos filhos e mostrar a eles o prazer de estar junto, e ler, o que estamos mostrando?

A impressão que tenho, com meu sobrinho, é que ele tem uma dificuldade. E que ele precisa de ajuda. Mas que as pessoas em volta dele nem sabem identificar o tipo de ajuda que ele precisa - por que estão repetindo a educação falha que eles mesmos tiveram. E que ele tenta, grita, por uma atenção que, de uma forma negativa, esta tendo ao não saber ler.

Seta que se ele soubesse ler teria tanta atenção dos pais, dos avós, das tias? Ou seria deixado sentado a mesa com uma lição? O que, afinal, ele ganharia?

E por isso que eu leio pra Beca, e invento historias. E canto. E compro Gibi.

Por que eu gosto. E me importo. E eu quero fazer diferente. E a minha parte, a parte mais importante.

A escola e complemento, é um lugar pra dar continuidade ao que aprendemos em casa. Não um substituto.

Mas me preocupo com meus sobrinhos. E espero que o pouco que eu posso fazer por eles seja suficiente pra mostrar uma coisa - que existe sim outra maneira. Existe uma alternativa. E quem sabe, um dia, eles decidam experimentar...E descubram como é bom, esse mundo onde aprender é, sim, divertido.