Eu nasci no começo dos anos 80. Estou no começo da geração Milenial e no final da geração X.
O Brasil lutava por sua democracia, sobrevivia entre a hiperinflação e as novidades apresentadas na TV. O mundo mudava e tentávamos alcançá-lo. Perdoamos o passado para tentar ter chance de fazer um futuro melhor.
Nesse contexto meus pais se casaram no fim dos anos 70 e tiveram a minha irmã e eu no começo dos anos 80.
Quando nasci morávamos em uma casa na zona Oeste de SP, numa rua calma, residencial, em uma parte do bairro que entre suas grandes casas, nos abrigava no início de nossa jornada.
Meu pai sonhava alto e iniciava seu próprio negócio ao comprar uma escola em uma cidade vizinha com o ideal de unir o seu desejo de educar e mudar o mundo e crescer profissionalmente num momento instável da economia do país.
Minha mãe se estabelecia como uma das principais responsáveis no laboratório de uma grande multinacional do setor de combustíveis.
E eu e minha irmã chegamos para completar o quadro.
Na casa grande da rua tranquila, pensada e escolhida, um enorme quintal gramado nos fundos da casa. Nele, 3 árvores frutíferas. No centro do jardim um pequeno limoeiro, meio pelado, minguado, fazia lugar de pouso para os passarinhos. No canto inferior direito, uma árvore alta de frutinhas vermelhas semelhantes a morangos sem sementes que nunca mais vi e até hoje não sei o nome. Minha vó era a única que quando essa árvore ficava carregada de frutos, andava embaixo da copa catando e comendo essas misteriosas doçuras que ela levou o nome consigo na minha memória...
E do lado esquerdo, no centro esquerdo, não exatamente num canto, uma enorme amoreira de tronco forte e galhos grossos o suficiente para nos sustentar a subida.
Não lembro quantos anos tinha quando aprendi a segurar no galho mais baixo, e dando um impulso jogar as pernas por cima do tronco que, a uma pequena distância do chão, se repartia em um V e continuava a subir e abrir seus galhos para o sol. Espalhando sua sombra, e tendo no V do tronco um local perfeito para iniciar a subida, quase uma cela na madeira, era para lá que jogávamos as pernas no impulso. Dependuradas no galho, pernas no tronco, abraçávamos a árvore e nos ajeitávamos para continuar a subida.
A amoreira ficava bem perto do muro da casa e ao subir podíamos ver a casa do vizinho. Nossos gatos fizeram esse caminho muito mais do que nós, usando essa proximidade entre planta e pedra para escapar e explorar outras residencias e voltar com segurança.
Uma vez por ano a amoreira ficava carregada de amoras, primeiro verdes e instigando nossa ansiedade, depois vermelhas com seu azedinho e por fim pretas e maduras, doces, ideais para serem colhidas. Tingiam o chão de terra embaixo da árvore de roxo da mesma forma que tingiam nossos dedos e bochechas lambuzadas.
Dessas amoras fizemos sucos, sorvetes, geleias e bolos. Dividimos nosso tesouro com periquitos, bem-te-vi, e todo tipo de pássaros.
Dividimos nosso quintal e nossas árvores com amigos e familiares por cerca de uma década, quando no começo dos anos 90 meus pais decidiram se mudar. Vendemos a casa para poder seguir adiante e continuar construindo nossa história.
Mas deixamos para trás nossa amoreira. Deixei com ela a primeira parte da minha vida. Trouxe comigo o gosto doce das boas lembranças.
Trouxe comigo um amor a uma amoreira...
Mostrando que não deve ser tão diferente ser mãe quando se é ou não bipolar, por que toda mãe tem o seu ladinho insano quando se trata de cuidar do filho. Esse blog tem o objetivo de narrar a experiencia de uma mãe que tem de enfrentar essa fase da vida com a duvida constante, o medo, de como, quando e quanto, sua bipolaridade pode afetar a vida de sua filha. Lidando com a linha tênue entre "normal" e "anormal"...
De mãe e louco todas temos um pouco
Sejam bem vindos ao cantinho aconchegante que reservei para essa conversa. Espero que esses relatos possam de alguma forma ajudar aqueles que tem duvidas, receios, e as vezes até mesmo culpa por não serem perfeitos como gostariamos de ser para nossos filhos, que ja estão aqui, ou estão por vir.
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
Essa é minha forma de compartilhar essa experiencia fantastica que tem sido me tornar mãe, inclusive pelas dificuldades que passei, passo e com certeza irei continuar passando por ser Bipolar. E o quanto nos tornamos mais fortes a cada dia, a cada queda, como essa pessoinha que chegou me mostra a cada dia que passa.
A todos uma boa sorte, uma boa leitura, e uma vida fantastica como tem sido a minha, desde o começo e cada vez mais agora!
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sábado, 21 de setembro de 2019
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Aquele sobre o Natal...
As vezes somos pressionados a fazer coisas mesmo não estando seguros se e a coisa certa a fazer. Tenho certeza que isso já aconteceu com você. Esse Natal aconteceu comigo, e o resultado não foi nada bom...
Rebeca tem 9 anos. É uma menina meiga, alegre, uma criança imaginativa e que vive toda a fantasia permitida para sua idade.
