De mãe e louco todas temos um pouco

Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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sábado, 6 de julho de 2024

Sobre transtorno bipolar e filhos

Minha filha tem 14 anos e desde muito cedo apresenta sintomas de algum tipo de transtorno.

Aos 5 ela me trouxe pela primeira vez o sentimento de inadequação e de achar que não merecia viver. 

Se sentia infeliz consigo mesma e com sua aparência. Sofria bullying nas aulas de ballet de meninas magérrimas que a consideravam gordinha demais para a dança.

Não, ela não era.

A pandemia fez com ela o que fez com grande parte dos adolescentes e agravou enormemente seu quadro de saúde mental e o que eram episódios pontuais e mais leves se tornaram um claro transtorno de ansiedade e depressão profunda.

E nós estamos lutando contra isso e tratando com médicos e terapeutas desde então.

Eu quis trazer isso para falar de um medo que eu sei que toda pessoa que se descobre bipolar e deseja ter filhos tem: e se meu filho acabar sendo bipolar também?

Quando eu decidi ser mãe eu ponderei bastante sobre isso e eu cheguei a conclusão que ninguém melhor para cuidar de um filho bipolar do que eu que já passei por isso.

Durante a gravidez eu conversei muito com meu terapeuta, conversei muito com minha filha ainda na barriga, e ensaiei como eu falaria com ela sobre a minha condição de saúde.

Ao longo desses anos ela viveu comigo minhas instabilidades. Sempre de forma honesta e transparente, dando a ela toda a informação necessária para cada fase da vida dela.

E isso tem sido importante num momento que nos voltamos para a saúde dela.

Com uma mãe bipolar e um pai depressivo, era quase inevitável que ela apresentasse algum quadro de transtorno emocional. E sabendo disso eu me preparei.

Não é facil. Não é fácil pra ela, mesmo com toda a informação e apoio,  viver nessa montanha russa. Não é fácil pra mim ter que reviver tudo isso para poder ajudar ela da melhor forma que eu posso.

Mas nós estamos levando.

Uma das coisas que fiz esse ano e que sinto que foi um acerto, foi trocar ela de escola e buscar uma escola mais aberta e preparada para lidar com essas questões. A escola e a rotina escolar, pra ela, são um gatilho forte e ser acolhida nessa dificuldade tem feito diferença.

Ter um psiquiatra bom acompanhando o caso e um terapeuta que ela se sente confortável e confia tem sido outro fator muito importante. 

Apoio da família e amigos são imprescindíveis. 

Mas a coisa que eu sinto que faz mais diferença é poder estar perto dela.

Ela me acessa muito e precisa muito de contato e cuidado durante os dias mais escuros. E ela acaba sendo também um apoio nos meus dias difíceis.

Não é ideal, talvez, mas é o que temos. Temos uma a outra e um amor muito forte.

E eu me esforço pra ser para ela o exemplo de que tudo o que ela sente hoje de ruim, não vai durar pra sempre. Que é possível ser feliz, ser capaz, e alcançar nossos sonhos. Temos que ter paciência, resiliência e coragem. 

E temos uma a outra.

Podemos conquistar o mundo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Enfim 2022

 Estamos em Fevereiro e para mim o ano começa agora. Quer dizer, não que ele não tivesse começado, mas é que Janeiro é pra mim sempre um mês muito tenso, muito difícil, onde o resto do ano é organizado e planejado e esse ano, mais que outros, isso me afetou profundamente.

Além disso Janeiro marca o rebote do mês de dezembro, e dezembro é um mês que eu costumo estar num estado de hipomania devido as festas, ver a familia, comprar presentes e etc. 

Esse ano a depressão chegou mais cedo pra mim e apesar de ter tido bons momentos especialmente no começo de Dezembro, as festas de fim de ano já estavam manchadas por essa melancolia e cansaço e um bom tanto de desespero. Não consegui aproveitar meu Natal, tive um bom Ano Novo, mas dia 02 em diante minha rotina contou com a depressão constante, brigas em casa, medo e frustração e muito desespero. A sensação de ver tudo que eu havia planejado indo por água abaixo.

Mas a vida é assim, certo? Ela nem sempre funciona como planejamos. Viver significa muitas vezes ser capaz de respirar fundo e se adaptar a uma realidade diferente e tentar encontrar soluções criativas.

Apesar de todo esse sentimento negativo - não, ele não foi embora porque trocamos de mês, claro que não - eu tenho hoje em mim uma certeza de proposito muito grande.

Hoje em dia eu tenho um trabalho que amo e estou buscando aprender, estudar e me desenvolver como profissional na carreira que sempre quis. Eu sinto que estou no caminho certo, que estou fazendo as coisas certas, e que tudo que preciso é de um pouco de estabilidade e paz de espirito para continuar correndo atrás de algo que eu sei que vai dar certo. Eu preciso de espaço e de tempo. Mas eu sei o que eu estou fazendo.

E isso é muito raro.

Fevereiro é pra mim quando o ano começa pois é quando consigo estabalecer uma rotina. É quando o pior do rebote ja passou e eu ja consigo vislumbrar pra onde ir e como chegar lá.

Tem muita coisa pra se resolver. Nada vai ser como eu tinha imaginado. Mas é hora de imaginar algo novo. 

