De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sobre Rebeca e seus 11 anos

 Hoje foi o dia dela.

11!

As vezes parece que foi ontem, as vezes parece muito mais tempo.

Não sei o que seria da minha vida sem ela. Não me importo. Não queria nada diferente.

Por anos e anos eu me dediquei a ser o que eu sempre achei que ela precisava de mim. Mas agora ela tem 11 e ela anda por um novo caminho, aprendendo a dar seus passos, buscando sua independência e sua identidade.

Com isso eu me vi tendo a chance de ter tempo e disposição pra ser um pouco mais de mim e pra mim e não só pra ela.

Porque hoje ela me acompanha e aprende comigo, e hoje mais que ser seu mundo e seu apoio eu tento ser seu exemplo.

Porque ela talvez sempre seja a coisa mais importante do meu mundo mas agora eu preciso mostrar que o mundo é grande e tem muita coisa nele, sonhos, pessoas, experiências, planos, um mundo inteiro.

Um mundo inteiro pra mostrar pra ela.

Nesse início de pré adolescência, hoje eu comemoro uma etapa nova na nossa jornada.

Parabéns, Bequinha. São 11. E é só o começo, pra nós duas, desse caminho.

Amo você , Jacaré!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Aquele sobre o aniversário

Rebeca fez 7 anos.
Foi uma festança, com vários amigos, familiares, colegas de escola. Foi bom. Foi como ela pediu que fosse.

Começou com café na cama. É uma tradição aqui, nos dias de comemoração, ganhar café na cama. Ela nunca esquece. Faz questão, não só de ganhar o dela, como de dar o meu e o do pai em nossos respectivos aniversários e datas comemorativas.

Enfim, teve café na cama.  Teve ovo mexido, salsichas, pão na chapa, leite com chocolate, suco e frutas. Tudo arrumadinho na bandeja e colocado ao lado da cama.

Aos 7 anos, Rebeca ainda tem dormido comigo na cama. Reveza dias que dorme na minha cama comigo e na cama dela com a boneca. Estava aceitando voltar para o próprio quarto até eu ter a brilhante ideia de levar ela comigo no velório do meu tio E deixar ela ver o caixão. Falemos das coisas idiotas que fazemos, não? De lá pra cá ela agora esta voltando a aceitar dormir no quarto dela, de vez em quando. Faz parte, a gente entende e da o tempo dela ganhar confiança de novo. Agora com o calor deve ser mais fácil, e vamos levando.

Mas Rebeca fez 7 anos.

Depois do café da manhã, teve festa na hora do almoço com direito a salgadinhos diversos, macarrão de almoço, docinhos, bolo preparado pela mãe, uma playlist de mais de 5 horas com as músicas que ela tem ouvido no ultimo ano, e uma retrospectiva desses anos que passaram. E amigos, família e colegas de escola, como eu já disse.

E que lição de vida que foi esse bolo!

Ela pediu que eu fizesse o bolo de aniversário dela, como eu faço todos os anos. Mas eis que tudo resolve dar errado... Vou fazer o bolo, ela vai me ajudar, tudo estava correndo bem, iríamos fazer 2 massas separadas pra poder rechear. Vai pro forno e... o forno está com problemas e apaga sozinho no meio do tempo, e mesmo reacendendo o mesmo, a massa fica solada e inutilizável. Tira a massa solada, coloca a fornada de cupcakes que iríamos levar pra festa, feitos com cuidado. Mas a temperatura do forno ficou alta demais depois de ter sido reacendido e o cupcake ferve ao invés de assar, e basicamente explode na forma, tendo no fim mais massa espalhada que dentro do copinho.

Eu fico arrasada. Mas muito mesmo. Frustrada, me sentindo mal, por que sei que não terei tempo ou energia pra fazer tudo de novo, a começar por não ter todos os ingredientes disponíveis.

E choro. Mesmo, doído, sentido. Todo mundo em casa tenta me dar uma palavra de apoio. Eu peço desculpas pra Rebeca que, calma e com um sorriso no rosto, me diz que esta tudo bem e que vai ficar tudo bem.

A todos eu reafirmo: Vou fazer de novo, até dar certo, só preciso desabafar e me acalmar.

Passadas algumas horas, volto pra cozinha e tento uma receita diferente pra tentar usar apenas o que eu ainda tenho disponível.