Dai que esse ano começaram as indagações se ela ja não é muito grande para acreditar em Papai Noel. Que já teria idade para deixar esse tipo de fantasia pra trás.
E essa perguntas vinham de pessoas muito próximas, irmã, marido, mãe, e eu sentia que por tras dessas indagações tinha uma acusação de que eu estaria mantendo uma fantasia desnecessaria porque não aceito que ela está crescendo.
Insegura, tentei argumentar que não, que achava que Rebeca ainda não é grande demais, que não acho que exista uma idade certa para isso e que não vejo ela se apegar a existência de Papai Noel e outros seres mágicos como algo ruim.
Mas, como comecei, estava muito insegura. E acabei cedendo e resolvi fazer um teste.
Na família do Taz, meu marido, a tradição era de abrir os presentes na manhã do dia 25, e na minha na meia noite do dia 24 para 25. Durante todos esses anos seguimos a tradição da minha família. Esse último ano resolvi mudar, como um teste, para ver como Rebeca iria reagir.
Não contei a ela, mas conversamos várias vezes sobre como era na família do pai dela, etc etc...
Na noite do dia 24 abrimos os presentes mais cedo do que o de costume. Meus sogros passaram o Natal conosco e precisavam voltar pra casa e como não teria a necessidade de esperar o Sr Noel, mudamos nosso cronograma.
Mas Rebeca continuava aflita, ansiosa, esperançosa. As horas iam passando e era possível notar a inquietação dela.
Tentei falar com ela, e ela dizia que entendia, que não é porque ele, Papai Noel, tinha vindo sempre a meia noite nos últimos anos, que ele viria esse horario sempre. Que ela já tinha ganhado presentes e podia se divertir com o que tinha ganhado... E ela concordava, mas era visivel que não estava tudo bem.
Eu não quis falar que Papai Noel não viria. Eu queria ver se ela chegava a conclusão sozinha, se sentia falta desse momento de fantasia.
Deu meia noite... 1h da manhã... E eu declarei que era hora de dormir e que não iríamos esperar mais.
Ela foi para o quarto se trocar, esperei uns minutos e a segui. E Rebeca chorava. Chorava muito. Eu sentia sua dor em cada soluçar.
"Ele não veio! Ele não veio mesmo! Ele me esqueceu! Ele esqueceu!"
E de repente eu entendi o que eu tinha feito.
Entendi que eu quis adiantar algo para o que ela não estava pronta. Que provoquei não apenas uma frustração mas um sentimento de abandono. E por quê? Por causa da pressão de outras pessoas...
Mas eu não podia voltar atrás. Sentia que seria pior se eu a fizesse passar por tudo isso por nada, e cedesse no final.
Ficamos juntas por quase uma hora, eu consolando e ela chorando, ate que ela aceitou dormir.
Providenciei que Papai Noel passasse na madrugada e deixasse seu presente para ela abrir quando acordasse. Depositei embaixo da árvore o presente que havia separado e fui dormir.
Quando acordamos no dia 25 ela não acordou animada. Não estava feliz ou esperançosa. Continuava triste.
Eu a chamei para vir a sala, tomar café. E quando ela entrou e viu o presente embaixo da árvore foi como se as luzes do Natal se acendescem de novo!
"Ele veio!"
E tudo que consegui dizer foi: "Viu só, ele não esqueceu de você!"
Porque temos a necessidade de tirar a infância de nossas crianças? Porque temos essa pressa em vê-las crescer? Que mal há em manter a magia pelo tempo delas e não o nosso?
Ela não estava preparada e eu, na minha pressa e insegurança, provoquei uma dor que não precisava ter existido se eu apenas tivesse confiado mais em mim e ouvido o que meu coração me dizia desde o começo: respeito. Respeito a infância de minha filha. Respeito ao tempo dela. Respeito a sua inocência, a sua vontade, e a seus sonhos. Respeito.
Espero ter aprendido minha lição.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Sobre um outro dia, pouco tempo atrás...
A gente vê com certa frequência por ai notícias falando de como um grupo, uma comunidade, se junta para ir no aniversário de uma criança, após um dos pais postar nas redes sociais que nenhum dos colegas convidados foi.
Eu sempre via essas histórias e me perguntava, se apesar da resposta das pessoas ser positiva e muitos se disporem a ir na festa, se esse tipo de exposição era uma boa coisa para a criança.
Até que esse ano aconteceu uma coisa que eu demorei pra lidar e vir aqui contar.
Todos os anos nós comemoramos o aniversário da Rebeca em etapas. São várias comemorações de forma a tentar englobar todas as opções, família, escola, clube, amigos.
Postei aqui sobre o dia do aniversário dela, de como foi bom, como nos divertimos preparando tudo, e como apesar das dificuldades conseguimos tirar o melhor proveito.
Mas acontece que nos tinhamos ainda uma última programação, para os amigos de fora da escola e familiares além do nosso pequeno nucleo residencial.
O plano era fazer um passeio em um parque de diversões durante o dia e um jantar num rodízio de pizza a noite, com bolo e parabens.
Dai aconteceu.
O passeio do parque e o jantar eram todos no esquema cada um paga o seu. Com isso eu já esperava que não fossemos ter companhia de outras pessoas no parque, pela entrada ser cara e tudo mais e muitas pessoas estarem com problemas por causa da crise. Dito e feito, fomos apenas eu e a Rebeca mesmo, foi divertido, mas ficou faltando alguma coisa.