Vem comigo?


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Porque eu (quase) nunca grito

 

Aviso de Gatilho - alguns assuntos abordados podem servir de gatilho para pessoas em momento de fragilidade. 

2021 não começou fácil pra mim. Me sentindo deprimida e sobrecarregada, problemas financeiros, com a família, o trabalho não indo pra frente porque todos estão passando por algum processo pessoal que demanda atenção e tempo. Já bastante fragilizada, acabei entrando em uma discussão em que algo aconteceu que simplesmente me devastou por dias.


Eu tive que gritar.


Eu não grito. Eu posso, numa discussão, levantar a voz, mas isso é diferente de gritar. De perder o controle. Eu não grito.

E existe um motivo para que eu evite discussões e, especialmente, gritar a quase qualquer custo. E é sobre isso que quero falar.

Eu conversei com um amigo sobre o que havia ocorrido e enquanto ele me confortava ele perguntou porque eu fazia isso. Porque eu me segurava tanto. Porque eu aguentava situações que mereciam um grande "Vai tomar no C..." em silencio, ou me controlando. Se as vezes eu não deveria me dar o direito de não me controlar.

E eu pensei, e tentei explicar.


Em 2002, 2003, quando eu tive a minha maior crise que me levou a ser internada, foi um momento da minha vida que eu não tinha nenhum controle das minhas emoções. Tudo era demais, intenso demais, forte demais, dolorido demais. Eu sentia uma dor dentro de mim que eu não sou capaz de descrever. Uma vez eu me referi a ela como "uma dor na alma" e já ouvi essa descrição de outras pesssoas. 

Era insuportavel. Eu me sentia presa naquela dor. Eu sentia a necessidade de me machucar fisicamente para tentar colocar pra fora de mim a dor que eu sentia por dentro. E quando eu perdia o controle, naquele momento, tudo aquilo, toda aquela dor, me dominava, eu tremia, chorava, e sentia que não podia suportar aquilo tudo.


Mas eu faço tratamento desde então e eu nunca mais tive uma crise igual a essa. Mesmo. Tive outras crises mas nunca mais cheguei tão fundo.


Mas tem esse porém. 

Eu vivo me controlando o tempo todo. O tempo todo. Existe esse fantasma que me segue e com o qual eu convivo todos os dias de saber que um dia isso pode sim acontecer de novo. E me controlar foi o meu jeito de aprender a lidar com as crises mais leves que vieram e administrar meus sentimentos de novo.

Mas discutir é uma coisa complicada, né? Como discutir sem sentir a emoção ficar mais forte? Sem se exaltar?

Pois eu tento. Muitas vezes consigo. Mas é um exercício. E determinação.

E eu não grito.

Porque quando eu grito, se eu cheguei em um ponto da discussão em que eu acho que eu preciso gritar - muitas vezes não para agredir, mas na tentativa de chamar a atenção da outra pessoa, dar um susto, de forma que a pessoa preste atenção em mim e volte a me ouvir - essa intensidade me leva de volta aquela dor. Aquela intensidade que eu sentia antes do tratamento. Eu sinto a dor correr o meu corpo denovo durante os minutos que eu me permito gritar e sentir isso. 

Doi. Doi muito. Eu começo a tremer, eu sinto que perco o controle do meu corpo, de mim mesma. E doi.

E uma das coisas que eu sinto, hoje, que me mantém, é que eu me amo muito. Eu amo muito a minha vida. E ninguém merece a minha dor.


Ninguém merece a minha dor.

Então eu não vou dar isso de graça a qualquer um. Me custa tanto, me custa demais. E eu não vou ceder a minha integridade pra quem não merece 1/10 de mim.


Ninguém merece a minha dor.


E ter conseguido externar esse sentimento, essa certeza, foi algo... Libertador.

Eu me sinto mais em paz comigo mesma de ter consciencia disso. De ter conseguido racionalizar e explicar e poder falar sobre isso, hoje, quase 20 anos depois.


Acho que é uma mensagem importante: Se ame. Se ame muito. Se priorize. Seja a pessoa mais importante na sua vida. Você merece o seu proprio bem.

Ninguém merece a minha dor porque EU mereço o melhor de mim.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Aquele sobre o aniversário de 11 anos



 Rebeca completou 11 anos em um Brasil em quarentena. Um lugar que, apesar das flexibilizações duvidosas país afora, as pessoas permanecem tendo de ficar o áximo possível em suas casas, se protegendo e protegendo os outros de uma doença perigosa, sem cura.

As vezes banalizamos para poder continuar vivendo sem estar em pânico constantemente, mas a verdade é que a Epidemia não acabou e continua matando quase mil pessoas todos os dias.

E nesse cenário de incertezas e medo, Rebeca fez 11 anos.

Muito mais do que uma mudança de um número, eu acho que ela não percebeu as mudanças que aconteceram com ela durante esse ano. Ela era uma criança de 10 anos, no aniverário do ano passado quando ainda me pediu para ganhar um boneca, das caras, de presente de aniversário.

Esse ano nós vamos pintar o cabelo dela de colorido como presente de aniversário.

E como se comemora aniversário em meio a quarentena? Com parabéns virtual? Sim, claro!
Mas eu achava que era pouco.