Chamo Rebeca pra me ajudar de novo. Ela diz que vai ficar só olhando, pra não me atrapalhar de novo.

Então eu percebo que ela se sentiu culpada.

Falo pra ela me ajudar sim, que não tem problema, que ela não havia feito nada de errado da outra vez e que o bolo não ter dado certo não foi culpa dela. Expliquei sobre o problema do forno e a questão da temperatura. E também disse que eu estava triste sim, e com medo de não poder dar a ela o que eu havia prometido, mas que eu não ia desistir, e que não importava quantas vezes eu precisasse refazer aquele bolo, eu ia continuar tentando até dar certo.

Ela então me ajudou a fazer a massa, quebrando ovos e mexendo a mistura, acrescentando os ingredientes. Animada. Massa no forno, não cresceu o que devia, mas deu certo o suficiente para ser usado na festa. Fizemos o recheio e a cobertura, deixamos tudo esfriar e montamos o bolo. E pode não ter sido o melhor bolo que eu já fiz, nem o mais bonito, mas ele serviu ao seu propósito.

E Rebeca fez 7 anos.

Depois da festa, recebemos os amigos em casa até tarde, jantamos pizza. Fazia parte dos nossos acordos de aniversário familiares que cada aniversário teria como tema um país. E o dela era Italia. Então o almoço foi macarrão, a noite pizza e o almoço de domingo finalizaria suas comemorações com uma boa lasanha.
E foi o que fizemos.

E ela brincou muito, e se divertiu e ganhou presentes.

E fez 7 anos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Hipomania a gente vê por aqui...

Essa semana tive um gatilho daqueles fortes. Gatilho é aquele impulso inicial que nos leva a sentir alguma coisa, no caso. E para bipolares significa o evento que levou a uma mudança de humor, seja para uma fase depressiva seja para uma fase de mania.

Dai que esse gatilho me deixou mais "alegrinha". Não, sério, to sendo super modesta, to um tanto fora do eixo.

Não perdi completamente o controle, mas estou sofrendo de insônia, coisa que não acontecia há anos. Durmo e acordo no meio da madrugada e tenho muita dificuldade de voltar a dormir. Por sorte tenho a chance de dormir até mais tarde enquanto esses episódios não se resolvem, e acredito que seja exatamente isso que me mantém num certo controle.

Mas é difícil, como eu sempre imaginei que seria, ter filho pequeno e sofrer de insônia. Por que mesmo voltando a dormir não é como dormir direto. E eu durmo mais umas 2 horas no máximo, um sono agitado, diferente, pouco reparador. E a Beca não entende nada disso né?

Fico mais no limite e tenho dificuldade de me expressar além do normal. A paciência que é um dos meus pontos fortes vai pra longe e eu não consigo lidar com situações rotineiras da forma como acredito e procuro praticar sempre.

Não me entendam mal. Eu nem cheguei a gritar com a Beca nem nada do gênero. Nem perto disso. Mas fui mais enfática e dei muito menos explicações do que ela precisa e esta acostumada a ter. As vezes não consegui dar explicação alguma, só mandei e pronto.

Sabendo dessa dificuldade eu estou abusando da ajuda alheia e tentando relevar o máximo do comportamento dela. Abuso da ajuda da TV e do computador também, admito. E como ela gosta de ver videos de música no computador e é algo que eu sempre faço comigo do lado dela, com ela no meu colo, as vezes cantando junto (quando ela não reclama que eu cante) é por ai mesmo.

Do jeito que as coisas estão hoje sei que tudo que eu preciso são de algumas boas noites de sono, talvez um dia de folga pra extravasar mesmo.

E tomara que isso passe logo e sem muitos revezes...

segunda-feira, 18 de março de 2013

Rotina de todo dia é bom pra quem?

A rotina é boa pras crianças, todo mundo sabe disso. Mesmo quem seja contra estabelecer rotinas arbitrárias as crianças concorda que elas mesmas acabam estabelecendo algumas rotinas na vida que ajudam e muito na hora de lidar com as coisas. Mas não são só as crianças as favorecidas com uma rotina, não mesmo!

Digo isso por mim e por outros bipolares que conheço, pessoalmente ou por relato. E acho que isso é uma verdade meio que universal.

Toquei no assunto por que eu estou melhor. E isso apesar de ter pego uma virose no fim de semana e ter passado o sábado e o domingo de cama. Ok, talvez isso também tenha ajudado mais que atrapalhado...