A noite ela se arrumou toda para irmos a pizzaria. Estava animada, esperançosa.
E a única pessoa que apareceu foi um amigo meu, muito querido e próximo, mas adulto.
Só.
Não teve outras pessoas, outras crianças.
De repente estávamos em uma mesa grande para comportar as pessoas que haviam dito que iriam, apenas nós 4.
A pizza podia ser boa, mas o gosto amargo de nenhum dos amigos ter ido, nenhum dos primos...
E então eu fiquei me perguntando como seria se eu tivesse postado uma foto dela nas redes sociais, sozinha na mesa. Que bom eu teria feito a ela.
Eu conheço minha filha o suficiente pra saber quanto ela ficou magoada.
Focamos na parte que deu certo, a festa na escola, no ballet... Mas sei que isso será lembrado.
Eu escolhi não divulgar essa história até agora porque a intenção não é a de ganhar confete, causar pena, fazer qualquer comoção.
Tem a ver com como eu vejo isso, como eu senti e vi o que ela passou. Como eu decidi lidar com isso.
Me sinto ainda hoje muito culpada. Ter escolhido fazer o passeio no lugar da festa foi uma decisão movida por tudo que vivemos em casa esse ano. Mas como me arrependo. Sei que muitos dos que não foram teriam comparecido se a festa fosse em casa.
E o que eu quero contando isso aqui e deixar um registro. Não quero esquecer.
As vezes as pessoas tomam pequenas ações, como confirmar presença em um aniversário e não comparecer, na certeza que não será importante. Quem iria imaginar que praticamento todos os convidados, cada um por seu motivo, iriam deixar de comparecer e uma criança se veria sem nenhum coleguinha na mesa em seu aniversário?
Pois eu também achava improvável, até acontecer conosco.
Não foi certo o que aconteceu, nem foi justo. Foi triste. E eu sei que quando chegar a hora de planejar algo pro aniversário dela do ano que vem e dos proximos isso será lembrado, por ela e por mim.
Eu nunca convidei qualquer um para as festas da Rebeca. Os convidados sempre foram escolhidos pensando em reunir pessoas que ela gosta, outras crianças, aqueles que se mostraram mais próximos.
Esse ano nos sentimos mais sozinhos.
E eu agradeço todos os dias por Rebeca ser a pessoa incrível que ela é. Compreensivel, calma, alegre, sempre tentando tirar o melhor de cada situação. E por ela ser criança e ter muitos aniversários pela frente para poder deixar esse pra trás com as memorias boas apagando as ruins.
Eu no entanto não sou mais criança.
E minha memória é muito boa.
Eu sempre via essas histórias e me perguntava, se apesar da resposta das pessoas ser positiva e muitos se disporem a ir na festa, se esse tipo de exposição era uma boa coisa para a criança.
Até que esse ano aconteceu uma coisa que eu demorei pra lidar e vir aqui contar.
Todos os anos nós comemoramos o aniversário da Rebeca em etapas. São várias comemorações de forma a tentar englobar todas as opções, família, escola, clube, amigos.
Postei aqui sobre o dia do aniversário dela, de como foi bom, como nos divertimos preparando tudo, e como apesar das dificuldades conseguimos tirar o melhor proveito.
Mas acontece que nos tinhamos ainda uma última programação, para os amigos de fora da escola e familiares além do nosso pequeno nucleo residencial.
O plano era fazer um passeio em um parque de diversões durante o dia e um jantar num rodízio de pizza a noite, com bolo e parabens.
Dai aconteceu.
O passeio do parque e o jantar eram todos no esquema cada um paga o seu. Com isso eu já esperava que não fossemos ter companhia de outras pessoas no parque, pela entrada ser cara e tudo mais e muitas pessoas estarem com problemas por causa da crise. Dito e feito, fomos apenas eu e a Rebeca mesmo, foi divertido, mas ficou faltando alguma coisa.
A noite ela se arrumou toda para irmos a pizzaria. Estava animada, esperançosa.
E a única pessoa que apareceu foi um amigo meu, muito querido e próximo, mas adulto.
Só.
Não teve outras pessoas, outras crianças.
De repente estávamos em uma mesa grande para comportar as pessoas que haviam dito que iriam, apenas nós 4.
A pizza podia ser boa, mas o gosto amargo de nenhum dos amigos ter ido, nenhum dos primos...
E então eu fiquei me perguntando como seria se eu tivesse postado uma foto dela nas redes sociais, sozinha na mesa. Que bom eu teria feito a ela.
Eu conheço minha filha o suficiente pra saber quanto ela ficou magoada.
Focamos na parte que deu certo, a festa na escola, no ballet... Mas sei que isso será lembrado.
Eu escolhi não divulgar essa história até agora porque a intenção não é a de ganhar confete, causar pena, fazer qualquer comoção.
Tem a ver com como eu vejo isso, como eu senti e vi o que ela passou. Como eu decidi lidar com isso.
Me sinto ainda hoje muito culpada. Ter escolhido fazer o passeio no lugar da festa foi uma decisão movida por tudo que vivemos em casa esse ano. Mas como me arrependo. Sei que muitos dos que não foram teriam comparecido se a festa fosse em casa.