Eu queria fazer o aniversário dela ser especial, memorável, divertido!

Rebeca gosta de festas grandes, preparar as festas, monstar lembrancinhas. O que poderia suprir esse gosto?


Decidi que iríamos viajar.


Pedi a uma prima minha que tem casa na praia se ela poderia nos emprestar a casa dela por alguns dias para comemorar o aniversário da Rebeca, Conversei com ela com mais de um mês de antecedência para ter certeza que daria certo e que fosse no dia mais proximo possivel do aniversário da Beca.

Minha prima concordou. Nos organizamos e ela conseguiu que nós fossemos passar 5 dias exatamente no intervalo que aconteceria o aniversário da Rebeca. estaríamos na praia no dia certo!

Comecei então a organizar as coisas.

Eu queria que ela tivesse contato com outras crianças. Conversei com dois casis de amigos meus proximos e com quem nós temos convivido durante a quarentena por motivos de trabalho e saúde mental cujos filhos são amigos da Rebeca para que eu pudesse levar as crianças na viagem.

Com isso em mente, tentei fazer com que eles se sentissem seguros de deixar as crianças comigo e planejei a viagem para que meus pais pudessem ir conosco alguns dias e os amigos da Rebeca em outros, assim ela teria um pouco de cada coisa.

Arrumei também para que a irmã dela pudesse ir junto. Convidei um amigo meu que esta trabalhando conosco e esta sempre aqui em casa para nos acompanhar, assim poderiamos ir com dois carros pois ele poderia nos auxiliar sendo um dos motoristas.

Semanas passam e meus amigos não me dão a resposta definitiva sobre as crianças. Meus pais estão com duvidas pois minha mãe tem muita dificuldade de sair de casa. Eu sigo organizando a viagem conforme posso, contando com a presença deles.

Eis que 3 dias antes de irmos viajar um dos meus amigo dias que não vão poder. Duas das tres crianças que eu tinha convidado estavam ali deixando de participar.

No dia seguinte disso meus pais dizem que não vão também. Minha mãe não esta confiante o suficiente.

1 dia antes da viagem eu sinto como se tudo estivesse dando errado. Fico pessima. Peço ajuda para lidar com a frustração. Recebo a ajuda. Recupero o folego. Bola pra frente e vamos em frente!


E fomos


E foi ótimo! Foi uma viagem deliciosa! Apesar de não irmos realmente até a praia em si para não nos arriscar com COVID nem nada, a casa tinha piscina. OS dias estavam muito quentes e ensolarados e pudemos aproveitar bastante a água, os dias na rede, passar a noite jogando jogos. Relaxar e apenas curtir o momento.
NO dia do aniversário propriamente dito nós cantamos parabéns e cortamos o bolo que eu havia feito e levado para a ocasião, do jeito que ela pediu. Fizemos o parabéns virtual com meus pais e minha irmã.

Meu amigo que nos acompanhou é fotógrafo, levou a camera, e nos presenteou com um registro cuidadoso e delicado de um aniversário fora do normal.


Mas tudo que sobre, desce, não é mesmo?

No sábado, ainda na casa de praia, o dia amanheceu chuvoso e frio, Todos cansados dos dias anteriores, cada um se fechou em seu mundo. Baixas de humor. Uma crise.

E então que ela veio. Uma crise forte, certeira, avassaladora.

Eu sabia que eu ia ter um rebote devido a ansiedade de ter preparado a viagem. Eu me dediquei muito e dei muita importância e estava muito preocupada para que o aniversário da Rebeca fosse tudo de melhor que eu pudesse fazer. E isso sempr tem uma consequência.

Mas eu estava esperando a consequencia quando voltasse para casa, não no meio da viagem.

Passei o dia entre o lá e o cá, brigando com o sentimento dentro de mim. Perdi. Em determinada hora apenas pedi que o Taz assumisse o cuidado com as crianças e me deixasse tentar descansar. Eu tinha esperanças de que, se eu conseguisse dormir, o sentimento fosse embora.

Mas ela veio. A dor. Uma dor de proporções que eu não sentia há mais de 10 anos. Um sentimento de vazio, de inadequação. De solidão. De abandono. Uma dor dentro de mim, uma dor na alma, que tentava me convencer que eu não tinha valor nenhum, que eu era fraca, que tudo que eu tinha ali era por pena. Que no fim eu estav sozinha, sempre. Que eu iria perder tudo que eu achava que tinha conquistado. Que nada daquela felicidade do dia anterior iria permanecer...

Eu chorei copiosamente deitada na cama por mais de uma hora. Entre ondas de choro e alguns poucos minutos de calma eu tentava me levantar para pedir ajuda, para pedir companhia e não conseguia me mexer.

Quando depois dessa 1h hora, ainda em crise e chorando, percebi que talvez eu finalmente conseguiria levantar eu ainda consegui pensar que não queria que Rebeca ou meu sobrinho me vissem assim, não queria assusta-los. Então eu não podia chamar o Taz. Eu precisava que ele continuasse com as crianças.

Então levantei e fui até o quarto mais perto, onde meu amigo e minha entenada estavam cochilando e  gritando, batendo a porta, implorei por ajuda. O tom que usei foi o de uma briga. Foi um grito, uma bronca. Foi a única forma que consegui fazer as palavras saírem da minha boca. Eu brigava não com eles mas com a dor dentro de mim que me sufocava.