Passei a semana passada ainda meio difícil. Segui com meus compromissos agendados - dentista, psiquiatra. Bebeca foi a escola normalmente, alguns dias chegou dormindo e isso sempre mexe com a nossa rotina pois ela acaba indo dormir bem mais tarde que o normal e eu fico sem o meu "momento zen", ou seja, sem meu horário livre noturno para postar no blog, procurar receitas, escrever ou apenas assistir filmes e ver seriados.

Mas as notícias são boas de forma geral. A psiquiatra acredita que minhas mudanças de humor e minha queda acentuada de cabelos tem a mesma razão - a troca na marca da medicação. então, apenas voltamos a marca anterior e mantemos tudo como estava antes.

Ai que Rebeca ficou doente de quinta pra sexta feira. Virose feia, foi dormir reclamando um pouco de dor de barriga, acordou de madrugada reclamando de dor de cabeça, dor de barriga, um pouco de enjôo e estava levemente febril, com 37°. Dei um tylenol, esperei a temperatura baixar, perguntei se ela estava se sentindo melhor, se o enjoo havia passado e ela respondeu que sim. Dei a mamadeira pra ela voltar a dormir, coisa que aconteceu rapido, e voltamos pra cama.

Mas poucas horas depois, de manhã cedinho, ela me acorda, chorando. Havia vomitado nela mesma, deitada tadinha. Estava ensopada e sem saber o que fazer. Eu levantei rapido, fiz ela se sentar, peguei uma toalaha pra limpá-la e a tirei da cama. Acordei o Taz e pedi que ele desse um banho nela enquanto eu arrumava a cama.

Consegui um encaixe no pediatra e a levei a tarde. Ela não comeu nada a manhã toda, nem água quis tomar. Quando a febre voltou tentei medica-la sem sucesso - ela acabou vomitando tudo. Dei um remédio pra enjôo pouco antes de sairmos de casa o que a fez dormir um pouco no caminho mas ajudou muito inclusive no humor da pequena que foi bastante receptiva na consulta.

Aproveitamos pra medir e pesar (1,025m e 20,6kg), ele examinou, olhou, conversou, mas chegamos a mesma conclusão - virose.

O dia passou como o esperado, controlando a febre e o enjôo. A noite ela jantou um pouco e com o remédio acabou capotando cedo e fácil, sem tomar leite. Mas ai quem começou a passar mal fui eu.

E passei tão mal, tão mal, que não conseguia passar 10 minutos sem ir ao banheiro com ânsia. Fiquei assim das 22h30 as 3h quando cansei e pedi ao meu pai para me levar ao PS pra tomar medicação na veia pois eu não conseguia engolir nada.

Passei o sábado praticamente dormindo, acordei pra tomar remédio, fiquei ums 2h acordada e voltei pra cama. Rebeca passou o sábado bem, sem febre, mas ainda comendo pouco. Domingo a mesma coisa, e ela já estava bem mais animadinha. Quem cuidou dela e de mim foi o Taz, revezando com meus pais parte do tempo pra poder descansar também.

E hoje acordamos as duas muito bem, obrigada. Ela já foi pra escola e eu me senti renovada como a muito tempo não sentia. Com isso consegui trabalhar melhor, descansar e curtir o friozinho que chegou por aqui.

E me sinto bem e reconfortada por voltar a rotina. Saber o que esperar, quando, como. Traz segurança, calma. E se eu que sou adulta me sinto assim, imagina uma criança?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Instabilidade, depressão e efeitos colaterais

Vou aproveitar o tempo livre pós almoço pra falar um pouco de coisa séria. Não que falar da Rebeca não seja coisa séria, claro que é, mas sério mesmo é quando você é bipolar e percebe que seu humor não anda lá tão bem assim.

Sinto que estou deprimida. Não aquela depressão incapacitante que não te deixa sair da cama. Mas aquele tipo que deixa desanimado, sem vontade de fazer muita coisa, de mau humor e brigando por bobagem por que cada palavra é uma luta pra sair da boca.

Sei bem o que é isso. É aquele chamado efeito rebote de uma crise de mania. Minha crise de mania de fim de ano eventualmente acabou e eu colho os frutos dela hoje. Por todos os lados, inclusive.