E o que eu quero contando isso aqui e deixar um registro. Não quero esquecer.
As vezes as pessoas tomam pequenas ações, como confirmar presença em um aniversário e não comparecer, na certeza que não será importante. Quem iria imaginar que praticamento todos os convidados, cada um por seu motivo, iriam deixar de comparecer e uma criança se veria sem nenhum coleguinha na mesa em seu aniversário?
Pois eu também achava improvável, até acontecer conosco.
Não foi certo o que aconteceu, nem foi justo. Foi triste. E eu sei que quando chegar a hora de planejar algo pro aniversário dela do ano que vem e dos proximos isso será lembrado, por ela e por mim.
Eu nunca convidei qualquer um para as festas da Rebeca. Os convidados sempre foram escolhidos pensando em reunir pessoas que ela gosta, outras crianças, aqueles que se mostraram mais próximos.
Esse ano nos sentimos mais sozinhos.
E eu agradeço todos os dias por Rebeca ser a pessoa incrível que ela é. Compreensivel, calma, alegre, sempre tentando tirar o melhor de cada situação. E por ela ser criança e ter muitos aniversários pela frente para poder deixar esse pra trás com as memorias boas apagando as ruins.
Eu no entanto não sou mais criança.
E minha memória é muito boa.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Sobre passado, presente e futuro
Quando eu era pequena, com uns 8 anos +-, eu fugi de casa.
Assim, fugi naquelas... Brava com meus pais por terem brigado comigo por alguma coisa que hoje já não lembro mais, eu fui decidida ao meu quarto, esvaziei minha mochila da escola e coloquei ali as coisas que achava essenciais. Quando me dei por satisfeita e não cabia mais nada na mochila, fui até a sala, fiz uma despedida dramática e sai porta afora para o mundo!
Não lembro tudo o que coloquei na mochila. Lembro de roupas, gibis... Na garagem de casa esquivei das nossas cachorras querendo brincar, abri o portão e fui pra rua.
Cheguei ate a esquina. Era de noite, a rua estava escura e vazia. Tive medo e voltei para casa. No entanto, sem querer dar o braço a torcer, e querendo que sentissem minha falta e se arrependessem de ter brigado comigo injustamente e viessem atrás de mim, decidi não entrar em casa e ficar na garagem. Lá havia uma casinha de cachorro enorme para nossas 4 cadelinhas, onde eu subi e fiquei sentada em cima pelo que me pareceram horas.
Cansada e com sono e sem ninguém ter vindo atrás de mim, vencida, entrei em casa. Meus pais, sentado no sofá da sala, me olham espantados e me perguntam onde eu estava.
Se foi verdade ou não que eles não sabiam eu não sei. Hoje eu conto essa história e eles nem ao menos se lembram do acontecido. Para mim a sensação de que eles nem ao menos perceberão minha ausência ou sentiram minha falta foi desoladora.
Mas minhas tentativas de mostrar minha frustração com broncas e querer que eles se arrependessem e demonstrassem isso não parou por ai. Desisti de fugir de casa, mas passei a me esconder embaixo da escada da nossa casa, um sobrado, e ficava lá embaixo, o mais fundo que podia, para que se eles olhassem só de longe não conseguissem me ver, e esperava que eles me procurassem.
Não lembro deles me procurarem mas acredito que eles o tenham feito. O que me lembro é das vezes que esperei em vão. A mais longa delas eu acabei adormecendo ali escondida e acordei horas depois sem ninguém ter ido me chamar.
Eventualmente desisti dessa prática, não sem um profundo sentimento de abandono.
Hoje olho pra trás e se por um lado olho para minhas próprias atitudes e penso em como estava sendo manhosa e mimada, por outro lado não tenho certeza se acredito nisso.
Talvez meus pais fizessem isso de proposito, exatamente para não me mimar demais. Talvez alguém tenha dito a eles que eu não podia vencer essas disputas pois isso tiraria a autoridade deles, ou faria com que eu respeitasse menos quando fizesse algo errado. Não sei. Todas essas hipóteses foram coisas que ouvi e li falarem sobre crianças ao longo dos anos.
No entanto, como meu terapeuta costumava me dizer, e como minha terapeuta atual me diz, e ate como uma astróloga que fez meu mapa astral anos atrás também comentou, eu sou uma pessoa muito consciente de mim mesmo.
E tenho ótima memória. E memória emocional.
E durante a gravidez da Rebeca eu me conectei muito comigo mesma e encarei medos, seguranças, sonhos, lembranças.
E uma das muitas coisas que trouxe dessa experiência foi a de tentar entender como minha filha se sente, e levar isso em consideração quando fizesse minhas escolhas de como lidar com ela.
Eu não queria, ou quero, que ela carregue esse tipo de sentimento de abandono como eu carreguei.
Isso nunca significou no oferecer disciplina, ou fazer todos os desejos, mas significou levar em consideração o modo.
No começo um pouco mais dura, hoje talvez mais livre, eu procurava e procuro observar a ação e a reação.