Por sorte meu amigo entendeu e sem questionar apenas levantou e veio a minha ajuda. E ficou comigo, no quarto até que eu conseguisse me acalmar, falando comigo e me dando carinho.

Foi importante e necessário e serei grata sempre.

Naquela noite fui deitar cedo para deixar que tudo passasse, que o dia acabasse.

Acordei um pouco melhor no dia seguinte. Domingo. Dia de voltar para casa.

A viagem de volta foi boa. Lenta, por causa d echuva e neblina. Boa.

Demorei mais alguns dias para conseguir voltar ao normal. Não me culpei. Não fui culpada.


Olho para esse dias com muito carinho. Mesmo tendo tido essa crise tão forte eu não acredito que ela tenha estragado nada do que foi. Tivemos momentos maravilhosos, divertidos, e o mais impotante de tudo é que Rebeca ficou feliz com o aniversário dela. Ela se divertiu.

Eu alcancei o meu objetivo de dar a ela dias especiais para que ela lembrasse desse aniversário com carinho.

No meio de tantas coisas, eu recebi muito amor. Muita ajuda.

E se tem algo que eu quero lembrar desses dias é desse carinho.

Quero guardar na memória o amor.

Rebeca agora tem 11 anos.



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Setembro Amarelo - Sobre como eu comecei meu tratamento

 O Setembro Amarelo é uma iniciativa de ações para aumentar a consciência e as politicas e cuidados em prevenção ao suicidio.

Eu já contei aqui antes sobre partes da minha vida. Sobre como fui diagnosticada pela primeira vez muito cedo, ou de como decidi que queria ser mãe e como o tratamento correto me permitiu fazer isso.

Depois de pensar a respeito por algum tempo eu achei que contar um pouco sobre a crise que me levou a finalmente buscar tratamento de verdade, antes de eu pensar que queria ser mãe, era importante. Especialmente durante o Setembro Amarelo.

Apesar de ter tido meu primeiro diagnóstico muito cedo, aos 13 anos, como PMD - Psicose Maniaco Depressiva - que era como o Transtorno Bipolar era chamado na época. (Sim, faz bastante tempo!) eu só comecei a me tratar de verdade aos 21 anos. Durante toda minha adolescência eu encarava minhas mudanças de humor como parte de quem eu era, como parte da minha personalidade. Muitas vezes como falhas - como a dificuldade de terminar o que eu começava, por exemplo, ou minha insônia e incapacidade de dormir e acordar cedo. - e coisas de adolescente.

Em 2002 algo acontceu que mudou muito minha vida. Minha avó por parte de pai, Angelina, morreu um dia antes do aniversário do meu pai. Na época eu trabalhava fazendo clipagem - uma coisa que não existe mais hoje em dia - e acordava as 4h da manhã para trabalhar. Minha vó tinha cancer de pancreas e todos sabiamos que ela não tinha muito tempo. Naquele dia, as 5h da manhã enquanto eu trabalhava, o telefone tocou e eu atendi. Minha tia, com a voz embargada, me pede para dizer ao meu pai que minha avó falecera.

Ainda hoje eu choro ao lembrar disso.

Eu, chocada, meio desesperada, ouço meu pai descendo as escadas da casa, e chamo ele quase gritando. Digo para minha tia, sem saber o que fazer, para ela contar a ele. Ele vem rapido para o meu lado, preocupado, pergunta o que aconteceu. Eu, já em prantos, entrego o telefone e digo "é a vó".

Dali em diante algo mudou.

No fim de semana anterior meu pai havia ido ver minha vó, se despedir, e me chamou para ir junto. Ele disse: "Di, vamos ver sua avó. Ela não tem muito tempo..." ou algo assim. Era um domingo de manhã, eu havia dormido depois de amanhecer e não queria acordar e sair e respondi: "não, hoje não, eu vou na semana que vem..."

Só que a semana que vem nunca chegou. E eu não conseguia lidar com a culpa.

A partir dai eu comecei a ter crises de depressão e mania cada vez mais frequentes. Eu ciclava com muita rapidez. Saia todos os fins de semana, bebia muito. 

Por mais que coisas boas tenham acontecido naquela época, a forma como eu lidei com essas coisas foi totalmente norteada pela crise profunda que eu estava. Tudo era muito intenso, tudo era muito forte, confuso.

Naquele ano nós tivemos nosso primeiro relacionamento poliamoroso, ou era assim que eu entendia. Saimos da casa dos meus pais para morar juntos exatamente quando eu perdi meu emprego. Ao mesmo tempo que as coisas pareciam ótimas as crises iam piorando. O relacionamento se deteriorava junto comigo e isso fez com que a maioria das pessoas entendesse que era o relacionamento que me fazia adoecer e não o contrário. Na época não entendiamos o que estava acontecendo.