Não mexi nos medicamentos, na dose no caso, e sei que preciso marcar uma hora no médico. Até por que estou com um efeito colateral bem desagradável - a marca do remédio eu mudei e isso também pode ter interferido no meu humor.

Sim, pra quem não sabe, a marca do remédio altera sim os efeitos do mesmo ainda que teoricamente seja a mesma composição. Quem toma remédio diariamente sabe disso.

Meu cabelo cai de tal forma que entope o ralo do chuveiro a cada banho. Já estou com menos da metade do cabelo que tinha no fim do ano passado. Nem posso sonhar em tingir ou fazer qualquer química no cabelo com medo de que isso piore a situação. Então, mesmo que fosse apenas para pegar uma receita e voltar pra marca antiga, preciso marcar hora no médico.

Mas e a iniciativa, onde eu acho? É bem mais fácil escrever aqui sobre isso do que pegar o telefone e ligar, acreditem! Não é o mesmo movimento.

Me preocupa muito quando eu fico assim pois reflete como eu lido com tudo - com a Rebeca, com meu marido, meus pais, com o trabalho e comigo mesma.

No trabalho tenho dificuldade de ação e uma insegurança tremenda. Aceitei um freela com a minha irmã e apesar do meu esforço ser grande sinto que não alcanço as expectativas e travo em situações que racionalmente parecem simples de lidar. Mas nas ultimas semanas não são.

Sei que estou deprimida, mesmo que levemente deprimida, pois esse quadro se estendeu mais que alguns dias. Consigo datar uma piora a partir da minha ultima TPM. A impressão que eu tenho é que a TPM veio e ficou quando devia ter passado. Lá se vão 3 semanas de um humor ruim, uma paciência curta, desânimo, entre outras coisitas mais.

Antes disso  eu já estava mais desanimada mas ainda conseguia levar meus dias um pouco melhor.

Tenho estado mais impaciente com a Beca também, tadinha. Acabo brigando com ela por bobagens, por que pra mim tudo está mais pesado, lento, como se eu carrega-se um peso extra nas minhas costas.

Uma das coisas que me chamou a atenção que estou a muito tempo assim foi observar a Rebeca brincando. De repente as bonecas dela choram muito, pois é a forma que ela vê bebês pequenos, e ela, mãe das bonecas, sempre fala como se estivesse muito cansada e sofrendo. E criança repete nas brincadeiras os exemplos que tem em casa né? E os exemplos mais fortes que ela tem sou eu e minha mãe (que também não anda em seus melhores dias mas ainda esta melhor que eu). Ai sinto que tocou um sininho na minha cabeça -"que tipo de exemplo eu estou dando pra ela?"

Outro sintoma que veio com tudo foi o sono. Ando com muito mais sono, precisando dormir muito mais e o mesmo não tem mais o efeito revigorante de outrora.

Meu sono sempre foi um bom indicativo do meu humor - sono demais é sinal de depressão e sono de menos de mania. E eu demorei anos de tratamento pra descobrir que existia um meio termo nisso, que era um certo sono saudável, em que eu acordava bem disposta depois de umas 8h ou 9h de sono. Agora não. Se eu pudesse dormiria o dia todo.

Aliás, acho que se não fosse pela Rebeca eu estaria fazendo bem isso mesmo. Praticamente me entregando.

Mas eu tenho a Beca. E passar tempo com ela, mesmo com todas as dificuldades que venho enfrentando, ainda faz meus dias melhores, mais leves e mais felizes. Me faz levantar e agir. me faz insistir no trabalho, nas brincadeiras, em tudo. Me faz rir das gracinhas dela e me orgulhar das suas descobertas, me faz feliz ao vê-la crescer.

Ter a Beca não só não me faz não me entregar como me da força suficiente para que essa depressão não vá nem muito fundo e nem muito longe. Me faz uma pessoa melhor por que eu quero o melhor pra ela, pra nós.

Então eu levanto da cama, engulo em seco esse desânimo e passo mais um dia. E fico com ela de manhã (ou pelo menos parte dela), cuido das coisas da escola, troco, dou comida, brinco, conto histórias. Espero ela voltar da escola ansiosamente, querendo as poucas 2 horas a mais que passaremos juntas antes dela dormir. E no meio do caminho tento usar essa energia extra pra fazer todas as outras coisas. tem dias que dá, tem dias que não.

Mas sabe a única coisa que nunca acontece? Eu não desisto.