De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A formatura

Esse ano a Rebeca se formou na pré escola.

A escola dela faz festas com toda a pompa e gala de uma formatura de Ensino Médio, alugando salão, Buffet e com todas as salas da educação infantil participando e fazendo uma apresentação para os pais. E no centro dessa festa estão os formandos do pré-escolar. E no centro dessa festa, esse ano, estava a minha filha.

Eu sempre achei que festa de formatura de pré-escola era uma besteira, digo, antes de ser mãe. Ai nesses últimos 6 anos da minha vida eu tive o privilegio de conviver com uma criança que era minha para cuidar, criar, educar. E pude acompanhar todo o processo e o tempo que levou para aquele bebe que nem se mexia direito e só sabia mamar e dormir se tornar essa menina enorme, linda, esperta, inteligente, e muito mais rápida nas respostas do que eu podia imaginar lá naquele primeiro momento.

E olha, não é mamão com açúcar não. Não foi fácil pra mim, sem dúvida, mas a verdade é que também não foi fácil pra ela.

Aprender a sentar, engatinhar, depois andar, correr. Conseguir entender o que aquelas pessoas enormes tentavam te dizer, e depois aprender a usar essa linguagem para se comunicar com elas e poder finalmente, dizer o que você quer! Isso sem contar a dificuldade enorme que é aprender a sentir e lidar com esses sentimentos malucos, que hora te fazem rir, hora chorar, hora espernear no chão de raiva, e por quê? Por causa às vezes de algo que viria a ser tão simples quanto dizer que está com fome, ou com sono.

E no meio de tudo isso aprender a identificar que aquela pessoa que você ama é sua mãe, seu pai, e que além deles existem outras pessoas no mundo. Tios, tias, irmãos, avós, amigos dos pais, filhos dos amigos dos pais. E de repente você tem que conviver com todas essas pessoas, ser educado, dividir a atenção, dividir suas coisas, dividir sua comida.

Aí te mandam pra um lugar estranho e esperam que você fique lá com pessoas que você nunca viu esperando que eles voltem. E nesse lugar tem várias outras crianças que como você, também não estão lá muito felizes em ficar lá e dividir a atenção de apenas um cuidador e todos os brinquedos e atividades. Mas tudo bem, por que no fim aquela mãe, ou pai, sempre volta, e fica tudo bem, você vai pra casa.

E você aprende a confiar nas pessoas que sua família confia para cuidar de você, e aprende a gostar das pessoas, e descobre esse tal negocio de fazer amizade. E descobre que essa tal de escola é um lugar legal, onde você aprende várias coisas da melhor forma, que é brincando, desenhando, e vivendo situações que, muitas vezes, não viveria em casa.

E a cada ano essa escola te apresenta coisas mais difíceis e você começa a aprender o que são desafios. E aprende que seus colegas ali podem te ajudar, ou não, a passar por esses desafios, por que eles estão vivendo aquilo junto com você.


Aos poucos aprende também que nem tudo são flores, e que existem coisas ruins e tristes no mundo, como pessoas que serão más com você e dirão coisas feias, como xingamentos e tentarão te colocar pra baixo. Descobre que nem sempre podemos estar o tempo todo perto de quem gostamos e que as vezes essas pessoas vão para longe. Descobre que isso que você vive se chama vida e que ela um dia vai acabar. Como a daquele seu bichinho que você amava tanto...
E descobre que no meio disso tudo você é feliz, muito feliz. E que a melhor coisa é estar feliz com as pessoas que você ama também felizes ao seu lado.
E descobre que você tem vontades, e gostos, e opiniões.
E agora, aos 6 anos, descobre que as vezes você vai gostar de coisas diferentes dos seus pais, e dos seus amigos. E que às vezes você vai gostar de alguns amigos mais do que de outros, e talvez até apareça algum mais especial que todos os outros.
E aos seis anos você percebe que aquele esforço em aprender a falar agora se transforma e vai além, e você começa a aprender a ler e escrever. E que o mundo vai ficando cada vez maior a cada coisa que você aprende.

Então, depois de viver tudo isso, acho que tem que comemorar sim, com muita pompa e gala. E tem que ter teatro, e música, e colação de grau, e Beca e Valsa. E tem que ter pais emocionados e tias chorando. E tem que ter fotos.

Por que é uma etapa muito importante que se finaliza. De uma ainda maior que está no começo. Mas cada etapa, cada vitória, deve ser celebrada.

Então, parabéns a minha Rebeca por sua graduação. Sua primeira festa de formatura.
Que seja a primeira de muitas outras, e que daqui uns anos você se lembre: seu sonho, hoje, aos 6 anos, era ser cientista e inventar um remédio que cure várias doenças e ajude as pessoas a viverem muito, muito mais.

Com muito amor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Minha História - parte 3

Quando saí da escola no meio da 7ª série, eu fui levada pela primeira vez ao psiquiatra. Era o médico que tratava minha mãe para Síndrome de Pânico já há vários anos, e meus pais finalmente aceitaram o fato de que talvez tivesse alguma coisa errada comigo.
Já na primeira consulta, de cerca de 2 horas, ele deu um diagnostico: Psicose-Maníaco-Depressiva. Ou o que é conhecido hoje como Transtorno Bipolar do Humor, mas que naquela época ainda tinha esse outro nome.

Ele receitou que tomasse antidepressivos e eu o fiz por um mês e parei. Meus pais não relutaram muito com isso. Pra eles também era difícil aceitar que a filha de 13 anos precisaria tomar remédios para a vida toda.

Mas eu fiquei com essa informação guardada dentro de mim por muitos anos. De alguma forma eu sabia que aquilo significava algo importante, mesmo que na época eu não entendesse.
Na época era só uma fase. E ia passar.