Depois de quase um ano da morte da minha avó eu estava no fundo do poço. A dor que eu sentia dentro de mim era insuportável. Eu tinha episodios de auto flagelo que eu não tinha desde os 13 anos. Eu não conseguia dormir, passava 72h acordada para dormir 4h e depois passar mais 72h acordada. A velocidade dos meus pensamentos era tâo grande que eu mesma não conseguia acompanhar e ter uma linha de raciocinio logico, terminar um pensamento sem entrar com outro no meio. Sentia que no trabalho eu era a unica capaz de resolver problemas que existiam há anos, de forma simples, por que eu era capaz de pensar coisas que ninguém havia pensado antes. Fazia planos mirabolantes para tudo ao mesmo tempo que a dor me dominava e eu chorava por horas. Com medo do relacionamento acabar, porque eu sabia que estava quase impossivel de conviver comigo, eu tinha discussões e mais discussões, suplicava para não ficar sozinha.

Até que em algum momento, num dia igual qualquer outro, eu consegui dormir um pouco mais. E quando acordei, com a mente mais clara do que havia estado no ultimo ano inteiro, eu tive um insight. Eu entendi o que estava acontecendo comigo.

Durante toda a minha infância eu convivi com a minha mãe, primeiro com crises devido a sindrome de panico, e depois com ela em tratamento e melhorando. Eu sabia que eu tinha esse diagnostico desde pequena, eu apenas não havia dado bola pra ele. Mas naquele dia, naquela manhã, eu entendi que tudo aquilo que eu sentia, toda a dor, toda a angustia, toda a agitação, tudo, eram sintomas de uma doença. E que se era uma doença então ela tinha tratamento. Eu entendi que eu poderia ficar bem, que eu podia não sentir tudo aquilo. Eu entendi que eu podia ficar bem...

Eu liguei para os meus pais e pedi que eles averiguassem no livro de referência do meu convênio que eu havia deixado na casa deles o telefone de um psiquiatra. Expliquei o que estava acontecendo, que eu sabia que estava doente e que eu precisava de ajuda, Eles prontamente me ajudaram, me arranjaram o telefone e eu marquei a primeira consulta.

Não foi um começo fácil.

A psiquiatra era muito competente, referência em tratamento de transtornos afetivos fui saber depois, e ela teve muito cuidado antes de fechar o diagnostico.

O que eu aprendi desde ali é que quando chegamos ao psiquiatra pela primeira vez, geralmente em crise, eles fazem uma avaliação durante algumas consultas onde eles analisam não apenas o que falamos, mas como nos comportamos e qual a reação que temos com a medicação inicial que eles passam. Ela trabalhou com algumas hipoteses de diagnostico até fechar com o Transtorno Afetivo Bipolar, ou Transtorno Bipolar de Humor. Na época eu apresentava um quadro de neurose e ansiedade também.

O tratamento começou, começamos testando alguns medicamentos. O importante, inicialmente, ela dizia ser retomar meu sono. Eu precisava dormir. Mas mesmo com a medicação eu não conseguia.

E o cansaço me dominava. E por consequência o desespero.

Eu cheguei a usar maconha como forma de relaxamento para ver se isso me ajudava a dormir. Deixei de usar quando vi que nem isso funcionava.

Com os remédios na minha mão, e com tudo a minha volta ruindo, tudo que eu queria era poder descansar. E fazer as pessoas a minha volta pararem de sofrer por minha causa.

Eu comecei a sair de casa para escrever e respirar. Ia para a padaria perto e ficava lá por horas, sem vontade de voltar para casa. A noite, na hora de dormir, eu exagerava nas doses da medicação para ver se isso me faria dormir por mais tempo e eu finalmente poder descansar.

Até que eu comecei a não sentir nada. Apenas cansaço. Eu só queria descansar.

Nesse dia eu tinha consulta com a psiquiatra. Eu relatei tudo isso para ela. E, melhor do que eu, ela entendeu para onde aquele caminho estava me levando.

E ela pediu a minha internação.

Eu concordei. Eu entendia que estava doente e eu confiava nela. Mas quando ela disse: "Traga seus pais amanhã, vou explicar para eles, e vamos internar você essa semana" eu disse que não "não, essa semana não, eu tenho muitas coisas pra fazer ainda". Ela disse "não é assim que funciona, Adriana. Você pode fazer tudo depois. Agora você precisa se tratar".

E, sabem de uma coisa?

Ela tinha razão.

Eu levei meus pais, meu namorido, e todos entenderam o que precisava ser feito e o que iria acontecer se eu não fosse internada naquele momento.

Eu passei 14 dias no hospital. A maior parte do tempo eu dormi. Eu tomei doses altíssimas de remédio, controladamente, para que eu dormisse o maximo de tempo possível.

Todos os dias a medica ia me ver, assim como meu psicólogo, e ela me questionava sobre como eu me sentia. Especialmente se os pensamentos de morte haviam desaparecido.

Nos primeiros dias eu nem entendia a pergunta direito. Eu achava estranho, porque eu só queria descansar. Mas conforme os dias passavam e eu dormia mais e meus pensamentos ficavam mais claros, eu entendia porque ela havia me internado.

Ela tinha visto o risco que eu estava, silenciosamente, me colocando. Ela tinha experiência para ver o que esses sentimentos de cansaço, de culpa, de desespero, de inadequação, iriam me levar.

Eu acho, olhando hoje, que ela tinha razão.