Quando ela era pequena e nos precisávamos ir embora de algum lugar onde ela se divertia, era claro que ela não ia querer parar de brincar. Então eu começava com um aviso: "Daqui 10 min vamos embora!". Dali a pouco um segundo aviso: "Só mais 5 min!". Até chegar no "vamos embora!". Entre os 1 ano e meio e uns 3 anos essa parte era seguida de choro, de não querer ir, de se jogar no chão.
Sim, é sempre assim. E eu aceitava esse comportamento dela e entendia sua frustração e a amparava. Abraçava, dizia que estava tudo bem, que era normal o que ela estava sentindo e tentava ajudá-la a se acalmar. Pacientemente. E quando ela parava eu levantava e dizia que iríamos embora.
Por vezes tive que esperar e fazer esse trabalho 2, 3 vezes até ela se acalmar e aceitar ir embora. Mas conforme os meses iam passando ela se acalmava mais rápido, insistia menos, até que finalmente os avisos se tornaram suficientes.
A ideia de que era possível ser coerente e firme nas decisões e ao mesmo tempo amparar e ser solidária ao que ela sentia fazia parte da essencia do tipo de mãe que eu desejava ser.
Hoje Rebeca tem 9 anos e está vivendo uma novidade em seu comportamento. É uma novidade que não vai passar. Não, é o começo de algo que depois reconhecemos como adolescência.
É um movimento tímido ainda, mas presente. Ela agora responde, quer ser ouvida, quer ser levada a serio. Quer demonstrações que confiamos nela.
Mesmo nos momentos que ela sabe que a gente sabe que ela não está sendo lá tão sincera.
Nada grave. Coisas simples, como dizer que já penteou o cabelo para ir a escola, ou que esqueceu de colocar o tênis nos dias de educação física e por isso estava de sapatilhas.
Conversamos, explicamos. Quantas vezes são necessarias e um pouco mais.
As vezes pedimos algo ou perguntamos alguma coisa que ela já explicou antes só para ouvir um "mas eu já disse isso! Você não ouviu?".
Ela nunca grita. Nem nós.
Ela questiona porque de algumas ordens. E fica magoada verdadeiramente se mandamos ela fazer algo ou chamamos sua atenção por alguma coisa de pouca importância ou que ela sente que não estava errada.
Hoje meu trabalho é o mesmo. Amparar e acolher. Explicar. Dar disciplina sim. Mas saber voltar atrás e pedir desculpas e mostrar pra ela que ela foi ouvida, que sua opiniao importa, que seus sentimentos são levados em consideração e que é possível ela estar certa e nos errados. E isso tudo sem deixar de ser firme quando necessário. Sem deixar de ter regras claras e rotinas. Sem fazer todos os seus desejos. Mostrando limites sim.
E tudo que eu espero é ter a chance de agir com ela como eu acho certo. Como senti falta de ter comigo.
Posso estar errada.
Mas as vezes ser mãe e isso. Ter a chance de tentar fazer diferente e cometer nossos próprios erros.
Mas ca entre nós?
Por enquanto eu acho que está dando certo...
Assim, fugi naquelas... Brava com meus pais por terem brigado comigo por alguma coisa que hoje já não lembro mais, eu fui decidida ao meu quarto, esvaziei minha mochila da escola e coloquei ali as coisas que achava essenciais. Quando me dei por satisfeita e não cabia mais nada na mochila, fui até a sala, fiz uma despedida dramática e sai porta afora para o mundo!
Não lembro tudo o que coloquei na mochila. Lembro de roupas, gibis... Na garagem de casa esquivei das nossas cachorras querendo brincar, abri o portão e fui pra rua.
Cheguei ate a esquina. Era de noite, a rua estava escura e vazia. Tive medo e voltei para casa. No entanto, sem querer dar o braço a torcer, e querendo que sentissem minha falta e se arrependessem de ter brigado comigo injustamente e viessem atrás de mim, decidi não entrar em casa e ficar na garagem. Lá havia uma casinha de cachorro enorme para nossas 4 cadelinhas, onde eu subi e fiquei sentada em cima pelo que me pareceram horas.
Cansada e com sono e sem ninguém ter vindo atrás de mim, vencida, entrei em casa. Meus pais, sentado no sofá da sala, me olham espantados e me perguntam onde eu estava.
Se foi verdade ou não que eles não sabiam eu não sei. Hoje eu conto essa história e eles nem ao menos se lembram do acontecido. Para mim a sensação de que eles nem ao menos perceberão minha ausência ou sentiram minha falta foi desoladora.
Mas minhas tentativas de mostrar minha frustração com broncas e querer que eles se arrependessem e demonstrassem isso não parou por ai. Desisti de fugir de casa, mas passei a me esconder embaixo da escada da nossa casa, um sobrado, e ficava lá embaixo, o mais fundo que podia, para que se eles olhassem só de longe não conseguissem me ver, e esperava que eles me procurassem.
Não lembro deles me procurarem mas acredito que eles o tenham feito. O que me lembro é das vezes que esperei em vão. A mais longa delas eu acabei adormecendo ali escondida e acordei horas depois sem ninguém ter ido me chamar.
Eventualmente desisti dessa prática, não sem um profundo sentimento de abandono.
Hoje olho pra trás e se por um lado olho para minhas próprias atitudes e penso em como estava sendo manhosa e mimada, por outro lado não tenho certeza se acredito nisso.
