De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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terça-feira, 4 de junho de 2019

O bom filho a casa torna... Ou, olha só eu aqui!

Estamos aqui.

A casa já está mais arrumada. Já tem seus problemas, já tem alguns dos detalhes que a fazem nossa. Mas ainda fico achando que a qualquer momento chegará o dia de voltar atrás. De "voltar para casa".
Me lembro que essa é minha casa agora, e deixo a sensação de "AirBnB" ir embora.

São as pequenas coisas que tento focar pra me ajudar a me sentir mais a vontade: o quarto com a cama grande... O banho delicioso e estupidamente quente e com muita água... A sensação de segurança ao ficar acordada até mais tarde, de madrugada, sem me sentir exposta...

Preparar a mudança, tomar essa decisão e levá-la em frente até o fim, encaixotar tudo e mais um pouco e ver que tanto ainda ficou pra trás... Tudo mexe comigo de uma forma muito mais intensa do que minha estabilidade permitia. Fui pro alto, pra muito alto... E fiz isso consciente de que tudo que sobe tem que descer. Já nos mostrou Ícaro ao tentar chegar perto demais do sol...

Estou completamente instável. Por vezes sinto um desespero tremendo me dominar e simplesmente não consigo fazer nada de produtivo no dia.

Ainda não consigo cozinhar todos os dias. Comemos fora com muito mais frequência que minhas possibilidades financeiras permitem. Muito mais.

Tenho dificuldades pra dormir. Dificuldade pra acordar de manhã.

Não estou arrependida nem nada disso. Nem triste de ter mudado. Pelo contrário, estou muito feliz de estar aqui e ter dado esse passo.

Mas existe todo o resto. Existe a rotina. Existe o dia a dia. O trabalho, a escola, as contas, os médicos, o clube, a família, os amigos, o carro, o carro do trabalho, a cidade, o estado, o país, o mundo...

Me sinto triste e choro por tudo e por nada. Quero fazer as coisas mais simples e percebo que não consigo fazer sozinha.

De repente percebo que todo aquele sentimento de inadequação, incapacidade, inutilidade, e todas as coisas ruins que sinto sobre mim mesma não passaram. Que os represei com a promessa que olharia pra isso depois. Depois... 

Ao mesmo tempo estou feliz. Quero cuidar da minha casa. Quero chegar no momento em que eu entre pela porta e sinta aquela sensação agradável de alívio por estar em casa e posso deixar toda a tensão pra trás.

Colocamos as prateleiras, instalamos o escorredor de pratos suspenso que eu tanto queria... Rebeca tem a cama que pediu pra poder receber os amigos... 

Minhas tias vieram almoçar aqui no último domingo.

O aspirador quebrou...

Ficamos doentes a semana passada inteira graças ao frio de inverno que finalmente chegou.

Hoje eu me deixei descansar.

Tomei aquele banho pelando de tão quente que tanto gosto, coloquei uma roupa bem quentinha, e deitei na cama debaixo das cobertas a tarde toda...

Ganhei meias fofas e quentinhas no dia das mães e elas estão sendo muito úteis.

E me lembrei que tenho que levar um dia de cada vez mesmo. E fazer o melhor que eu puder todo dia.

Está frio e estamos assistindo TV a meia noite porque Rebeca não conseguia dormir...

Amanhã... Bom, amanhã nos vemos como vai ser...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

E sexta feira e eu não sei...

Tive uma conversa ontem que virou discussão e por fim desabafo.

As férias acabaram e o que senti foi que a cortina de humor e disposição que me cobre nesse período se fechou.

Aplausos, foi um belo espetáculo. Mas ao fim de cada teatro nós pegamos nossas coisas e voltamos para casa.

E em casa nos deparamos com a bagunça que deixamos antes de sair. "Arrumo quando eu voltar" falamos sem pensar no cansaço da volta.

De repente uma notícia de jornal me tirou o chão e me fez sentir medo.

Em minha mente vi toda a falta de segurança, de liberdade, de civilidade, de humanidade, sumirem em segundos.

Em segundos me senti em perigo. Em segundos eu senti que precisava defender minha filha e seus direitos mais básicos.

E em minutos uma conversa sobre um artigo no jornal virou uma discussão e por fim um desabafo.

E me senti inundar por todo o sentimento de inadequação, de incapacidade, de ...

Olhei pra mim e vi alguém que fez escolhas ruins. Alguém que fez as escolhas possíveis, mas que hoje se vê presa a uma realidade que não me completa. Presa numa casa, cidade, estado, país, sem chances de buscar ou tentar conhecer novos horizontes por mérito próprio.

Alguém incapaz de mudar a própria realidade.

De garantir a segurança, a autonomia e a liberdade de minha filha. De protege-la... De dar a ela chances melhores, de ser quem ela quiser ser, onde ela quiser ir.

Alguém incapaz. Alguém que depende dos outros para tudo e exatamente por isso incapaz de mudar isso.

Em segundos fui inundada por uma tristeza e um enorme desespero.

A conversa acabou, as lágrimas secaram, me concentrei em respirar e deixar o dia terminar.

A intensidade desses sentimentos me cega para o mundo real.

A bagunça na casa me impede de ver a sala, os quartos, e cada canto desse que é o meu lar.

A bagunca de sentimentos intensos demais nessa retomada da rotina após as férias me impede de ver as coisas boas que vivo e faço.

Então eu apenas deixo o dia acabar para poder dormir e descansar um pouco. Apreciar o silêncio da noite quando tudo em volta já dorme, e deixar que esse silêncio me preencha.

Encontro refúgio nos pequenos luxos e prazeres que posso alcançar. Uma tarde menos quente, um jantar de sabor forte, uma fuga gastronomica para calar e engolir o choro.

Vai passar.

Arrumar a casa pode dar trabalho mas é necessário para encontrar o conforto escondido por trás das almofadas fora do lugar.

Respiro. Tomo um café.
Em alguns dias as coisas voltam ao normal.
Eu também.

sábado, 5 de janeiro de 2019

O mundo que Atropela

O mundo que atropela.


Respira.
Levanta a cabeça,
Senta na cama,
Respira.

O ano começa com velocidade,
As mudanças,
Dentro e fora,
Agitam os pensamentos
Que mal tem tempo
De se formar.

Liga a TV,
Assiste o jornal,
Mexe no celular,
Olha só isso!
Não, pera, o que?

Somos atropelados
Pelo passado
E sem tempo de reagir
Tudo que consigo pensar e:
Respira. Para. Levanta a cabeça.
Respira.

A festa de Réveillon foi
Tão boa,
Tão alegre,
Tão fantástica,
Que parece que os dias passam,
Mas a ressaca fica.

Olha pra tela,
Lê mais uma história,
Engole em seco.
Tem que ser sede,
Só pode.

Lê mais uma,
A cabeça gira,
Toma o analgésico,
Esse mal estar todo
Tem que ser gripe.
Só pode.

Troca de aplicativo,
De música,
De roupa,
Desliga.

Muda o foco,
Muda de ideia,
Muda de casa.

Não, pera, o que?
Respira.
Levanta a cabeça,
Levanta do chão,
Respira.
Continua.

Só não desiste.
Continua.
Desliga o celular,
Desliga a TV.
Me liga.
Vamos juntos.
Respira.