Mas ela me resgatou. Me internou num momento que sozinha eu não era capaz de sair daquele buraco escuro. E isso foi a luz que eu precisava. 

Eu sai do hospital direto de volta para a casa dos meus pais. Na época eu não sabia, mas eu continuava internada em internação domiciliar. Eles eram responsáveis por mim. Eu não podia ter acesso a minha própria medicação, eles eram responsaveis por me dar cada remedio nos horarios corretos, garantir que eu tomava todos, que eu dormia, e que iria em todas as consultas com a psiquiatra, a cada 15 dias, e no terapeuta semanalmente.

Foram mais 6 meses assim. Eu lembro de flashes dessa época. Lembro que eu tive que reaprender a sentir cada sentimento de novo. Tive que redescovrir quem eu era. 


Mas essa parte da história fica pra outro dia. Por que, a parte mais importante, e eu preciso que você entenda isso, é:

Eu estou aqui. Eu estou bem. Eu tenho uma vida boa, feliz, e satisfatória. 

Eu não estou curada. Eu continuo e sempre terei Transtorno Bipolar. Isso é uma das minhas caracteristicas, uma das partes de quem eu sou. Eu tenho muitas limitações. MAS EU ESTOU AQUI.

Eu tenho algumas oscilações de humor. Mas eu nunca mais tive uma crise tão profunda como essa de 17 anos atrás. Há 17 anos eu fui resgatada de mim mesma. Eu procurei ajuda e eu recebi a ajuda que eu precisava. E por mais dificil que tenha sido, por mais percalços que eu tenha tido no caminho, não desistir do tratamento, persisitir, me permitiu chegar aqui e contar que sim, é possível.

A dor pode passar. Procure ajuda. Consulte um medico, procure fazer terapia com um psicologo, peça ajuda as pessoas ao seu redor que se dispuserem a ajudar. Insista no tratamento. O começo é dificil, demora um pouco para encontrar o seu caminho. Mas é possivel!


Não desista. Você não esta sozinho. E o que eu posso fazer é contar a minha história e esperar que, tendo um exemplo, você possa encontrar a força de buscar a ajuda médica que precisa. Ajuda profissional.

Vou deixar aqui duas informações importantes, o telefone do CVV - Centro de Valorização da Vida, grupo de auxilio e atendimento, e o site da ABRATA - Associação Brasileira de Transtornos Afetivos, onde você encontra informações, e acolhimento a portadores e familiares de transtornos afetivos:

CVV: - disque 188

ABRATA: http://www.abrata.org.br/

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Uma pausa pro café...


As vezes nossa vida parece que nos coloca num turbilhão. São emoções que por vezes não conseguimos conter, que nos paralisam, nos corroem, tornam a convivência algo quase impossível. Seja para nos dar o tempo que precisamos para nos curar, seja para nos proteger e proteger os outros de algo que não podemos evitar, o tempo é muitas vezes nosso maior aliado.

Saber respeitar seu tempo, e o dos outros, dentro do que é possível no dia a dia, é um exercício consciente. 

Saber que não se está sozinho e que outros talvez se sintam como você nesse momento pode pelo menos mostrar que todos temos nossos monstros para lidar.

E não precisamos lidar com eles sozinhos.

Cada um sabe o momento que estar junto é possível. É necessário.

Se você está por aí, saiba: quando conseguir eu estarei aqui pra você.

E vamos tomar esse café juntos...


Por agora, senta, sente o aroma e toma um café quente. Com muito açúcar, pois como diria o Sábio: não existe açúcar demais.

Apenas sinta o perfume das flores e deixe o tempo passar.


Tudo passa. A tempestade também vai passar.

sábado, 4 de julho de 2020

Daquilo que nos faz parar e da dificuldade de recomeçar

Olá! Quanto tempo não? Pois é... Hoje eu vou contar porque eu sumi de novo...

Eu fiquei doente no final do ano passado.

Foi isso que me fez parar de escrever no blog novamente.

Quando eu finalmente me recuperei e estava voltando a ter saúde física e mental para retomar nossos encontros a quarentena começou. E ai não houve saúde mental que desse conta...

Começou no final de Novembro. Um desarranjo intestinal. Deve ser algo que eu comi, logo passa. Mais uma semana, duas... Está piorando. Vou ao banheiro diversas vezes ao dia. Chega perto do Natal, a comida começa a ter um gosto diferente. Sinto pouca necessidade de comer. Deve ser a mania... Sim, sem duvida estou numa crise de mania, dormindo bem pouco, comendo pouco, muito ativa, com o egocentrismo correndo louco assim como gastos excessivos... Deve ser a mania...
Mas o desarranjo intestinal continua... Falta uma semana pro Natal... Melhor ir ao médico...

Fui ao pronto socorro. Uma bronca leve por demorar tanto para ver um medico, ele me passa um antibiótico. Começo a tomar e tenho uma crise fortíssima de labirintite. Vou ficar com labirintite no Natal? De jeito nenhum, o Natal vai ser na minha casa! Depois das festas de fim de ano eu passo no medico de novo e peço por um antibiótico diferente pra tomar que não me de esse efeito colateral...

Natal em casa muito bom, Ano Novo maravilhoso com uma festona com os amigos no salão de festa do prédio! Ta tudo bem!