Talvez meus pais fizessem isso de proposito, exatamente para não me mimar demais. Talvez alguém tenha dito a eles que eu não podia vencer essas disputas pois isso tiraria a autoridade deles, ou faria com que eu respeitasse menos quando fizesse algo errado. Não sei. Todas essas hipóteses foram coisas que ouvi e li falarem sobre crianças ao longo dos anos.
No entanto, como meu terapeuta costumava me dizer, e como minha terapeuta atual me diz, e ate como uma astróloga que fez meu mapa astral anos atrás também comentou, eu sou uma pessoa muito consciente de mim mesmo.
E tenho ótima memória. E memória emocional.
E durante a gravidez da Rebeca eu me conectei muito comigo mesma e encarei medos, seguranças, sonhos, lembranças.
E uma das muitas coisas que trouxe dessa experiência foi a de tentar entender como minha filha se sente, e levar isso em consideração quando fizesse minhas escolhas de como lidar com ela.
Eu não queria, ou quero, que ela carregue esse tipo de sentimento de abandono como eu carreguei.
Isso nunca significou no oferecer disciplina, ou fazer todos os desejos, mas significou levar em consideração o modo.
No começo um pouco mais dura, hoje talvez mais livre, eu procurava e procuro observar a ação e a reação.
Quando ela era pequena e nos precisávamos ir embora de algum lugar onde ela se divertia, era claro que ela não ia querer parar de brincar. Então eu começava com um aviso: "Daqui 10 min vamos embora!". Dali a pouco um segundo aviso: "Só mais 5 min!". Até chegar no "vamos embora!". Entre os 1 ano e meio e uns 3 anos essa parte era seguida de choro, de não querer ir, de se jogar no chão.
Sim, é sempre assim. E eu aceitava esse comportamento dela e entendia sua frustração e a amparava. Abraçava, dizia que estava tudo bem, que era normal o que ela estava sentindo e tentava ajudá-la a se acalmar. Pacientemente. E quando ela parava eu levantava e dizia que iríamos embora.
Por vezes tive que esperar e fazer esse trabalho 2, 3 vezes até ela se acalmar e aceitar ir embora. Mas conforme os meses iam passando ela se acalmava mais rápido, insistia menos, até que finalmente os avisos se tornaram suficientes.
A ideia de que era possível ser coerente e firme nas decisões e ao mesmo tempo amparar e ser solidária ao que ela sentia fazia parte da essencia do tipo de mãe que eu desejava ser.
Hoje Rebeca tem 9 anos e está vivendo uma novidade em seu comportamento. É uma novidade que não vai passar. Não, é o começo de algo que depois reconhecemos como adolescência.
É um movimento tímido ainda, mas presente. Ela agora responde, quer ser ouvida, quer ser levada a serio. Quer demonstrações que confiamos nela.
Mesmo nos momentos que ela sabe que a gente sabe que ela não está sendo lá tão sincera.
Nada grave. Coisas simples, como dizer que já penteou o cabelo para ir a escola, ou que esqueceu de colocar o tênis nos dias de educação física e por isso estava de sapatilhas.
Conversamos, explicamos. Quantas vezes são necessarias e um pouco mais.
As vezes pedimos algo ou perguntamos alguma coisa que ela já explicou antes só para ouvir um "mas eu já disse isso! Você não ouviu?".
Ela nunca grita. Nem nós.
Ela questiona porque de algumas ordens. E fica magoada verdadeiramente se mandamos ela fazer algo ou chamamos sua atenção por alguma coisa de pouca importância ou que ela sente que não estava errada.
Hoje meu trabalho é o mesmo. Amparar e acolher. Explicar. Dar disciplina sim. Mas saber voltar atrás e pedir desculpas e mostrar pra ela que ela foi ouvida, que sua opiniao importa, que seus sentimentos são levados em consideração e que é possível ela estar certa e nos errados. E isso tudo sem deixar de ser firme quando necessário. Sem deixar de ter regras claras e rotinas. Sem fazer todos os seus desejos. Mostrando limites sim.
E tudo que eu espero é ter a chance de agir com ela como eu acho certo. Como senti falta de ter comigo.
Posso estar errada.
Mas as vezes ser mãe e isso. Ter a chance de tentar fazer diferente e cometer nossos próprios erros.
Mas ca entre nós?
Por enquanto eu acho que está dando certo...
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segunda-feira, 5 de novembro de 2018
Sobre Natais passados...
Hoje é segunda feira de manhã. Acordo cedo para começar a rotina: trocar de roupa, arrumar Rebeca para a aula, tomar café...
Enquanto ela está na aula eu estou aqui pensando nas fotos que fiquei vendo ontem no meu domingo preguiçoso. Entre elas, fotos do Natal de quando eu era criança.
Eu tenho essa memória de uma época mais simples. De um Natal cheio de pessoas em casa, tios e primos, muita comida e bebida, presentes e mais presentes, bagunça das crianças e risadas dos adultos.
Uma das coisas que gostaria de ter feito diferente se pudesse seria ter mais filhos. Não tê-los não foi uma decisão fácil, mas foi sensata. Hoje eu dependo de ajuda para dar a minha filha o que posso, o melhor. Não seria possível fazer metade do que faço, dar a ela metade do que dou, se tivésse uma única boca a mais para alimentar.