E por algum tempo, quando eu me encontrei e encontrei um lugar para fazer parte, passou... Ou eu achei que era suportável o suficiente para acreditar que aquilo era parte de mim, e que aquela pessoa era quem eu realmente era.

Pulei de uma escola a outra e terminei a 8ª série raspando. Naquela época eu estava interessada em outra coisa... Nos amigos que eu sofri tanto até conseguir... E me agarrei a eles como se minha vida dependesse daquilo. Com toda a intensidade que uma adolescente bipolar pode fazer.


Era 1996 quando eu os conheci, depois de uma festa no carnaval que minha irmã deu para os amigos e conhecidos dela que jogavam RPG. Foi a partir dali que eu passei os fins de semana indo há uma unidade do Sesc e ao Shopping para conhecer e conviver com pessoas que, finalmente, gostavam das mesmas coisas que eu. Que eram diferentes, que gostavam de fantasia e ficção cientifica, de jogar RPG, e que estavam dispostas a me aceitar como eu era.
Que estavam dispostas a me aceitar.
E foi ai que eu tentei me encaixar. Foi onde passei toda a minha adolescência.
E foi nesse meio que tentei construir quem eu era pela primeira vez...

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Minha História - parte 2

Era um mês de julho e eu simplesmente não sentia vontade de fazer nada.
Em casa a coisa não era melhor. Chorava sem motivo algum, comia muita besteira, passava as madrugadas acordada assistindo TV e jogando vídeo game, e de manhã me recusava ao máximo a levantar para ir à escola.

Meu pai, mais de uma vez, cortou o fio da TV com faca para que, já que eu ia ficar em casa, não tivesse a TV como distração. Ele não entendia que a TV não era o problema. E ignorava que eu sabia refazer a fiação.

Brigava muito com meus pais, em especial com minha mãe.  Me sentia incompreendida o tempo todo. Por mim mesma, inclusive. Não entendia aquela dor que eu sentia dentro de mim o tempo todo. 

Em determinado momento decidi começar a me cortar, autoflagelar, especialmente depois de uma briga, para ver se a dor que eu sentia com os cortes podia por um momento me fazer esquecer a dor que eu sentia dentro de mim.

Quando eu ainda estava na 6 série, perto do final do ano, meus pais pediram que minha irmã começasse a me levar para sair com os amigos dela, para que eu saísse um pouco de casa.
Eu sou muito grata a eles todos por isso. Por que esse foi o começo de algo que me salvou por muitos anos sem fazer tratamento.

Não foi fácil, mas eles estavam dispostos a me ajudar, e me aceitaram junto deles. Eu me sentia mais como uma mascote, mas mesmo assim, foi mais do que eu havia tido nos últimos 2 anos.
Minha irmã e seus amigos jogavam RPG. Saiam a noite para ir à bares, sim, por que a maioria deles era maior de idade ou quase. Mas muitas vezes apenas iam lá em casa, jogar RPG, passar tempo, conversando ou mesmo jogando vídeo game.

Eles foram os primeiros a adotar nossa casa como um segundo lar temporário. E no auge da minha crise, foi a diversão de jogar RPG e as pessoas que conheci através deles que iriam, por fim, me ajudar a sair do abismo que eu me encontrava.

Com eles houveram dois momentos bem marcantes, e uma pessoa que me adotou como irmã e cuidou de mim ainda por muitos anos pra frente.
O primeiro momento foi numa discussão que eu os ouvi ter em casa onde eu ouvi minha irmã, brigando, dizer “Mas vocês são MEUS amigos!” e um deles responder “Nós somos amigos DELA também!”

Eu nunca esqueci isso.
Mas ainda sim, a dor persistia dentro de mim, e eu tinha dificuldade de me adaptar a tudo aquilo. Ao atender o telefone de casa e reconhecer a voz de qualquer um deles, nem esperava que pedissem, já avisava que ia chamar minha irmã e passava o telefone pra ela.
Então um dia fui pega de surpresa por um dos amigos dela. “Eu não liguei pra falar com ela, eu liguei pra falar com você!”. André... Nós passamos uma hora conversando no telefone aquele dia, e no fim ele não pediu para falar com minha irmã. Nós nos despedimos e ele só ligou pra ela no outro dia.

Aquele dia ele ligou e falou comigo.

Eu ainda acho que ele fez isso por pirraça pela forma como eu atendia o telefone. Mas não importa. Nós fomos amigos até o final, quando ele foi levado da vida mais cedo...

Queria que ele soubesse que aquele simples telefonema foi de imensa importância na minha vida. Mas se hoje não posso contar pra ele, conto para você.

Ele foi alguém que esteve do meu lado quando eu mais precisei...


Dos amigos de minha irmã eu me apaixonei por um deles. Daqueles bons amores impossíveis que temos na pré-adolescência, eu tinha 12 anos e ele 20. E por mais que a reputação dele fosse de galinha que sai com todo mundo, ele era um cara bem correto. Obviamente nunca se interessou por mim, e eu agradeço por isso também. Por que foi importante ter contato com pessoas que faziam o que era certo. E ele me adotou como irmã, cuidou de mim, e esteve ao meu lado em bons e maus bocados. Ele tomou para si a responsabilidade de cuidar de mim quando eu não estivesse em casa, ficando comigo quando meus pais saiam, me levando para sair, me buscando quando eu eventualmente conheci outros amigos e saia sozinha, mesmo que eu ligasse pra ele ás 3 da manhã e ele estivesse dormindo. Foi, é, meu irmão. Sempre será. Por que amor se constrói, se mantém, assim, com pequenas e grandes ações. Mas principalmente por estar lá quando parece que estamos sozinhos.