Mas o desarranjo não passa e eu me sinto cada vez mais fraca. Não consigo comer um prato de comida inteiro. Não consigo mais tomar Coca-cola. Mas eu sou viciada em Coca-cola! Não importa, não da, tem um gosto horrível. Hora essa, mas eu queria ha anos tirar a Coca-cola da minha vida, nem que fosse pra trocar por outro refrigerante, mas me livrar desse vicio. Ha males que vem para o bem... Mas é melhor ir ao médico de novo...

Volto ao PS e o médico é categórico: preciso ir em um especialista pois eu devo estar com algo grave. Não é normal uma pessoa ficar mais de 6 semanas como eu estou. Concordo, marco um gastro.

A médica que me atende é muito simpática e diz que o que eu tenho é muito sério, pode ter diversas causas, umas mais simples outras bem complicadas e ela precisa que eu faça exames para eliminar as possibilidades e ver o que esta acontecendo.

Faço os exames. Ultrasom, exames de sangue, colonoscopia... Não consigo fazer a colonoscopia, fico com medo, tenho crises de ansiedade, demoro, e quando finalmente faço o exame, em fevereiro, não consegui fazer o preparo corretamente. Tem que refazer.

Decido seguir a recomendação médica e efetuar o exame em ambiente hospitalar. Meu medo era de não aguentar o jejum, ter uma crise de hipoglicemia, do preparo piorar ainda mais minhas condições. Fazer o exame num ambiente mais controlado ajuda a lidar com a crise de ansiedade que me causa todos esses medos exagerados.

O exame da certo, retorno na médica, eliminamos todos os suspeitos mais graves, sobrou uma indicação no exame de sangue como vilão: tireoide. Hipotireoidismo em uma apresentação atípica. Agora tem que ir no endocrinologista e começar a medicar. Vai tomar mais um remédio pro resto da vida...

Endocrinologista simpática, atenciosa, concorda com a interpretação do exame, e com a avaliação de um quadro atípico, começa a medicar, volte daqui 3 meses pra refazer os exames.

Isso era meio pro final de fevereiro. Foram mais de 10 semanas passando mal. 12 quilos a menos.

Poucos dias tomando a medicação e o corpo já começa a reagir e a voltar ao normal... Março chega e o desarranjo finalmente passou e eu consigo me alimentar um pouco melhor a cada semana.

Não voltei a tomar Coca-cola.

Consigo pensar em outras coisas. Voltar a levar a filha no clube para as aulas de dança... Marcar de retirar aqueles sisos que estão esperando desde o ano passado... Minha disposição começa a melhorar, durmo melhor...

Pandemia...

Medo de sair, medo de ficar em casa e não conseguir se manter. Culpa. Paciência e resiliência... Vai passar se todo mundo fizer a sua parte.



Estamos em Julho. A Pandemia continua e cada vez mais forte, muitas mortes, descaso do poder publico... Mas eu estou bem agora.


Mesmo. Eu estou muito bem!

Depois dos primeiros dois meses de quarentena instável e  depressiva, vendo que precisava de energia extra, provoquei uma virada no humor. Sabia o que devia fazer para provocar um quadro de leve hipomania.

Sim, estou em hipomania agora. Tenho dormido menos, acordado cada vez mais cedo, tenho disposição e bom humor na maior parte do tempo. Com isso consegui ter a iniciativa necessária para planejar e desejar e colocar esses planos em andamento para se tornarem ações, desejos se tornarem objetivos.

Mas estou bem. Depois de tudo que passei nesses meses doente, fisicamente doente, me sentir bem novamente, feliz, é uma conquista enorme.

E hoje pela primeira vez desde que toda minha saga de saúde começou em Novembro eu finalmente consegui vir até aqui e contar essa parte da historia pra vocês.

Quem diria...

E vocês? Como vocês estão?

Senta, puxa uma cadeira, sinta-se em casa! Tenho tanta coisa pra contar ainda....

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Sobre a viagem que transforma...

2017 pra mim foi um ano que teve 3 anos dentro do mesmo ano. Isso aconteceu por causa do efeito que uma viagem que fiz com a Rebeca em Outubro, mas que começou a ser preparada em abril daquele ano.

Em Abril do ano passado eu e Rebeca ganhamos de presente de vários membros da família uma viagem para visitar minha irmã que mora nos EUA.

Foi uma iniciativa da minha irmã, que queria muito que nós fossemos para lá vê-la ao invés de só ela vir para o Brasil.
Eu relutei bastante em aceitar o presente, por medo principalmente, por insegurança, por não me sentir a vontade ganhando um presente tão caro, e tudo o mais. Minha irmã precisou desconstruir cada um dos meus motivos para me convencer.

O que mais pesou para aceitar a proposta de viajar para outro país foi como isso poderia ser importante na vida da Rebeca. Como essa experiência poderia ser rica, dando a ela a vivência em outro país, falar outra língua, conhecer pessoas com uma cultura diferente. E como eu não sabia se teria a oportunidade de oferecer essa vivência a ela tão cedo.