No entanto essas fotos mexem comigo e fico pensando como seria possível fazer mais, dar a Rebeca memórias tão boas do Natal como as minhas...
Muito da graca do Natal estava em ter a família em casa. Meus tios por parte de mãe passavam a noite do dia 24 conosco numa enorme festa, ou é assim que eu me lembro.
Meus primos vinham e passávamos horas animados brincando juntos, bonecas, bolas, cordas de pular, rede na varanda, jogos e mais jogos. Em determinado momento o Papai Noel chegava e enquanto olhavamos para o céu, todos reunidos no jardim, na esperança de ver o bom velhinho passar, a árvore se enchia de pacotes embrulhados de papel colorido.
A ceia era farta, deliciosa. Lembro, claro, da vez que minha mãe deixou o Chester queimar. Suspeito que ela apenas tirou a casca queimada de fora e comemos o interior da carne queimada mesmo.
Lembro de passar a noite acordada com minha prima, conversando e fazendo chocolates na Fábrica de Chocolates que ela ganhou naquele Natal.
Lembro do último Natal que passei com minha avó Beth, tia da minha mãe, que me deu o meu primeiro vídeo game realmente meu, e uma linda arvorezinha de pedrinhas coloridas, essa última com o pedido que eu a guardasse com carinho e que sempre que olhasse para o pequeno enfeite lembrasse dela.
Eu tenho a arvorezinha ate hoje, e sim, sempre lembro dela.
Todo dia 25, desde sempre, acordavamos para o café, nos arrumavamos, e passávamos o almoço de Natal na casa da família do meu pai, no começo na casa de minha avó, depois que ela se foi, na casa da minha tia.
Mas conforme os anos foram passando as famílias foram se afastando. Primeiro meu tio e a família que decidiram passar os Natais com os pais da minha tia por valorizar o tempo com eles que já estavam com idade avançada. Depois minha tia que mudou-se para outro país com os filhos, para um doutorado, e mesmo quando ela voltou às coisas não foram as mesmas. Minha prima havia se casado e ficado no outro país, meu primo voltará anos antes mas manteve distância, minha tia continuou sua busca por si mesma.
O Natal passou então a ser com minha tia, prima de minha mãe, e meus primos menores. As vezes em nossa casa, depois na deles, num sítio no interior.
Depois que Rebeca nasceu isso mudou de novo. Por pedido de minha irmã e minha mãe passamos a fazer a véspera de Natal apenas com nosso núcleo.
E então eu não tive como dar essa experiência pra ela.
Sim, ainda passamos o almoço de Natal na casa da minha tia, e lá se reúnem tios e primos, crianças por todo lado, bagunça, risadas, muita conversa, muita comida e bebida.
Mas não é a mesma coisa.
Por mais que eu me esforce o dia 24 acaba sendo vazio. Falta vida, falta alegria, falta aquilo que faz o dia ser mágico, falta aquilo que cria boas memórias.
Minha irmã diz que não gosta de Natal e de trocar presentes nesse dia por ele ser muito comercial, muito voltado ao consumo. Mas ela não entende que quando você não tem uma festa, uma reunião, algo a esperar nesse dia, é aí que o foco acaba ficando apenas no ganhar.
E eu estou aqui, nessa crise que vocês têm acompanhado, saudosa desse tempo e pensando no futuro.
Como será o Natal esse ano? E o dos próximos anos?
Quando o que eu tenho hoje não existir mais, com quem estarei passando meu Natal daqui 10 ou 15 anos?
Como eu posso dar o que eu mais quero pra Rebeca nesse e nos próximos Natais?
Boas memórias...
Enquanto ela está na aula eu estou aqui pensando nas fotos que fiquei vendo ontem no meu domingo preguiçoso. Entre elas, fotos do Natal de quando eu era criança.
Eu tenho essa memória de uma época mais simples. De um Natal cheio de pessoas em casa, tios e primos, muita comida e bebida, presentes e mais presentes, bagunça das crianças e risadas dos adultos.
Uma das coisas que gostaria de ter feito diferente se pudesse seria ter mais filhos. Não tê-los não foi uma decisão fácil, mas foi sensata. Hoje eu dependo de ajuda para dar a minha filha o que posso, o melhor. Não seria possível fazer metade do que faço, dar a ela metade do que dou, se tivésse uma única boca a mais para alimentar.
No entanto essas fotos mexem comigo e fico pensando como seria possível fazer mais, dar a Rebeca memórias tão boas do Natal como as minhas...
Muito da graca do Natal estava em ter a família em casa. Meus tios por parte de mãe passavam a noite do dia 24 conosco numa enorme festa, ou é assim que eu me lembro.
Meus primos vinham e passávamos horas animados brincando juntos, bonecas, bolas, cordas de pular, rede na varanda, jogos e mais jogos. Em determinado momento o Papai Noel chegava e enquanto olhavamos para o céu, todos reunidos no jardim, na esperança de ver o bom velhinho passar, a árvore se enchia de pacotes embrulhados de papel colorido.
A ceia era farta, deliciosa. Lembro, claro, da vez que minha mãe deixou o Chester queimar. Suspeito que ela apenas tirou a casca queimada de fora e comemos o interior da carne queimada mesmo.