Quando minha irmã tentava me convencer esbarramos logo de cara num medo que eu mesma não sabia que existia. Eu estava com medo de voar de avião. Tinha medo de um desastre, medo que o avião caísse, medo que eu e a  Rebeca pudessemos morrer.
E era um medo enorme, paralisante, irracional.
Estava com medo de viajar sozinha com ela para um país estrangeiro, medo que se nós nos separassemos por alguns segundos eu poderia perde-la pra sempre.
Medo com as novas políticas migratorias, que nos barrassem de entrar no país, que me separassem da minha filha.

Foi aí que mais pessoas da família entraram na história e vieram ao meu socorro.

Começou por minha tia. Conversamos com ela e contamos o caso da viagem e como eu não queria ir pois estava com esses medos, tudo isso numa festa da familia. Minha tia, uma senhora de 75 anos mas com um espírito aventureiro de dar inveja, se ofereceu para ir comigo. Ela planejava fazer uma viagem aquele ano e ainda não tinha decidido para onde e ela nunca havia ido para os EUA. Ofereceu então para unir a vontade dela de conhecer outro lugar e me ajudar, e a minha irmã, a fazer a viagem.

Isso mudou tudo. E eu não poderia ser mais grata.

Eu continuei com medo. Acreditem, esse medo todo só passou na hora que já estávamos em solo americano, mas ter esse apoio, e ganhar força para oferecer essa chance a Rebeca foi essencial.

A primeira coisa que precisamos fazer foi tirar passaporte e vistos. O passaporte foi fácil. O visto no fim também, mas teve todo o estresse do medo do visto ser negado.

Decidimos tirar o visto todos juntos, minha tia, meus pais, eu e Rebeca.

O processo para tirar o visto começa com um formulário online que você responde com seus dados, os dados dos seus contatos no país, e um questionário para avaliar sua candidatura. Você responde o questionário, envia, e paga a taxa de avaliação do mesmo. Após o pagamento da taxa você agenda a entrevista no consulado, momento onde você poderá ter o seu pedido aceito ou não.
Antes da entrevista você tem que se apresentar num posto do consulado americano para checagem dos documentos, fotos e digitais.

Somos o tempo todo inundados com notícias ruins. Como se apenas as coisas negativas merecessem chegar ao noticiario. Então eu estava apavorada já pra passar por esse processo. Um misto de muito medo da solicitação não ser aceita, e uma esperança de que isso realmente acontecesse e eu não precisasse fazer a viagem (aí não ia ser culpa minha!).

Mas correu tudo bem, recebemos nosso direito de visitar os EUA.

Nessa parte, desde que estávamos completando o formulário, recebemos ajuda dos meus primos, filhos da minha tia, que se engajaram para que a viagem fosse um sucesso. Meu primo, que tem uma agência de viagens, nos auxiliou no processo para tirar os vistos e passagens e seguro viagem e minha prima nos ajudou com estadia, compras, dicas, etc

Minha irmã ficou responsável por organizar a viagem, minha passagem e da Rebeca, estadia, programação...

Decidimos que, apesar de minha irmã morar em Washington, essa primeira viagem seria mais interessante para a Rebeca se nós fossemos para a Flórida, onde moram amigos dela com filhas da idade da Rebeca. Faríamos a viagem toda voltada para ela. Seria seu presente de aniversário. Iríamos em Outubro.

Nossa programação então incluía conhecer a Disney e a Universal em Orlando, e conhecer outros pontos turísticos na cidade de Tampa, onde os amigos dela moram. Acreditávamos que a vivência da Rebeca com outras crianças seria mais proveitosa para ela explorar outra lingua. Crianças tem um jeito próprio de se comunicar e se sentem mais a vontade umas com as outras, e apostavamos nisso.

Deu muito certo.

Rebeca já faz inglês na escola, tendo uma fluência muito boa, mas ate a viagem ela tinha muita vergonha de falar em inglês, mesmo entendendo bastante quando falamos com ela. E a viagem serviu para se soltar e se sentir mais segura. Foi realmente uma oportunidade incrível.

Eu também pude me sentir mais confortável com minha fluencia. Apesar de ter sido professora de inglês e já ter convivido com pessoas nativas dessa língua antes eu não tinha tido a chance de viajar para um país de língua inglesa. Estar la e ser capaz de me comunicar confortavelmente foi ótimo.

Mas entre a compra das passagens e tirar o visto em junho e a viagem em outubro eu tive a pior crise de ansiedade da minha vida.

Eu não conseguia pensar em outra coisa. O medo me consumia. Não conseguia me alimentar direito, vivia a base de miojo com muito queijo ralado. Minha imunidade foi pro beleléu e eu fiquei doente o tempo todo.
Um mês antes de viajar eu peguei uma infecção de garganta fortissima, fiquei sem voz, febre, dor, e isso só passou uma semana antes da viagem.

Rebeca não passou despercebida por tudo isso. Por mais que eu tenha tentado protegê-la, no último mês ela acabou ficando doente também.

Quando chegou o grande dia, uma semana depois do aniversário dela, já estávamos bem, ansiosas e animadas. Quando o avião decolou fui sentindo o medo deixar e ficar a animação.
Quando finalmente chegamos em Miami, passamos pela imigração e encontramos minha irmã, toda a preocupação ficou pra trás e estávamos prontas, eu, Rebeca e minha tia, para aproveitar aqueles dias de descobertas...

Continua... ;)