Lembro de passar a noite acordada com minha prima, conversando e fazendo chocolates na Fábrica de Chocolates que ela ganhou naquele Natal.
Lembro do último Natal que passei com minha avó Beth, tia da minha mãe, que me deu o meu primeiro vídeo game realmente meu, e uma linda arvorezinha de pedrinhas coloridas, essa última com o pedido que eu a guardasse com carinho e que sempre que olhasse para o pequeno enfeite lembrasse dela.
Eu tenho a arvorezinha ate hoje, e sim, sempre lembro dela.
Todo dia 25, desde sempre, acordavamos para o café, nos arrumavamos, e passávamos o almoço de Natal na casa da família do meu pai, no começo na casa de minha avó, depois que ela se foi, na casa da minha tia.
Mas conforme os anos foram passando as famílias foram se afastando. Primeiro meu tio e a família que decidiram passar os Natais com os pais da minha tia por valorizar o tempo com eles que já estavam com idade avançada. Depois minha tia que mudou-se para outro país com os filhos, para um doutorado, e mesmo quando ela voltou às coisas não foram as mesmas. Minha prima havia se casado e ficado no outro país, meu primo voltará anos antes mas manteve distância, minha tia continuou sua busca por si mesma.
O Natal passou então a ser com minha tia, prima de minha mãe, e meus primos menores. As vezes em nossa casa, depois na deles, num sítio no interior.
Depois que Rebeca nasceu isso mudou de novo. Por pedido de minha irmã e minha mãe passamos a fazer a véspera de Natal apenas com nosso núcleo.
E então eu não tive como dar essa experiência pra ela.
Sim, ainda passamos o almoço de Natal na casa da minha tia, e lá se reúnem tios e primos, crianças por todo lado, bagunça, risadas, muita conversa, muita comida e bebida.
Mas não é a mesma coisa.
Por mais que eu me esforce o dia 24 acaba sendo vazio. Falta vida, falta alegria, falta aquilo que faz o dia ser mágico, falta aquilo que cria boas memórias.
Minha irmã diz que não gosta de Natal e de trocar presentes nesse dia por ele ser muito comercial, muito voltado ao consumo. Mas ela não entende que quando você não tem uma festa, uma reunião, algo a esperar nesse dia, é aí que o foco acaba ficando apenas no ganhar.
E eu estou aqui, nessa crise que vocês têm acompanhado, saudosa desse tempo e pensando no futuro.
Como será o Natal esse ano? E o dos próximos anos?
Quando o que eu tenho hoje não existir mais, com quem estarei passando meu Natal daqui 10 ou 15 anos?
Como eu posso dar o que eu mais quero pra Rebeca nesse e nos próximos Natais?
Boas memórias...
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terça-feira, 10 de julho de 2012
O valor do dinheiro
Cena:
Taz e Rebeca passeando pela rua perto de casa, voltam e ela entra em casa e vem me chamar no quarto.
- Mamãe, me dá um dinheilinho pa eu compa um vilolãozinhoi?
- Um o que, filha?
- Um dinheilinho! Papai falou pa eu pedi um dinheilinho pa compa o meu vilolãozinho!
Entrego uma caixinha de metal com umas moedinhas e ela sai feliz de encontro ao pai na porta de casa. Eu vou atras pra garantir que ia ficar tudo bem e pra entender o que estava acontecendo.
- Papai! Mamãe me deu o dinheilinho!
Ele pega a latinha e abre dizendo:
- Deu filha? Agora você vai comprar seu violãozinho?
Ela olha a latinha, pega UMA moedinha e diz:
- Vou! Com essa aqui! - apontando pra moedinha - Já volto!
Segurando a risada digo:
- Espera que papai vai com você e não esquece de ir de m~]ao dada!
Ela coloca a moedinha no bolso e sai, de mão dada e confiante!
E voltou pra casa com uma guitarrinha de brinquedo muito fofa escolhida - e paga! rs - por ela!
Nem merecia a crise de alergia que teve agora no comecinho da noite né?
Taz e Rebeca passeando pela rua perto de casa, voltam e ela entra em casa e vem me chamar no quarto.
- Mamãe, me dá um dinheilinho pa eu compa um vilolãozinhoi?
- Um o que, filha?
- Um dinheilinho! Papai falou pa eu pedi um dinheilinho pa compa o meu vilolãozinho!
Entrego uma caixinha de metal com umas moedinhas e ela sai feliz de encontro ao pai na porta de casa. Eu vou atras pra garantir que ia ficar tudo bem e pra entender o que estava acontecendo.
- Papai! Mamãe me deu o dinheilinho!
Ele pega a latinha e abre dizendo:
- Deu filha? Agora você vai comprar seu violãozinho?
Ela olha a latinha, pega UMA moedinha e diz:
- Vou! Com essa aqui! - apontando pra moedinha - Já volto!
Segurando a risada digo:
- Espera que papai vai com você e não esquece de ir de m~]ao dada!
Ela coloca a moedinha no bolso e sai, de mão dada e confiante!
E voltou pra casa com uma guitarrinha de brinquedo muito fofa escolhida - e paga! rs - por ela!
Nem merecia a crise de alergia que teve agora no comecinho da noite né?
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